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A crise do Sonho Americano: Neoliberalismo, Estado e Trump

Autores como Eric Hobsbawm[1], Noam Chomsky[2], David Harvey[3] e Francis Fukuyama[4], são de grande importância para que seja possível compreender as bases da Modernidade, em pleno século XXI. Período este, demarcado por incertezas estruturais na natureza das relações humanas e especialmente nas Relações Internacionais, na qual se faz sensível compreender como a construção de um novo ordenamento do Sistema Internacional é impactada pelo encerramento de uma Era dos Extremos e a ideia do “Fim da História”, demarcando uma era onde os valores ocidentais são hegemônicos. A modernidade nos aponta que o mundo contemporâneo defronta-se com desafios e problemas para os quais não temos soluções e caminhos claros.

Portanto, como podemos nos valer das contribuições das Relações Internacionais para compreender os novos cenários que se apresentam, em especial no delicado momento histórico atual? O trabalho teórico que se estabelece para a compreensão da modernidade é um interessante desafio para os atuais e futuros analistas de relações internacionais dadas as recentes mudanças nas lógicas estabelecidas ao redor do mundo, como a ascensão de atores “não-políticos” e “outsiders do sistema” ao exemplo de Donald Trump e as transformações estruturais no ordenamento dos Sistema Internacional.

Dentre as diversas intepretações para a ascensão de outsiders à política e o cenário econômico e político desafiador nas Américas, podemos traçar uma linha de pensamento dialético que nos permite compreender como os EUA e os demais países, assim como suas respectivas populações e sistemas político-econômicos, estão posicionadas dentro de um quadro internacional de contradições entre forças diametralmente opostas.

As transformações estruturais que vemos desde meados da década de 1990, com a globalização, descentralização da capacidade decisória dos Estados Nacionais e dos atores estatais, tais como o crescente poder dos entes privados em todos os níveis, provocam um confronto entre duas classes de forças e interesses: Os cidadãos comuns, que buscam condições adequadas de vida para si e seus familiares; e os interesses de atores econômicos, os quais sob os paradigmas neoliberais, são os principais responsáveis por prover as necessidades das sociedades e que se tornam os principais formadores de opinião e ideias junto à academia e à população, aplicando a lógica econômica capitalista à todos os níveis de relações humanas.[5]

Os diferentes interesses entre as forças econômicas, notadamente os detentores do capital, e as demandas populacionais, tem como resultado a concentração de poder político e decisório nas mãos do primeiro. Sendo que atualmente as forças do mercado financeiro são os agentes influenciadores dos governos ao redor mundo.  Com a transformação do ordenamento econômico e distribuição de forças dentro do sistema capitalista devido à globalização e aos novos paradigmas neoliberais, podemos identificar que a desindustrialização de países com economias altamente desenvolvidas e alguns países em desenvolvimento, como um fator determinante no crescimento da desigualdade social e fortalecimento de projetos políticos de variadas linhas ideológicas radicais ou populistas.

Os resultados preliminares desta mudança na ordem internacional divergiram, dependendo da posição relativa dos países na ordem econômica mundial. Países como os da América Latina, foram atingidos por diversas crises externas e crises sociais, cujos resultados ainda hoje se fazem sentir. Nos EUA, a liberalização da economia teve como resultado a aceleração do processo de desindustrialização, queda na renda da classe média, aumento das desigualdades sociais e redução das redes de proteção social.[6]

Em todo o continente, as respostas às mudanças causadas pelo “choque neoliberal” são diferentes, tanto por parte das sociedades, quanto da classe política. Nos EUA, a dissociação entre as necessidades da população, de maior e melhor acesso aos serviços públicos e a crescente implementação de políticas públicas em prol do grande capital, resulta em um triplo movimento: A desindustrialização dos estados da costa leste, o aumento da desigualdade entre as classes menos favorecidas e classe média se comparadas às classes mais altas e a ascensão dos movimentos conservadores, como o Tea Party e as alas mais radicais do GOP em resposta às insatisfações populares.

As divergências entre Democratas e Republicanos, em partes geradas devido ás posições políticas dos partidos, vem sendo explorada por alas mais à direita do Partido Republicano, as quais culpam as políticas pró-globalização e sociais do Partido Democrata pelas crises econômicas vistas nos últimos 20 anos, assim como uma suposta “degradação moral e social” do American Way of Life. A linha de debate, por parte dos Republicanos, considerando as linhas ideológicas do partido, é delimitada no aspecto moral e político do conservadorismo. Esta delimitação tem por efeito primário a polarização política entre os partidos, tal como vimos durante a Campanha Presidencial de 2016.

A campanha de 2016 é marcante, pois viabilizou a concretização de projetos políticos baseados em discursos populistas e conservadores, os quais são baseados em 4 pilares: Descrença no sistema político; Descontentamento com as condições de vida; falta de perspectiva clara para o futuro; e uma interpretação moral de problemas estruturais da sociedade.   A combinação de projetos políticos lastrados em ideias conservadores e populistas, e massivas parcelas populacionais insatisfeitas com o “Sistema”, são como a história nos ensina, janelas para mudanças radicais nas regras e no jogo político.

 A eleição de Donald Trump é um claro exemplo de como a conjunção de fatores como os descritos age até mesmo em países considerados democraticamente bem desenvolvidos. A despeito do choque inicial à eleição de um candidato outrora tido como inviável, é necessário que apliquemos lentes de análise sobre a Campanha Presidencial de 2016 nos EUA e quais são as variáveis e fatores que possibilitaram o Governo Trump. Sendo ainda necessário, analisar logicamente as ações de um presidente “imprevisível”[7] e como suas ações impactam o Sistema Internacional.

