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A geopolítica pós-crise de 2008

Os impactos econômicos e financeiros da crise de 2008 já são bem conhecidos de todos nós, pois além de quase quebrar o sistema bancário dos EUA e quebrar o de países como Islândia (que acabou saindo da UE) e Irlanda, houve a falência de diversas empresas e o desemprego em massa espalhou-se pelos quatro cantos do mundo, para citar os mais óbvios. A crise deixou clara as mazelas do nosso sistema financeiro globalizado e sua capacidade de afetar a economia mundial como um todo.

Porém, os seus efeitos na geopolítica mundial só poderão ser de fato mensurados no futuro, quando não estivermos mais sofrendo suas consequências imediatas. Mas já é possível se ver que ela foi o estopim de grandes mudanças no panorama geopolítico internacional.

A crise se iniciou nos Estados Unidos mas afetou o mundo inteiro, e seu impacto na economia mundial ainda vai durar muitos anos, forçando os países a se ajustarem a esta realidade. Como consequência, existe uma grande desordem geopolítica que parece se tornar cada vez mais complexa, com seu principal foco sendo o desarranjo de forças na Eurásia.

Europa e China sofrem com as consequências da crise e enfrentam desafios não só econômicos como institucionais. A Rússia enfrenta uma crise geopolítica na Ucrânia e problemas econômicos internos, além das sanções econômicas por parte do Ocidente. E o mundo árabe se encontra em polvorosa desde os acontecimentos da Primavera Árabe e o vácuo de poder deixado por ela.

Os Estados Unidos, tomou medidas bancárias e financeiras através de seu Banco Central (Big Bank) para contornar a crise, e também cortou o gasto militar, o que fez com que a presença de suas forças armadas ao redor do mundo diminuisse.

China

A crise financeira mudou o comportamento chinês no âmbito econômico já que fez com que o apetite do mundo pelas exportações chinesas diminuísse. Apesar de que o ciclo de crescimento chinês já estivesse entrando em seu declínio, o impacto da crise foi muito grande em seus principais parceiros comerciais (EUA e UE).

Isso fez com que o governo central  tivesse que começar uma gradual mudança de estratégia para manter o país em crescimento econômico,  e garantir um mercado para seus produtos. A opção foi por mudar o foco exportador da sua economia,  para dar inicio a criação de um mercado interno consumidor que venha a absorvver sua produção industrial. Mas isso gerou como consequência um crescimento na inflação que diminuiu um pouco a competitividade dos produtos chineses.

O resultado disso foi um crescimento da instabilidade política interna da China, que tivera seu ápice nos protestos pró-democrácia de 2014 em Hong Kong (ou Revoluão dos Guarda-Chuvas) que ocupou o centro da cidade por mais de 2 meses, e gerou um aumento a repressão por parte do governo central chinês.

Além disso, a China busca uma maior influência em seu entorno para conseguir garantir seus interesses políticos, o que vem gerando certa tensão com muitos de seus vizinhos (Coréia, Japão, Filipinas) por conta de disputas territoriais envolvendo ilhas.

Europa e Rússia

Enquanto isso, na União Européia, existe uma ruptura entre os interesses da Alemanha, maior economia do bloco, e os menos desenvolvidos países do Mediterrâneo, ou PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha).

A Alemanha, e em menor escala a França, precisam garantir um cenário político-econômico propício para suas exportações industriais de bens de capital e alta técnologia. Enquanto isso os países do Sul precisam de uma realidade econômica que propicie seu desenvolvimento.

Nessa briga de poder, óbviamente quem sai vencendo é o mais rico. Como consequência da política econômica comandada pela Alemanha, após a crise internacional gerar quebradeira nos PIGS, houve uma crise política interna na União Européia causada pela política de distribuição do crétido pelo Banco Europeu e a sequente impossição de medidas de austeridade, fortemente questionada pelos países mais necessitados de capital, principalmente a Grécia.

