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A Grande Estratégia chinesa e suas implicações para a geopolítica asiática no século XXI – Par

Nos últimos anos, e sobretudo após a crise econômica de 2008, diversos acadêmicos, tais como Fared Zakaria, David Li e Henry Kissinger (ex-Secretário de Estado dos Estados Unidos e condecorado como o Prêmio Nobel da Paz), se lançaram em debates para responder questionamentos acerca da “ascensão chinesa” e seu potencial transformador das relações econômicas internacionais para os anos que se sucedessem. Em grande parte, tais questionamentos relacionavam-se ao poder econômico do país asiático e a sua capacidade de moldar uma espécie de corrente contra-hegemônica para fazer frente ao poderio norte-americano e a sua “questionável unipolaridade” ou a possibilidade de uma acomodação pragmática chinesa com relação ao status quo do Sistema Internacional e ao desenvolvimento de políticas relacionadas aos aspectos políticos domésticos e regionais.

Neste contexto, além da incontestável ascensão da China, sobretudo em termos econômicos e militares, e suas ações para ampliar seus laços diplomáticos e comerciais no sudeste asiático; os esforços da Índia para ampliar sua atuação como potência regional;bem como as tentativas norte-americanas de adaptar sua grande estratégia com intuito de lidar com novas dinâmicas relacionadas ao eixo pacífico, o debate acerca do equilíbrio de poder no sistema internacional retorna à pauta do dia para que seja possível compreender os recentes desdobramentos acima referidos, bem como suas conseqüências para a segurança da região asiática.

Discussões sobre a unipolaridade e a ascensão da China

A noção de unipolaridade, conforme argumentam Brooks e Wohlforth (2016), passou a ser utilizada por pesquisadores e acadêmicos para explicar a distribuição do poder, bem como o comportamento dos Estados no sistema internacional quando da dissolução da União Soviética em 1991. Neste contexto, existiam diferentes visões acerca dos contornos que a ordem internacional assumiria, ou seja, se o sistema internacional passaria por uma alteração em que seria possível a unipolaridade, ou ainda se após décadas de um período marcado pelo domínio econômico, militar e político de dois pólos muito definidos – leia-se Estados Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) –, existiria espaço para uma reestruturação em multipolar.

De um lado, observaram-se acadêmicos como, por exemplo, Kenneth Waltz –  considerado fundador e principal expoente da teoria sistêmica ou do Realismo Estrutural em relações internacionais –, que continuou a defender a plausibilidade da teoria realista após o fim da Guerra Fria, afirmando que as mudanças observadas no fim da década de 1980 e início da década de 1990 (a dissolução pacífica da URSS) não tornaram a referida teoria inválida para a compreensão da dinâmica internacional de poder; pelo contrário, segundo Waltz(2002) tais mudanças ocorreram no interior do sistema e desta forma sua principal característica – a anarquia – continuava existindo, o que conduziria os Estados busca pelo equilíbrio de poder em um sistema de auto-ajuda (em que cada Estado depende de suas próprias capacidades para sobreviver). Fica evidente que para Waltz o equilíbrio de poder seria alcançado(embora o autor não consiga sinalizar quando), que a unipolaridade é um fato inédito no sistema internacional (desde 1648 o marco atribuído ao seu surgimento) e está fadado ao fim por razões relacionadas aos custos (monetário, militar, político e de capital humano) que a pretendida superpotência deve despender para manter tal posição tendem a enfraquecê-la a longo prazo e, a ação da superpotência pode, por conta da estrutura do sistema internacional, trazer desconfiança dos demais Estados com relação à sua sobrevivência, o que poderia conduzir a reações n sentido de balancear tal poder. Além disso, o autor já vislumbrava que após um período transitório de unipolaridade o sistema internacional retornaria a uma composição de cunho multipolar, com Estados Unidos, Europa (sobretudo a Alemanha reunificada), Japão, China e Rússia como prováveis pólos de poder. Do outro lado, tínhamos ao longo da década de 1990 autores como William C. Wohlforth(1995;1999) – expoente da denominada teoria realista neoclássica – desenvolveu argumentos favoráveis à idéia de unipolaridade do sistema internacional, tendo como base uma revisão histórica de arranjos anteriores do referido sistema – citar exemplo –, questionou a noção de que a unipolaridade seria uma estrutura menos estável porque a concentração de poder em um único pólo ameaçaria os demais Estados e poderia fazer com que eles desenvolvessem ações para restabelecer o balanço de poder.

