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Ascensão e crise da imigração japonesa no Brasil


Foto: Vivian Farinazzo

Apesar de estarem de lados opostos do globo, Brasil e Japão vivem o fenômeno de migrações de seus povos há mais de 100 anos. Primeiro, foram os japoneses que se arriscaram meses no mar para chegarem até aqui e trabalharem na agricultura suprindo a falta de mão de obra que os fazendeiros precisavam para continuar exportando o café, um dos principais produtos nacionais do início do século XX. Oitenta anos depois, foi a vez dos brasileiros – a maioria descendente de japoneses – imigrarem para o Japão com o objetivo de trabalhar na manufatura.

O Brasil tem hoje a maior população de japoneses e descendentes fora do Japão. Ao todo são cerca de 1,5 milhão de pessoas, sendo que aproximadamente 1 milhão vive no estado de São Paulo (Governo de São Paulo, 2008). O estado paulista teve um importante papel no incentivo à imigração através de subsídios e custeios para trazer os novos  trabalhadores da cultura do grão de café.


Para os japoneses, que não conheciam absolutamente nada sobre o Brasil há 100 anos, o país era uma terra de oportunidades com a possibilidade de enriquecimento rápido. Sendo assim, o objetivo era vir trabalhar nas fazendas e voltar ao Japão em um prazo de três anos. No entanto, a realidade das péssimas condições de trabalho, preconceito, costumes, além da língua diferente foram drasticamente acabando com os planos dos primeiros que vieram morar no Brasil.

No fim do século XIX, o Japão vivia uma crise de super população e, mesmo assim, o governo proibia que os japoneses saíssem do país. Por este motivo, o processo de emigração se iniciou tardiamente e, portanto, encontrou mais restrições ao chegar em países que já haviam recebido enormes contingentes de europeus, como foi o caso dos Estados Unidos.

Nos primeiros 50 anos do movimento migratório japonês, o número de pessoas que deixou o país não chegou a somar 500 mil pessoas. Contingente muito menor do que os três milhões de alemães, dez milhões de italianos e 11 milhões de britânicos que se deslocaram para várias partes do globo no mesmo período (Leão Neto, 1990).

No Brasil, a imigração japonesa se iniciou no Brasil em 1908, porém o fluxo tornou-se relevante, com apoio do governo japonês, só a partir de 1925. As necessidades das lavouras de café paulistas somadas ao mercado de agências de emigração japonesas foram o gatilho para o início desta migração. Internamente, havia o avanço das exportações provenientes do Oeste Paulista.

Para os barões do café, era preciso ter todos os braços possíveis trabalhando em uma das principais atividades econômicas do país no início do século passado.  Em 1902, o estado de São Paulo era responsável por 65% do café que era cultivado no país (Simonsen, 1940).

Os dois países iniciaram as relações diplomáticas com a assinatura do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação, em novembro de 1895. O primeiro acordo bilateral é considerado um marco até hoje e só teve as atividades interrompidas durante anos da Segunda Guerra. O governo japonês assinou o documento mesmo sem conhecer nada sobre o Brasil (Ninomiya, 1995).

Isso porque até então a política externa japonesa era de isolamento e impunha severas punições aos japoneses que tivessem se aventurado a conhecer outros países. Para se ter uma ideia, em todo o século XIX foram registradas a presença de apenas quatro japoneses no Brasil. Com a assinatura do tratado, o Brasil instalou um Consulado Geral na cidade de Yocohama e outro em Kobe (Ministério das Relações Exteriores, 2015).

O estreitamento das relações também permitiu o início do comércio intercontinental. A governo japonês passou a comprar café, embora em pequenas quantidades, algodão, couros, cristais de rochas, ossos e borracha (Leão Neto, 1990).

Porém, um contrato específico sobre imigração só foi assinado no dia 6 de novembro de 1907, entre o governo de São Paulo e a Empire Emigration Company, com sede em Tóquio (Nogueira, 1983). O governo estadual se comprometia a subsidiar o deslocamento, mas repassava parte do custo para os fazendeiros, que por sua vez descontavam do salário do imigrante complicando a vida dos recém-chegados.

O fomento foi necessário, pois era preciso encontrar mais alternativas diante do recente fim da escravidão (1888) e da escassez de mão de obra para a atividade. O governo federal também ajudava no custeio do transporte dos primeiros imigrantes, que se arriscavam cruzando o mar em péssimas condições até chegar à costa do Brasil.

Enquanto por aqui a imigração começava, já havia o estremecimento das relações entre Estados Unidos e Japão. A cada ano que passava, os problemas de xenofobia relacionados aos japoneses cresciam no estado da Califórnia. Em 1907, o Japão se viu obrigado a negociar um acordo de limitação de emigração para os Estados Unidos, que ficou condensado no documento conhecido como Gentlemen’s Agreement. Este acordo também pode ser considerado um fator para o incremento da imigração de nipônicos no Brasil, pois as agências de emigração japonesas tiveram que buscar novos mercados (Leão Neto, 1990).

A imigração japonesa no Brasil antes da Segunda Guerra Mundial pode ser dividida em duas etapas. Sendo o primeiro período entre 1908 a 1925, considerado experimental, e o segundo de 1926 a 1941, na qual o governo japonês investia pesado na exportação de mão de obra (Saito, 1961).