Eleito com base no slogan “Make America Great Again”, Trump foi capaz de cristalizar desejos dispersos na sociedade estado-unidense ao redor de uma plataforma ideacional minimamente sólida e condizente com uma visão de que os Estados Unidos estão sendo explorados por seus parceiros e pelo Sistema Internacional. Esta ideia, a qual vem crescendo e popularizada por meio da Alt-Right, propõe um modelo social de grande conservadorismo e reversão de um conjunto de políticas em âmbito interno e externo, para promover a reorganização das “regras do jogo” de um modo mais “justo” para os EUA, utilizando as ferramentas de poder disponíveis para tanto, como visto na Síria e no TPP.

As previsões de que após eleito, Trump assumiria uma postura mais moderada em seu discurso e ações, falharam. Desde a eleição, podemos notar que os padrões comportamentais do Presidente e do governo vêm sendo alterados para que seja possível realizar as promessas de campanha e aplicar de forma mais rápida o possível, as medidas necessárias para a reorientação do Sistema Internacional. As ações do Governo Trump, apesar de aparente volubilidade, são racionalmente explicadas dentro da lógica de um jogo de soma zero, no qual os EUA passam a apostar cada vez mais em ações desestabilizadoras e imprevisíveis (ao menos para atores externos) para que possam angariar maior capacidade de negociação e concentrem mais poder. [8]

Este novo padrão comportamental, tem em suas raízes a experiência pessoal de Trump enquanto empresário, e a transformação qualitativa das ações governamentais sob uma ótica na qual o marketing político é essencial para aglutinação de capital político. Podemos inferir, portanto, que a racionalidade não tradicional que Trump traz à Casa Branca, em grande parte é própria do mundo corporativo e de uma realidade onde os atores econômicos possuem maior liberdade de ação e menos restrições, como as próprias do mundo político. Dada a crescente utilização do marketing político, por parte da nova direita nos EUA e em outros países, como instrumento agregador de desejos de mudanças, vontades e para a construção de personagens políticos messiânicos e promotores da “mudança”, é importante para compreender como o sistema político e afetado por “outsiders” como Trump.

Diante das mudanças estruturais causadas pela ascensão de Trump e da Alt-right trazem consigo algumas das profundas contradições presentes na sociedade e na política dos EUA, que ao mesmo tempo em que são conhecidas por seus valores e discurso democrático e de liberdade, tornam-se uma sociedade cada vez mais reacionária e totalitária, como Noam Chomsky nos mostra em “A Requiem for the Americam Dream”.

O cenário de crise estrutural no seio do Estado, sendo ao mesmo tempo uma crise de representação e uma crise social. Conforme explicitado ao longo do texto, a desilusão e a incapacidade de realizar mudança real no Sistema (compreendido como o conjunto formado por Sociedade, Política e Economia) tem como única solução proposta, a ascensão de outsiders, vindos do mundo corporativo como a resposta. Com a sociedade desconsiderando as relações de força entre os componentes do Sistema e que a balança de poder interna, tente à cada vez mais dar poder e controle a representantes de interesses econômicos, tal qual Trump.

A radicalização proposta em seus discursos, acaba por ser um catalizador de desejos e frustrações dispersas em várias camadas sociais e age simultaneamente como: identificador político de grupos sociais e como viabilizador de um conjunto de interesses que transformam a qualidade e as características de um Estado-Nacional, sendo necessária a concomitante e constante análise, por parte das ciências políticas, dos fatores que possibilitaram este cenário tão peculiar na história dos Estados Unidos.

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Fabio Augusto da Silva Souza é Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Anhembi Morumbi, onde foi Presidente e Vice-Presidente do Centro Acadêmico de Relações Internacionais (CAERI) e desenvolveu pesquisas em Integração Regional, com foco institucional no MERCOSUL e União Europeia; Desenvolvimento Econômico latino-americano e Economia Política Internacional. Ainda possuindo experiência em temas como geopolítica, defesa e análise de cenários da Rússia e Oriente Médio.

[1] Hobsbawn, Eric. A Era dos Extremos. 2° edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

[2] Hutchinson, Peter e Nyks, Kelly. Noam Chomsky: A Requiem for the American Dream. Estados Unidos. Produção e direção de Peter Hutchinso e Kelly Nyks. Nova Iorque, PF Pictures. DVD, 73 min. Color. Som.

[3] Harvey, David. O Novo Imperialismo. 8° edição. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

[4] Fukuyama, Francis. O Fim da História e o Último Homem. 1° Edição. São Paulo: Rocco, 1994.

[5] Klein, Naomi. A Doutrina do Choque. 1° edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2009.

[6] Müller, Jan-Werner. What is Populism? University of Pennsylvania Press, 2016. 136 páginas. Resenha de Stuenkel, Oliver. Disponível em: http://www.postwesternworld.com/2016/12/11/what-is-populism/. Acesso em 06 de Abril de 2016.

[7] Caparrós, Martín. El País. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/30/opinion/1490904977_268765.html. Acesso em 08 de Abril de 2016.

[8] Torreblanca, José Ignácio. El País. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/07/opinion/1491559593_946112.html. Acesso em 09 de Abril de 2016.

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