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A escolha da SAAB e o softpower brasileiro

O Programa FX-2 consiste em um projeto de compra de aviões de alta-tecnologia para a atualização da frota de caças da Força Aérea Brasileira. No fim de julho, o programa anunciou o financiamento de 36 caças da empresa sueca Gripen NG, o que pegou de surpresa muitos especialistas em força aérea  e analistas de defesa. Não foi a escolha esperada,  mas segue o padrão lógico de decisão como outras já feitas anteriormente pelas Forças Armadas do Brasil. Foram diversos os motivos que levaram a Força Aérea Brasileira, em conjunto com a presidência da República, a essa escolha, e demonstra um planejamento a longo prazo por parte de nosso país.

Um dos itens mais importantes dentro do Programa FX-2 era o requisito de transferência de tecnologia e a possibilidade de se construir os aviões no Brasil. Nesta época, já se falava no favorecimento do francês Rafale, pela proximidade entre os países, e o russo Sukhoi devido a seu raio de ação compatível com o tamanho continental do Brasil, além de baixo preço e da total transferência de tecnologia e cooperação científica. Os outros concorrentes, o europeu Eurofighter Typhoon  e F-35 Lightning II norte-americano foram considerados com chances reduzidas devido ás restrições impostas pelos Estados Unidos quanto à transferência de sua tecnologia militar e direitos de fabricação.

Surpreendentemente, em 2008 foi anunciado que o Sukhoi Su- 35 seria excluído da disputa, mesmo sendo considerado o melhor acordo pelos analistas de inteligência. Essa exclusão deixa claro os interesses políticos que se encontravam por trás do programa. A justificativa oficial foi o fato de os russos terem vendido a Venezuela o Sukhoi Su-30, de tecnologia similar a do avião oferecido ao Brasil, o que impediria a superioridade tecnológica que o país pretendia ter em relação aos seus vizinhos da América do Sul.

Porém essa exclusão pode ser considerada uma represália ao fato de os russos terem vencido a concorrência para a venda de caças á Venezuela sobre a oferta brasileira da Embraer de caças leves Super Tucanos, impedida pelo congresso norte-americano por utilizar-se de tecnologia de patente dos EUA.

No final de 2008, as aeronaves concorrentes no FX-2 foram reduzidas a três: o Dassaut Rafale francês, o Gripen NG sueco e o F/A-18 norte-americano (em substituição ao Sukhoy), que nunca foi considerado na disputa pelos analistas, devido às restrições de transferência de tecnologia.

A partir de 2009 começa a etapa final de decisão, ao qual a escolha deveria levar em consideração prioritárias a transferência de tecnologia, o domínio do sistema de armas pela Força Aérea Brasileira, e os acordos de participação industrial, técnico, operacional e comercial.

Em setembro de 2009, 45 dias antes do prazo estipulado pelo Ministério da Defesa para dar o resultado do avião escolhido pelo Programa, o então presidente Luis Inácio Lula da Silva declarou que dentro do acordo de aquisição de material bélico francês pelo Brasil, que envolvia a aquisição e o desenvolvimento de submarinos, também seria incluso o Rafale, desde que a cláusula de transferência irrestrita de tecnologia fosse respeitada, e tomou para si a decisão sobre a compra das aeronaves, pois está era um decisão político-estratégica.

Isso ocorre, em um momento em que se dizia haver uma pequena corrida armamentista na região, influenciada diretamente por poderes externos ao continente, considerando-se os acordos de compra de aviões a armamentos feitos pelo Chile e Colômbia com os EUA e pela Venezuela com a Rússia.

Dentro deste contexto, a França aproveitou de sua boa relação com o Brasil no momento (ano do Brasil na França, seguido de Ano da França no Brasil), e a proximidade de seus presidentes para não perder a oportunidade de entrar no mercado bélico aquecido da América do Sul. Após estas declarações de Lula, houve uma intensificação do lobby por parte das fabricantes, melhorando as ofertas iniciais, na tentativa de conseguir fazer a decisão pender a seu favor.

No início de 2010, sai o resultado final dos testes feitos pela FAB cujo relatório colocou o sueco Gripen NG a frente de seus concorrentes principalmente devido ao menor custo de aquisição do avião e também de operação e manutenção, mesmo ele ainda não tendo seu batismo de fogo (nunca participou de nenhuma operação de guerra). Vale ressaltar que algumas semanas antes do relatório ser divulgado, dois caças Rafale caíram durante treinamento na França, levantando suspeitas de sabotagem industrial para minar as chances dos franceses de vencerem a concorrência.

A decisão final sobre a compra das novas aeronaves ainda foi postergada por quase quatro anos e somente em dezembro de 2013 que a presidente da república Dilma Rousseff decidiu-se por adquirir 36 caças Gripen NG fabricado pela sueca Saab, pelo valor de 4,5 bilhões de dólares, que serão entregues a partir de 2018. É bastante óbvio que a assinatura de um contrato, seja ele por um governo ou um grupo privado, em um valor tão alto envolve uma série de interesses por parte de diversos atores.

No caso de um contrato assinado por um governo com uma empresa estrangeira, entram em cena uma série de fatores que dizem respeito ao jogo de poderes no cenário internacional, e a capacidade de influência que um Estado tem sobre o outro.

A escolha pela compra de um avião sueco faz muito sentido em diversos pontos, assim como a escolha por não comprar os seus concorrentes francês e principalmente o norte-americano. E me parece que a opção pela não compra dos aviões teve mais impacto os fatores de disputas na política externa pesando contra, do que a escolha pela Saab propriamente.