Internamente,a política de quase todos os seus países-membros encontra-se cada vez mais polarizada, com tanto a extrema esquerda, quanto a estrema direita ganhando mais poder nos parlamentos nacionais, em um cenário muito parecido com que havia antes da Segunda Guerra Mundial.

E também existe um novo fator político interno nesses paises que é o ganho de força de movimentos separatistas, notadamente na Espanha (Catalunha) e no Reino Unido (Escócia), mas que também se encontra presente em quase todos os outros países do bloco.

Além disso a Rússia volta a aparecer como um player no cenário regional, através de ações para assegurar sua área de influência histórica no Leste Europeu.

Nos anos 2000, reestruturada economicamente após as suas reformas liberais dos anos 90, a Rússia se tornou uma grande parceira econômica da Europa Ocidental, principalmente no setor de energia exportando petróleo em larga escala, além de gás natural e carvão, mas também aço e outros metais.

Em contra-partida importava, principalmente da Alemanha, grande quantidade de bens de capital, maquinário e veículos, além de produtos químicos. Essa relação comercial chegou a movimentar mais de 300 bilhões de Euros anualmente, transformando a União Européia no principal parceiro econômico da Rússia.

Por outro lado, a expansão da OTAN em direção as antigas fronteiras soviéticas sempre foi um ponto de tensão com o Ocidente, e ao ver que sua influência sobre a Ucrânia estava sendo sobrepujada por um levante pró União Européia, aproveitou a fragilidade que o país se encontrava e a conjuntura internacional de crise econômica para reivindicar a península da Criméia de volta para si.

Essa decisão afetou em grande escala a sua economia pois como represália tanto a UE como os EUA aplicaram sanções econômicas ao país o que, aliado ao baixo preço do petróleo no mercado internacional, causou um grande impacto na sua economia a partir de 2013.

Isso acabou levando a Rússia a buscar novos parceiros econômicos no continente asiático, sendo o principal deles a China, país ao qual os EUA fez questão de manter longe da esfera de influência soviética durante a Guerra–Fria e que agora se tornam parceiros, porém com a dinâmica de poder invertida.

EUA e Oriente Médio

O primeiro sinal de enfraquecimento do poder hegemônico Norte-Americano começou a aparecer com o ataque terrorista as torres gêmeas do World Trade Center em setembro de 2001. Isso faz com que os EUA invadissem o Afeganistão e posteriormente o Iraque, pois acreditavam ter o poder e a capacidade de remodelar o Oriente Méio como bem entendessem.

A partir daquele momento os EUA começou uma inutil intervenção militar Afeganistão que tirou o Taleban do poder mas não o eliminou, e ainda deixou o país na mão de políticos incompetentes, corruptos e sem apoio para governar. E para piorar ,efetuou a invasão ao Iraque com a falaciosa justificativa de que o país estava produzindo armas químicas, invasão esta que destruiu completamente o país e deixou o equilíbrio depoder sectário interno em frangalhos.

O impacto da crise econômica que lá se iniciou com o estouro da bolsa imobiliária seguida pela quebra de diversos bancos, financeiras e seguradoras, serviu para a acelerar o processo de retração dos tentáculos norte-americanos pelo mundo e focar-se na terrível situação econômica interna do país, com indices de desemprego e pobreza não vistos desde a crise econômica de 1929.

Com o insucesso dessas campanhas militares  e as pressões pelo corte de gastos públicos, os EUA resolveram diminuir a influência sobre a região o que provocou um vácuo de poder que principalmente no Iraque foi ocupado pelos extremistas do Estado Islâmico, que cada vez mais se espalha pelos países desestabilizados pela região como Líbia e Síria.

No caso do Oriente Médio, pode se especular que o maior efeito da crise econômica foi resultar nas revoltas populares conhecidas como Primavera Árabe. Até o início da crise, em 2008, o preço do barril de petróleo vinha subindo até atingir quase US$ 150,00 e em menos de 1 ano caindo abaixo dos US$ 35,00.