No âmbito acadêmico chinês, conforme descreve Rosemary Foot (2009), parecia existir destarte um questionamento sobre a dita unipolaridade norte-americana inciada na década de 1990 e uma série de suposições acerca composição de um novo arranjo multipolar do sistema internacional.  Assim, as medidas tomadas pelos governos norte-americanos ao longo da década de 1990 – tais como a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para o leste, as novas negociações da aliança entre EUA e Japão – foram cruciais para forjarem as percepções e comportamento dos dirigentes chineses; parecia evidente que naquele momento não existiriam manifestações de potências dispostas e questionar a dita superioridade do poderio norte-americano, sobretudo porque parecia que a hegemonia do referido país estava ancorada em aspectos diferentes daqueles de potências anteriores (como o domínio direto de territórios), valendo-se de elementos como ideologia e economia, que lhe confeririam possibilidade de ditar as normas internacionais e interferir em assuntos internos.

A interação da China com a percebida potência hegemônica, nos níveis regional (asiático) e global, bem como as possibilidades que esta possuiria de se desenvolver entre os pólos de cooperação e conflito, é um componente importante da estratégia desenvolvida pela China. De acordo com o argumento de Giovani Arrighi (2008), as relações sino-americanas guardam uma possibilidade de competição entre ambos os países pela influência na região asiática, porém, com a particularidade de que os Estados Unido ao invés de abandonar o seu envolvimento construtivo com a China, tal qual sugerido por Mearsheimer em seu prognóstico acerca das consequências da ascensão da China para o poder norte-americano e a recomendação de uma política para lidar com tal questão, o país americano foi forçado a aprofundar tal relação, sobretudo por conta dos gastos com a Guerra ao Terror e a necessidade do governo americano de crédito para saldar suas dívidas, fato que possibilitou à China tornar-se um dos maiores credores dos Estados Unidos.  Neste sentido, Arrighi apresenta que em um cenário marcado pela mão forte econômica chinesa e os problemas dos Estados Unidos na Ásia – relacionados à Guerra ao Terror e ao aumento da rejeição dos países asiáticos à liderança norte-americana na região –, alteraram as relações da China e dos Estados Unidos com os demais países também.  A China como força regional tornou-se o maior parceiro econômico de dois dos aliados estratégicos dos Estados Unidos: o Japão e a Coreia do Sul; configurou-se como credora de países na África e passou a ser vista por lideranças africanas como uma alternativa à liderança dos Estados Unidos e Europa na Ásia Oriental e, fonte de comércio, ajuda e alianças políticas.

