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A Guerra na Ucrânia em uma perspectiva histórica e geopolítica

Após o fim da URSS, a Rússia surge em meio a uma intensa crise no comando de Yeltsin. Na década de 1990, o país passa por grandes dificuldades econômicas, gerando uma crescente desmoralização no cenário internacional.


Ao chegar ao poder Putin apresenta uma nova dinâmica ao país: promoveu melhorias internas e externas e ascendeu a Rússia de volta ao tabuleiro das Relações Internacionais.


Moscou retorna ao cenário internacional com sua política externa mais confrontante com o Ocidente, que através da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, e juntamente com a União Europeia, UE, busca introduzir os antigos satélites soviéticos em sua zona de influência e a Rússia tenta consolidar sua influência por meio de organizações como a Comunidade dos Estados Independentes, a CEI, União Econômica Eurasiana, UEE, e na parte asiática com a Organização para Cooperação de Xangai, OCX (GALVAO, 2018).


A OTAN tinha dezessete membros quando surgiu, duas décadas depois passa a ter vinte e oito, doze da antiga zona de influência soviética. Partindo desse contexto, surge como problemática as intervenções russas em países soberanos, como no caso da Ucrânia. A tentativa de incorporação da Ucrânia à zona Ocidental não poderia ser aceita pela Rússia.


Quais as razões históricas e os motivos atuais que fizeram com que a Rússia ferisse a soberania da Ucrânia? Este ensaio parte da hipótese de que a Rússia vem buscando ter de volta o controle de sua antiga zona de influência, que com o aumento do alcance da OTAN e UE, na Europa Oriental, utilizou a força como instrumento para racionalizar sua política na região.


Para se entender a dinâmica da guerra na Ucrânia é necessário voltarmos ao período de organização do que é hoje a Rússia e Ucrânia, pois do século IX ao XII, russos, bielorrussos e ucranianos eram um só povo, e somente no domínio mongol da região que os três começaram a se diferenciar, aponta Segrillo (A HISTÓRIA... 2014).


O começo do grande império russo tem um ponto de partida na Ucrânia, ou como antes chamada, Rus de Kiev, sendo o Berço histórico russo na Idade Média. O nome Ucrânia, inclusive, significa fronteira, que tem sua origem na palavra Krajina, o qual, também, houve disputas territoriais com poloneses, austríacos e turcos (GALVAO, 2018).


No Reinado de Catarina, a Rússia passa a dominar os territórios de Bielorrússia, Moldávia, os Bálticos e volta ao domínio do território compreendido como a Ucrânia atual (AMAL, 2017). Esse inclusive, foi o período de maior expansão do território russo, quase compreendendo ao que entendemos hoje como Rússia.


Não só a Rússia invadiu os territórios ucranianos, esse país sempre esteve envolto em disputas fronteiriças: Uma parte da Ucrânia esteve há muito tempo sob domínio do Império Austro-húngaro, portanto, protestante e Ocidental, e outra parte católica ortodoxa, oriental, dominada pelos russos criando assim, um “problema histórico” apontado por Visentini (2015).


Percebe-se que a questão nacional ucraniana nunca foi bem resolvida e que a Ucrânia surge meio que por acidente, entre dois mundos, dividida em meio a Ocidente e Oriente, dois Povos, russos e ucranianos, e em dois tempos históricos adversos, em que só teve sua independência em 1991 após o fim da URSS. Antes, em um curto período no entre guerras mundiais. Outra questão chave é que no país 1/3 da população é russa e 2/3 tem algum parentesco com russos ou com a cultura russa (GALVAO, 2018).


Na questão geopolítica, a Ucrânia é de grande importância para a Rússia. Nos últimos 500 anos a Rússia sofreu várias invasões advindas daquela região: dos poloneses, 1605, suecos, 1707, franceses, 1812 e Alemães, 1919. O motivo é que existe a Grande Planície Europeia, que se encontra desde o litoral ocidental da França até os Montes Urais na Rússia. Todo esse percurso pode ser facilmente percorrido sem ter que cruzar fronteiras naturais tais como rios, montanhas ou desertos, facilitando assim a penetração no território russo (AMAL, 2017).


