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A morte do diálogo e a decadência semântica na política e nas relações internacionais

Durante anos estudiosos, politólogos, filósofos e simpatizantes alimentaram um certo romanticismo em relação às discussões e ao ambiente dentro das instituições políticas na Idade Antiga. A imagem de homens doutos defendendo mediante o uso da retórica e outras técnicas discursivas o destino de suas nações serviram como base para o diálogo político no mundo contemporâneo.

A divisão de pensamentos fazia do “ser político” um homem necessário e indispensável para a evolução. E mesmo com episódios trágicos como a traição dos senadores romanos a Júlio Cesar; não podemos negar que as estratégias e articulações se mantiveram ao longo dos séculos.

O conflito de ideias e projetos é a base do diálogo político, e dessa dicotomia derivou-se as mais diversas teorias na tentativa de classificar o mundo, a sociedade e as relações de poder.

Na atualidade a globalização promoveu uma exposição política jamais conhecida na história da humanidade, além de novas instituições e esferas de poder até então inexistentes.

Essa democratização da política e de todos os modelos de governo existentes no cenário internacional, fomentou o surgimento de uma nova consciência global além de questionamentos em relação à própria evolução da política e do ser político.

Com a democracia como principal forma ou modelo de governo, o ser político não é somente aquele que detém a capacidade de fazer a política, como também aquele que legitima aos que executam as políticas, sendo o cidadão o centro desse universo, ou aqueles que mesmo não participando diretamente na formulação política – seja devido ao regime político ou a suas capacidades políticas – são igualmente contemplados em outras esferas, como por exemplo, a esfera internacional e o reconhecimento dos direitos humanos.

A complexidade das relações de poder e de como o mesmo se organiza são derivados do próprio processo de evolução social e política que se intensificaram com a globalização e atualmente são o palco de paradigmas globais que norteiam aos países ora como atores no cenário internacional ora como autores desse próprio arranjo.

O surgimento de novos atores nessa dinâmica tanto a nível internacional quanto a nível local promove o acirramento das discussões e de como as mesmas moldam a realidade e as relações de poder. Agora mais do que nunca, é necessário fomentar o diálogo para lograr avançar como seres políticos, porém a realidade tem se mostrado outra.

A globalização como processo multidimensional e vetor de mudanças, promoveu também uma padronização que não contemplou a diversidade do cenário e dos atores implicados no processo. Essa padronização gerou setores onde existe uma maior integração, tais e como o sistema financeiro internacional, e setores que registram mais pontos de atrito, tais como a cultura ou a religião. Se caracterizando como uma força coercitiva que não possui um agente que controle sua evolução.

Houve uma apropriação do processo político nas diversas esferas que compõe essa realidade multidimensional e consequentemente o desgaste do mesmo. As transformações que enfrentam diversos atores no cenário político e as da própria sociedade não foram refletidas adequadamente na política, seja devido a velocidade das mudanças ou a falta de ferramentas capazes de restaurar o equilíbrio entre realidade e política.

O desequilíbrio entre a realidade e a política, afetou a evolução do diálogo político e do processo de evolução do mesmo.

Os discursos perdem forças assim como as palavras e os termos perdem sentido.

Existe uma grande confusão em relação ao significado e natureza de ideologias políticas, regimes de poder ou processos de legitimação. O desgaste promovido pela excessiva exposição sem a devida discussão gera a perda do significante de diversos termos. Um exemplo disso é que atualmente toda palavra que contém o termo “social” é quase que automaticamente classificada como uma política de esquerda, não havendo um motivo cientifico para essa taxonomia que não seja aquele oriundo da própria falta de contemplação do diálogo político e da tentativa de padronizar o próprio processo em todos seus níveis. Essa saturação não somente afeta a terminologia e a evolução do diálogo, como também a própria natureza dos paradigmas que orientam a discussão política nos últimos anos. A sociedade vive exposta ao processo político, participa do mesmo, mas não compreende nem permite sua evolução devido ao engessamento do diálogo frente as forças coercitivas do processo de globalização – que trata de padronizar tudo – gerando um empobrecimento generalizado das ciências políticas e convenções muitas vezes limitadas… Direita é azul, esquerda é vermelho, um país é democrático e outro (mesmo com um sistema eleitoral) não é, tal ideologia é boa, outra é perniciosa, etc.

A morte do diálogo e o a decadência semântica na política, afeta não somente a compreensão dos novos atores do processo político, mas a todos aqueles que participam dele, sendo este o maior desafio que enfrenta o atual “ser político”.

Em todo diálogo sempre houve discursos com maior ou menor adesão, mas o que enfrentamos desde o início da globalização e da popularização do processo político é o total engessamento ou direcionamento do diálogo pela necessidade de reduzir o processo a uma escala mínima de compreensão que seja alcançável para todos os atores, deixando de um lado os diversos matizes que tingem essa realidade, e da mesma forma que a globalização negligenciou a diversidade de setores como a cultura e a religião, a política como processo humano enfrenta o mesmo desafio, e a linha que separava o nível internacional e a exposição aos fatores exógenos do nível local é cada vez mais tênue, promovendo uma crescente homogeneização de como deveria se comportar um modelo de gestão e/ou processo.

Os países se influenciam nesse mundo denso, de forma direta ou indireta. A comunidade internacional pressiona, mas o diálogo se perde ante a inflexibilidade do próprio processo político em transformação, o que sem dúvidas gera contradições entre os consensos que se formam nesse ambiente e as convenções internacionais do que é certo ou errado.

Em plena reformulação do cenário internacional e quebra de paradigmas, o diálogo é a única amálgama capaz de promover evolução da política e de todas suas esferas (internacional e local, ideológica e metodológica, formas de governo, terminologia, processos de legitimação, processos de formulação e execução, etc) e se limitar por convenções ou permitir o desgaste de determinados termos pode resultar em atraso da evolução política mundial por falta de diálogo, o mundo não pode se permitir ao luxo de condenar determinados processos ou atores pelo desgaste promovido devido ao excesso de exposição dos mesmos… não pode gerar consensos que acabem atuando como forças coercitivas que promovem mudanças drásticas e muitas vezes pouco calculadas…

A crescente polarização política que no passado já foi um importante vetor de desenvolvimento, hoje atua como uma barreira para evolução política, e somente ampliando o discurso de forma ética sem a adesão de convenções predefinidas e padronizadas pela globalização será possível utilizar a mesma para o desenvolvimento do “ser político” em escala mundial…

Sem diálogo o único que teremos será uma constante divisão entre… os bons… E os maus…

Bibliografia:

Thomas Hobbes – Leviatã

Jean Jacques Rousseau – O Contrato Social

Platão – A República

Cícero –  As divisões da Oratória

Noam Chomsky – O bem comum

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