A complexidade da interação entre China e Estados Unidos foi captada assertivamente por Rosemary Foot (2009) que argumenta que embora a sociedade chinesa possua visões divergentes acerca do futuro do relacionamento com os Estados Unidos, o que parece unir tais visões em torno de um posicionamento político doméstico e internacional é o reconhecimento por parte da China de que se vive em um ambiente em que a dominação americana e sua influência irão perdurar ao menos por mais algumas décadas. Desta forma, a China teria desenvolvido uma estratégia sofisticada de “fazer o melhor possível no pouco espaço de manobra existente” que consiste em evitar conflitos abertos com os Estados Unidos, buscando interesses congruentes e concentrar-se em seus objetivos de modernização e crescimento nacional. A primeira vista, tal estratégia chinesa pode ser interpretada como soft bandwagoning, em que a China apenas buscaria aproximar-se da potência hegemônica e acomodar-se, assim, no sistema internacional, mas, tal ação é contrabalanceada com uma movimentação ativa chinesa, destacada pela presença regional e global forte, traduzida na atuação em foros multilaterais, celebração de acordos bilaterais e regionais em que o país oriental busca a promoção de seus interesses, mesmo quando estes se opõem àqueles apresentados pelos Estados Unidos, como, por exemplo, na questão de Taiwan. A estratégia chinesa guarda um aspecto importante de hedging, ou seja, uma espécie de garantia em que a China baseia seu futuro que está relacionada a possibilidade de um desgaste  importante na relação sino-americana. Tal garantia vem dos laços fortes que a China estabeleceu com diversos países – como a celebração de parcerias estratégicas na região, com países como Rússia, Índia, Tailândia, Cazaquistão, e além desta, com França, Brasil e Irã – e blocos econômicos presentes no sistema internacional – como a Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) –, fato que acrescido da forte interdependência econômica dificultaria uma contenção ou isolamento do país asiático e asseguraria sua posição de relevância no cenário econômico.

Além da interação com os Estados Unidos, a estratégia desenvolvida pelos dirigentes chineses ainda tinha outros imperativos: a) a manutenção da unidade interna, sobretudo tendo em vista a questão de Taiwan; b) atuação junto aos países vizinhos, com foco na resolução de questões fronteiriças e a proteção da costa marítima – sendo emblemática a disputa pelas Ilhas de Senkaku/Diaoyu, uma região dotada de fontes energéticas (gás natural e petróleo) e estratégica para o embarque de mercadorias e pesca, reivindicadas pela China e Japão.

A resposta para uma das questões centrais da geopolítica do inicio deste século, ou seja, se a ascensão da China é irrefreável, e conseqüentemente irá conduzi-la ao posto de superpotência do século, ainda permanece em aberto. A questão é que a China, impulsionada pelo seu capital humano, avanços tecnológicos e um capitalismo estatal que ao longo das últimas décadas vem mostrando-se eficiente, parece possuir as condições econômicas e militares necessárias para tornar-se a superpotência deste século, condições estas que são amplamente discutidas, principalmente ao observarmos os desafios que tal país enfrenta (como a desigualdade de desenvolvimento entre regiões, sustentar o rápido desenvolvimento econômico) e poderá enfrentar – tais como o descontentamento político e a escassez de recursos naturais – questão que o país tenta “resolver” investindo externamente em países africanos para garantir a aquisição de recursos como o cobre, que é destinado para instalar as redes elétricas das cidades chinesas, e internamente, através de projetos de infraestrutura, visa a integração física e econômica de regiões que estiveram à margem do rápido processo de desenvolvimento econômico e comercial observado nas últimas décadas.

Referências Bibliográficas

ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. Editora Boitempo, 2008.

BROOKS, Stephen G; WOHLFORTH, Willian C. The rise and fall of the great powers in the twenty-first century. International security, vol40, n3, 2015.

FOOT, Rosemary. Estratégias chinesas em uma ordem global hegemônica: acomodação e hedging. In: HURRELL, Andrew et al. Os BRICS e a Ordem Mundial. Rio de janeiro: Editora FGV, 2009, pp. 125-151.

WALTZ, Kenneth. Structural realism after the Cold War. International Security, vol.25, n.1, 2000, p.5-40.

WOHLFORTH, Willian C. Realism and the End of the Cold War. International Security, vol.19, n.3, 1995, p.91-129.

_________________. The Stability of a Unipolar World. International Security, vol.24, n.1, 1999, p.5-41.

 Imagem: O presidente chinês em uma reunião comercial inserida na Reunião do G20 realizada no país asiático em setembro de 2016. Fonte: Ministério de Assuntos Exteriores da República Popular da China.

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