Outro fator importante é o acesso ao Mar Negro através dos territórios ucranianos, hoje anexados pela Rússia, como no caso da Crimeia. Os portos da Rússia em outras regiões ficam muito tempo congelados, dessa forma, o Porto de Sebastopol, na Península da Crimeia tem grande importância para os interesses russos. Única saída russa com águas quente todo o ano. Sem contar que a península tem uma posição estratégica para controle do Mar Negro e saída para o Mediterrâneo pelo estreito de Bósforo (AMAL, 2017).


Os primeiros confrontos na Ucrânia têm início em 2004, quando o país sofreu com efeitos das Revoluções coloridas ocorridas no sul do Cáucaso, enfrentado em seu país, a Revolução Laranja. Em 2004, depois de uma eleição acirrada, Viktor Yanukovych saiu vitorioso das eleições com margem de 3% a mais que o seu concorrente Yushchenco (ORTEGA, 2009).


A OCSE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento) denunciou que houve falsificação de votos, intimidações de eleitores. ONGs ocidentais também se envolveram nos protestos pós eleição e novas eleições foram feitas, desta vez com a vitória de Yushchenco, com 52% dos votos (ORTEGA, 2009, apud GALVAO, 2018).


Em 2010, foram levadas a cabo novas eleições, desta vez sem que houvesse críticas, voltando ao poder Víktor Yanukóvytch. O então Presidente seguiu uma política de aproximação direta com a Rússia, o que fez com que em novembro de 2013 houvesse manifestações, dessa vez os protestos eram para pressionar o Presidente a ter uma maior aproximação com a União Europeia (DIAS, 2015).


passados 3 meses de conflitos, começados em dezembro de 2013 e se estendendo até fevereiro de 2014, Yanukovych e seus opositores assinaram um acordo com intermédio da UE, que visava colocar fim no conflito (DIAS, 2015). Yanukovych foi a exilio para Moscou, temendo sua vida.


Moscou percebendo que o Ocidente queria promover reformas em Kiev contrárias aos negócios russos e agenciar a aproximação ucraniana ao Ocidente, agiu rapidamente para reforçar seus interesses na região e reverter as dinâmicas da aproximação da Ucrânia ao ocidente, e tentar consolidar o país na sua esfera de influência.


O apoio aos movimentos separatistas no sul da Ucrânia e a anexação da Crimeia em 18 de março de 2014 foram os principais pontos da estratégia russa (GALVAO, 2018). A Rússia usou de argumentos históricos para a anexação da Crimeia, região pertencente à Rússia anteriormente, que tem uma grande população russa para intervir no país.


Khrushchov enquanto Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética, concedeu a Crimeia aos ucranianos, pois ele tinha muita afinidade com a Ucrânia e muitos, inclusive, achavam que ele era ucraniano, Para Segrillo o referendo em Kiev foi uma forma de os pró-russos se manifestarem contra os acontecimentos na praça Maidan. Há uma divisão política muito grande na Ucrânia. De um lado os prós Ocidente, e do outro os prós russos.


O Ocidente, como atua no presente momento, reagiu à anexação com sanções impostas à Rússia, mas sanções estas que não tiveram efeito, diferente das ações tomadas recentemente, dessa forma, optou-se por uma aceitação de facto da questão.


A União Europeia reagiu mais intensamente que a Otan, pois para os EUA a Ucrânia é um interesse marginal, dessa forma, os norte-americanos não têm uma estratégia forte no conflito (GALVAO, 2018).


Em 2022 após meses de ameaças e posicionamentos de soldados russos na fronteira com a Ucrânia, Moscou mais uma vez, invade o país vizinho, a Ucrânia. No dia 24 de fevereiro, Putin anuncia novas operações militares, desta vez, buscando aproximação à capital Kiev, está ainda sem perspectiva de um término. Além disso, afirmou que haverá consequências nunca vistas caso haja interferência externa.


