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A nova corrida ferroviária na América: o trem como eixo de desenvolvimento

Atualizado: 26 de set. de 2023

Com incontáveis projetos que vão desde os Estados Unidos a Argentina, as ferrovias voltaram a suscitar interesse na continente, após anos de abandono, falta de investimentos e prioridade para as rodovias...

A Ferrovia, responsável pelo do desenvolvimento industrial e econômico europeu atuou como um importante meio de transporte para milhões de pessoas e produtos em todo o planeta.

No continente americano, o trem chegou ainda no auge deste modal, sendo o primeiro trajeto instaurado em 1924 pelo Coronel John Stevens em sua propriedade de Nova Jersey, e posteriormente inaugurada a South Carolina & Hamburg Railroad em 1830 com a primeira linha regular. Na América Latina o primeiro projeto a ser implementado foi inaugurado em Cuba em 1837 entre a cidade de Habana e Guines, sendo ainda parte do domínio espanhol. Já na América do Sul, considerasse o primeiro projeto a ferrovia entre Lima e Calero no Peru em 1851, e no Brasil embora o projeto tenha tido início em 1835 quando o regente Feijó assinou o decreto 100 para a expropriação de terras e uma carta de privilégios para a construção de uma ferrovia, o primeiro trajeto somente foi inaugurado 1854, época na qual o Brasil ainda estava sob o domínio de Portugal.

Houve uma rápida expansão em todo o continente da chamada “estrada de ferro”, tanto que o Brasil chegou a ter uma das maiores malhas ferroviárias do planeta.

Porém com o sucesso dos veículos automotivos, incentivados com a consolidação do Fordismo e a ampliação das cadeias de produção e o uso do petróleo com uso de petróleo como fonte de energia, o trem foi aos poucos perdendo espaço para os camiões e sendo finalmente substituído pela indústria automotiva que prometia um rápido crescimento industrial e fomento a outros setores relacionados tais como a siderurgia e metalurgia, maiores velocidades e capacidade de conexão, além de uma maior distribuição dos fatores produtivos.

O final da era das locomotivas, foi marcado pela industrialização tardia de grande parte dos países latinos, especialmente Brasil, Argentina e México. Começou a era das rodovias... Sem embargo, com o surgimento das redes eletrificadas e da alta velocidade, os trens aos poucos foram ressurgindo em países como Japão e posteriormente Espanha, havendo um grande contraste entre aqueles com novos sistemas, frente aqueles que tinham abandonado os trens, nos quais existia ou ainda existe, uma visão deturpada do quê representa o trem, sendo visto como algo deficiente, atrasado e pouco eficiente. Assim mesmo os valores necessários para realizar investimentos na rede ferroviária, era uma realidade distante para muitos países, além das implicações jurídicas para uma expansão das vias devido ao desorganizado processo de crescimento urbano de grande parte das nações... Enquanto os cidadãos com maior poder de compra viajavam para Europa e para a Ásia para realizar passeios em trem o sistema local continuava desfasado e sem grandes investimentos. Somente com o incremento do volume de produtos transportados, a saturação das vias de comunicação e o aumento da preocupação global pelo meio ambiente, o trem voltou a ser contemplado como um meio de transporte eficiente para as nações, principalmente para o escoamento da produção e para o transporte em massa da população das grandes cidades decorrentes da expansão demográfica do século XX.

Neste ambiente dois países destacaram pelo seu desempenho, por um lado a China que em poucos anos se transformou na maior potência ferroviária de alta velocidade e a Espanha que foi um dos países pioneiros da Europa porém cujos projetos foram perdendo ritmo por questões internas e pela negligencia e incapacidade do governo de definir uma estratégia de desenvolvimento econômico através da expansão do seu sistema, questões tais como os atrasos na consolidação do corredor Mediterrâneo e mais recentemente a falta de acordo com Portugal em incentivar o Corredor Atlântico por Galiza, mas teimando em passar o mesmo por Madrid (a mais de 500km do Oceano Atlântico) mantendo uma visão mais centralista e política que de fato estratégica do uso das ferrovias.

Já no continente americano, apesar do fracasso da primeira tentativa de implementar o trem de alta velocidade entre São Paulo e Rio de Janeiro durante o Governo Dilma, ou de consolidar a ferrovia trans-nordestina como rota de escoamento para o Brasil... os trens voltaram a entrar na moda!