Isso desestabilizou completamente a maioria das economias do Oriente Médio, que não tinham mais capacidade de pagar os seus empréstimos, nem de cobrir seus gastos de importação.

A consequência disso foi um enorme desemprego, que levou a revoltas populares contra muitos dos ditadores que controlavam os países da região. Junta-se a isso a saída das tropas americanas e européias do Iraque, e o resultado é um ambiente propício ao surgimento de diversos grupos milicianos e a guerras civis.

Os próprios países da região com alguma ambição de poder estão entre os financiadores dessas milícias que disputam o domínio de países como Iraque, Síria, Líbia e mais recentemente o Yemen.

Enquanto o Irã, sufocado pelas sanções norte-americanas busca parceiros comerciais na Rússia e outros países não-ocidentais, eles financiam as milícias xiitas da região. A Arábia Saudita, aliada de longa data dos Estados Unidos faz a contra-partida e financia as milicias sunitas.

Esse caos político regional, grande parte dele resultado das mal-sucedidas intervenções ocidentais, criou um cenário onde existem países com 4 ou 5 diferentes grupos armados lutando pelo poder.

Considerações Finais

Os efeitos da crise econômica ocorrida em 2008 no cenário político internacional foi muito maior do que poderia se imaginar inicialmente. Do mesmo modo que a crise de 29, ela vem demonstrando ter a capacidade de mexer no ordenamento de poderes no cenário internacional.

Seu principal efeito foi acelerar processos que já vinham ocorrendo lentamente, como escancarar uma crise na União Européia devido as diferenças e as dificuldades de se tentar montar um bloco econômico com países de realidades tão distintas quanto seus os atuais membros, e mostrar que o bloco talvez não seja viável do modo como está atualmente constituido e precisa ser repensado.

Também deixou claro a decadência do modelo econômico liberal norte-americano, dado como a grande ideologia vencedora do fim da Guerra-fria (e que ainda se utiliza de instituições criadas nesta época para tentar manter sua hegemonia), demonstrando sua dependência da China e ao mesmo tempo sua incapacidade de disputar com ela pelo posto de país número um no comércio mundial.

Acelerando assim o processo de mudança do eixo econômico mundial, antes encontrado no Oceano Atlântico, para o Oceano Pacífico e deixando clara a disputa pela hegemonia no sistema internacional entre o “pivô asiático” norte-americano e a “rota da seda” chinesa.

Outras das suas consequências foi a criação de uma instabilidade política tão grande no Oriente Médio, resultado da queda de diversos ditadores durante a Primavera Árabe. No momento atual se encontram diversas guerras civis espalhadas por diferentes países que tem o potencial de contaminar a região como um todo,  colocando frente-a-frente diferentes países como Turquia, Israel, Arábia Saudita e Irã defendento seus interesses na sua zona de influência.

Por outro lado houve o ressurgimento da Rússia como uma ameaça política e militar a Europa Ocidental e seus vizinhos (como a Geórgia), numa tentativa de se colocar contra o avanço do ocidente em direção a sua área de influência e  aproximar-se de países que vem desafiando o poder hegemônico (China e Irã).

Portanto, essa crise recente desencadeou um cenário de mudanças geopolíticas muito parecido com o que havia no mundo antes das grandes guerras mundiais, quando países em ascensão disputavam pelo poder que estava sendo perdido pela força hegemônica em decadência.

Assim como naquela época, além da crise econômica, há uma crise político-ideológica, com a extrema esquerda e a extrema direita ganhando força por todo o mundo como alternativa a ideologia liberal nos levou à crise.

Felizmente, apesar de todos os conflitos regionais e escalada de violência que vemos ocorrendo, não existe no momento uma perspectiva próxima de conflito armado em escala global entre os grandes poderes militares do mundo.

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