O Ocidente segue, desta vez com sanções mais intensas, não só ao país russo, mas aos bilionários, oligarcas e pessoas próximas ao presidente, no entendo, ainda sem que tenha surtido efeito nas decisões de Moscou com relação ao conflito.


A Ucrânia, como já citado é um país de posição periférica aos EUA, sem que haja um interesse profundo de guerra com a segunda maior potência nuclear do mundo. A Europa e principalmente a Alemanha depende do gás russo, o que deixa a Europa em uma posição difícil em relação ao conflito. O conflito segue sem que haja alguma esperança de término.


A Rússia vivia uma política de maior aproximação com o Ocidente, entretanto, cada vez mais foi sendo isolada com os avanços da OTAN e UE em sua antiga zona de influência.


Depois de sua instabilidade, A Rússia ressurge no século XXI com novos objetivos em sua política externa: reconhecimento de sua antiga zona de influência, a qual a Ucrânia sempre fez parte, e reconhecimento no sistema internacional.


A Crise na Ucrânia, pode ser entendida como uma continuidade desta forma de pensamento e pode ser avaliada como um mecanismo de coerção às tentativas da Ucrânia de se aproximar do Ocidente.


Estas atitudes podem ser vistas mais como uma reação à penetração ocidental na antiga zona de influência russa, dessa forma, entende-se que a Guerra na Ucrânia não pode ser tratada como uma política expansionista, ou um neocolonialismo, ou uma continuação da Guerra Fria, mas como uma forma de conter o avanço da OTAN e EU. A Rússia procura ter seu espaço de influência respeitado pelo Ocidente, e o Ocidente tenta contê-la pelo receio de sua ameaça, diferentemente do que se tem apresentado como retórica de sempre, Moscou não é o único vilão, apenas segue sua política pragmática mediante ao cerco ocidental.




Genildo Pereira Galvão, Graduado em Relações Internacionais pelo Centro Universitário IESB. Cursou um semestre do seu curso na Universidad Autónoma de Guadalajara, México. Conquistou essa oportunidade em um programa de bolsas do Programa Santander Universidades, no qual ficou entre os 9 selecionados do processo seletivo de 2017. Iniciou uma Licenciatura em História, em 2021, que trancou para iniciar uma em Filosofia que segue cursando. Atualmente está trabalhando no Ministério da Educação como Analista Jurídico Júnior pela THS Tecnologia.


REFERÊNCIAS


AMAL, Victor Wolfgang Kegel. A intervenção russa na guerra da Ucrânia (2014): raízes históricas do novo dilema geopolítico europeu. In: XXIX SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 29., 2017, Brasília. Anais... . Brasília: Unb, 2017. p. 1 - 15.


DIAS, Vanda Amaro. As dimensões interna e internacional da crise na Ucrânia. Relações Internacionais, Lisboa, n. 45, p. 45-55, mar. 2015.


GALVÃO, G. P. Rússia, em busca de seu espaço no novo contexto internacional (Trabalho de Conclusão de Curso em Relações Internacionais). Brasília: IESB, 2018.


ORTEGA, Felipe Afonso. Cores da mudança?: as revoluções coloridas e seus reflexos em política externa. 2009. 139 f. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2009.


SEGRILLO, Angelo. Os russos. São Paulo: Contexto, 2012.


SEGRILLO, Angelo. A Questão da Democracia na Rússia Pós-Soviética. In: ALVES, André Gustavo de Miranda Pineli. O Renascimento de uma potência?: a Rússia no século XXI. Brasília: Ipea, 2012. p. 97-128.


SEGRILLO, Angelo. A diarquia Putin-Medvedev: dimensões da política interna e da política externa. In: ALVES, André Augusto de Miranda Pineli. Uma longa transição: vinte anos de transformações na Rússia. Brasília: Ipea, 2011. p. 137-153.


VISENTINI, Paulo Fagundes. O Caótico Século XXI. Rio de Janeiro: Altabooks, 2015.


FILMOGRAFIA


A HISTÓRIA da Crimeia. Realização de Rádio Diário da Rússia. [s.l]: Rádio Diário da Rússia, 2014. (14 min.), son., color. Acesso em: 26 ago. 2018.

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