A superpopulação e concentração em ponto geográficos precisos em todo o continente, assim como a saturação dos meios de escoamento da produção e as crescentes políticas ambientais, fomentaram uma nova busca pelas ferrovias.

Embora caiba lembrar que os sistemas de Alta Velocidade não são utilizados para o escoamento da produção, os mesmos funcionam como um chamariz para o setor e dão fôlego a este.

Dessa forma as ferrovias voltam a recuperar seu papel como dinamizadoras do crescimento e desenvolvimento econômico, além de alternativa viável e sustentável para o transporte de massas sem o ingente consumo de carburantes fosseis.

Os Estados Unidos deram o ponta pé inicial para seu projeto de alta velocidade na Florida e posteriormente ampliou para regiões do interior como Las Vegas, embora a nação norte-americana sempre tenha utilizado o trem como meio de transporte de mercadorias, seu sistema envelhecido esteve anos sem receber investimentos e pouco a pouco ganham um novo sentido já seja para o transporte de passageiros, como de mercadorias.

Na Argentina, Peru e Chile, projetos de trens regionais para comunicar as cidades do interior e capitais tais como os trens regionais de Santiago del Estero, começam a surgir e modificar por completo o sistema de transporte local. No México o famoso trem Maya busca distribuir o desenvolvimento econômico e turístico da região sem impactar no meio ambiente.

No Brasil projetos como o Intercidades que visa unificar São Paulo com as demais áreas metropolitanas vizinhas como Grande Campinas, Baixada Santista, Sorocaba, Jundiai e São José dos Campos, podem dar origem a maiores megalópoles do hemisfério sul. Assim mesmo o projeto de unificar Rio de Janeiro a São Paulo volta a ressurgir, assim como projetos tais como a ferrovia Espírito Santo- Minas Gerais que são uma das poucas que transportava passageiros nos últimos anos.

Existem muitas críticas pelo fato de que a maioria dos projetos estão concentrados no transporte de pessoas, porém o trem de passageiros ressignifica o próprio sistema ferroviário já que uma composição de vagões com alta capacidade pode transportar milhares de pessoas, retirando (principalmente no que se refere ao continente americano) milhares de veículos automotivos individuais nas estradas, contaminando e saturando as vias. O trem volta a ser uma opção e já existem projetos de sua nova etapa tais como o hyperloop proposto na Europa e nos Estados Unidos ou o já existente Maglve, capaz de unir grandes distancias, com baixo gasto ambiental... E em um planeta que pede socorro, diante de tantas guerras causadas pela insegurança energética, o trem pode voltar a ter uma era de Ouro.


Wesley Sá Teles Guerra, formado em Negociações Internacionais pelo Centre de Promoció Econômica del Prat de Llobregat (Barcelona), Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, MBA em Marketing Internacional pelo Massachussetts Institute of Business, MBA em Parcerias Globais pelo ILADEC, Mestrado em Políticas Sociais com especialização em Migrações pela Universidade de A Coruña (Espanha), Mestrado em Gestão e Planejamento de Cidades Inteligentes (Smartcities) pela Universitat Carlemany (Andorra) e doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Contemporânea Internacional. Atuou como paradiplomata e especialista em cooperação internacional e smartcities para a Agência de Competitividade da Catalunha (ACCIÖ – Generalitat de Catalunya), atualmente é colaborador sócio do Instituto Galego de Análise e Documentação internacional (IGADI) e do Observatório Galego da Lusofonia (OGALUS), Também participa como coordenador da área de Economia, Ciência e Tecnologia do CEDEPEM – UFF. Idealizador e diretor do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais, membro do Smart City Council, do IAPSS International Association for Political Sciences Studentes, do Consório Europeu para a Pesquisa Política, REDESS, Centro de Estratégia e Inteligência das Relações Internacionais e colaborador da ANAPRI. Autor dos livros”Cadernos de Paradiplomacia” (2021) e “Paradiplomacy Reviews” (2021) além de participar do livro “Experiências de Vanguarda, no ensino nos países lusófonos” publicado em 2021 pelo CLAEC e organizado pela Dra. Cristiane Pimentel. Professor, articulista e especialista: wesleysateles@hotmail.com

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