No caso do avião norte-americano, além da impossibilidade da transferência total de tecnologia por parte da Boeing, pois eles não necessariamente teriam a patente de todos componentes usados, também havia a possibilidade de o congresso dos Estados Unidos proibir a venda, como faz com os Super Tucanos brasileiros para a Venezuela, por se tratar de tecnologia militar (e também como forma de represália por impedirem essa venda). Com isso, a Embraer não produziria nada em suas fábricas no Brasil que já não produzisse atualmente e deixaria de ganhar conhecimento e capacidade para ampliar o uso de tecnologia nos aviões que produz, sejam eles civis ou militares.

Soma-se a isso a crise diplomática entre os Estados Unidos e diversos países do mundo,  que ocorreu com as revelações de Edward Snowden sobre os detalhes da Vigilância Global de comunicações e tráfego de informações executada pela NSA (National Security Agency), acusando o seu país de investigar diversos líderes de países aliados, entre eles a Angela Merkel, e nossa presidente Dilma Rousseff, além de informações sigilosas de empresas como a Petrobras.

Os EUA ficaram com a relação abalada com boa parte de seus aliados da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), além de outros parceiros como o Brasil, que por meio de nossa presidente levou a questão à Assembléia Geral da ONU, e cancelou encontros marcados entre os presidentes, acusando os norte-americanos de violarem direitos humanos e nossa soberania.

Já com o avião francês o caso pode não ter sido tanto desavenças de política externa, pois tirando disputas UE-Mercosul quanto a subsídios à agricultura, não temos nenhum outro entrave com eles, muito pelo contrário, tendo inclusive parcerias militares da Marinha para a construção de submarinos nucleares, que giram em torno de 6 bilhões de euros.

Neste caso o que pesou de fato foi o preço dos aviões serem os mais caros entre os três, podendo custar o dobro dos Gripen, além de elevado custo operacional e de manutenção, o que faz grande diferença na situação econômica que o Brasil se encontra de 2013 para cá, muito diferente da época em que Lula era presidente. Além disso a transferência tecnológica não seria total, com parte dos itens de alta tecnologia sendo produzido na França, sem parceria com as empresas nacionais.

Por outro lado, a escolha do caça sueco foi muito questionada por diversos analistas de segurança, pois ele é um avião muito novo que ainda não foi completamente desenvolvido, que é menor e mais leve que os concorrentes, e por isso não tem capacidade de levar a quantidade de combustível necessária para defender um país de proporções continentais como o Brasil.

Mas vale lembrar que Brasil e Suécia têm relações diplomáticas muito próximas, a presença de investimentos produtivos suecos em nosso país existe a muitas décadas e é feita através principalmente da indústria pesada como a Scania e a Volvo, que produzem caminhões e motores de grande porte no país há mais de 50 anos. Além de o fato de a Rainha Silvia da Suécia ser filha de brasileira e ter morado por 10 anos em São Paulo.

Também quanto a estratégia de política externa, temos muito mais em comum com a Suécia com a qual dividimos um histórico de neutralidade, pacifismo e independência política, do que com Estados Unidos e  França, que estão sempre envolvidos em intervenções militares ao redor do mundo.

A decisão por comprar os caças Gripen NG, não pode ser resumida a uma escolha orçamentária, muito pelo contrário, a decisão por adquirir estes caças faz parte de um projeto de desenvolvimento tecnológico militar brasileiro. Ela é de fato uma decisão política, visando o futuro ao invés de o presente.

A idéia, ao escolher o projeto da Saab, é trazer para cá toda a linha de montagem (a partir do segundo avião), e que boa parte de seus componentes seja fabricada no Brasil. A Embraer estima que 80% da estrutura e 40% do total do projeto seja fabricado aqui. Além disso a Saab esta tendo que investir no país, comprando 15% da Akaer (fabricante e aero-estruturas) e montando uma fábrica em São Bernardo do Campo.

Com isso, haverá a transferência de tecnologia de todos os componentes e estruturas sobre controle da Saab (alguns de seus sensores e outros sistemas são de procedência norte-americana ou britânica).

Ao  selecionar um projeto ainda em desenvolvimento o governo brasileiro escolheu dar a chance da Embraer fazer parte do aperfeiçoamento de um avançado aparato bélico, o que possibilita um aprimoramento tecnológico enorme, em uma área em que nós somos um dos grandes fabricantes mundiais, aviões de pequeno e médio porte.

Mas vai além disso, os conhecimentos adquiridos com a partilha técnica possibilitada  pela compra deste novo avião são de suma importância para a capacitação do Brasil em desenvolver, no futuro, aéronaves de combate de ponta.

Essa é uma estratégia já foi utilizada anteriormente pela Embraer e a Força Aérea Brasileira (nos aviões Xavante e AMX, em parceria com a Itália), e faz parte do soft-power brasileiro, ao utilizar-se de acordos comerciais de produtos de avançada tecnologia, para adquirir conhecimento e capacitação para a indústria nacional.

Ela demonstra um comprometimento por parte do Brasil com nossa a independência dos grandes poderes internacionais tradicionais e uma busca por autonomia política e expansão econômica em uma realidade multipolar.


Referências:

BRICK, E. S. A escolha do Gripen NG para o Programa FX-2. UFF.

SUANO, M. Projeto FX-2: Porque estão ignorando as questões essenciais?

OLIVEIRA, L. K.;ZUCATTO, G. E.;GUIMARÃES, B. G. O resultado do FX-2 e a busca por sinergia entre a Política Externa e de Defesa. Boletim Mundorama.

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