Neste segundo momento da imigração japonesa no Brasil, e com o mundo caminhando para um cenário de guerra, começaram os problemas com a comunidade nipônica no Brasil. De características isolacionistas, os japoneses de maneira geral não se incorporaram na sociedade brasileira. Mantinham os mesmos costumes, falavam entre si seu idioma, ensinavam as crianças em escolas próprias, mesmo que improvisadas. Neste contexto, os problemas de xenofobia fizeram com que a situação fosse levada à Assembleia Nacional Constituinte durante o primeiro governo de Getúlio Vargas.

O cenário interno era de nacionalismo autoritário e não favorecia em nada a comunidade nipônica. O governo trabalha na construção da identidade nacional e chegou até a queimar as bandeiras estaduais, em 1937, em sinal de que nenhuma identidade era mais importante do que a brasileira. Por isso, os japoneses teriam que se tornar brasileiros e deixar seus costumes no passado. O que aconteceu de maneira forçada.

Vargas criminalizou as manifestações culturais nipônicas e proibiu o uso da língua japonesa. Além disso, a atividade política realizada por estrangeiros passou a ser proibida. Diariamente aconteciam, sob orientação do governo, revistas nas casas dos imigrantes, além do confisco de seus bens materiais. Na imprensa, os japoneses passaram a ser assunto nas manchetes dos jornais que os classificavam como terroristas.

Enquanto no cenário interno, a perseguição e a política de cotas para a imigração era discutida, Vargas trabalhava em duas frentes para garantir o financiamento da industrialização do Brasil. Hora barganhando com os Estados Unidos, seu maior parceiro comercial, hora com uma Alemanha administrada por um governo Nazista em plena ascensão.

Os imigrantes passaram a ser considerados indesejáveis no Brasil, com exceção dos europeus brancos. A restrição se aplicava aos negros e orientais, que não eram interessantes para o projeto de branqueamento da sociedade brasileira. Mesmo depois que já estavam morando no Brasil há 30 anos, os japoneses – além dos demais estrangeiros no país – passaram a ser considerados uma ameaça à formação da identidade nacional.

Toda a campanha da imprensa, somada ao isolamento das comunidades e ao contexto internacional de guerra resultaram na aprovação de uma emenda conhecida como “lei das cotas”. Na Constituição de julho de 1934, o parágrafo 6 do artigo 121 determinava que restrições deveriam ser impostas à entrada de imigrantes com o objetivo de garantir a integração étnica e capacidade física e civil do imigrante (Endrica, 2009).

A medida restritiva, para Geraldo Endrica, não seria resultado de uma decisão direta do governo Vargas, mas sim do debate da Assembleia Nacional Constituinte, da repercussão na imprensa e da opinião pública provocada pela apresentação de emendas sobre imigração e colonização.

Inicialmente, a imigração japonesa foi interessante para a política externa brasileira para suprir a demanda dos produtores cafeeiros – grupo de interesse fundamental no início do século XX. Com o declínio das exportações e o colapso da cultura do café, a mão de obra nipônica já não era mais necessária. Os imigrantes foram, então, descartados de seus trabalhos e tiveram que ingressar em outras atividades profissionais já que não tinham dinheiro para voltar ao Japão.

Além disso, o projeto de identidade nacional de Getúlio Vargas não cabia, como já foi dito, os povos negros e de origem asiática. O governo da época não só apoiava as restrições como também reprimia os imigrantes no país. No cenário externo a situação era ainda mais complicada. As relações diplomáticas entre os dois países foram completamente interrompidas com o auge da Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil rompeu com os países do eixo (Alemanha, Itália e Japão).

Com o término da guerra, as leis de restrição à imigração japonesas foram canceladas e o fluxo para o Brasil voltou a crescer. Porém, ainda demorou décadas para que os nipônicos e seus descendentes fossem reconhecidos como parte importante da sociedade brasileira. Atualmente, a comunidade japonesa é completamente integrada e respeitada.

Hoje, a crise de imigração japonesa no Brasil foi completamente superada e a cooperação entre os dois países acontece nas áreas de política, economia, cultura, meio ambiente e energia. Embora, o fluxo de pessoas entre os dois países não tenha mais relevância, se comparado com os números do início do século passado.

A parceria também se estendeu para os diálogos globais. O Japão apóia, particularmente, ao lado do Brasil a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Os encontros diplomáticos entre os países são frequentes para negociar acordos bilaterais e no curto prazo é possível afirmar que não há assuntos que possam causar o estremecimento destas relações novamente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Governo do Estado de São Paulo. Imigração Japão – Brasil. 1908 – 2008

Leão Neto, Valdemar Carneiro. A crise da imigração japonesa no Brasil, 1930-1934: Contornos diplomáticos.  Fundação Alexandre de Gusmão (1990).

Simonsen, Roberto C. Aspectos da história econômica do café. Separata da Revista do Arquivo, São Paulo, n. 65, p.194, 213. 1940.

Ministério das Relações Exteriores. Divisão de Atos Internacionais. Tratado de Amizade, Comércio e Navegação. Firmado em Paris no dia 5 de novembro de 1895.

Ninomiya, Masato. O centenário do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre Brasil e Japão. Separata da Revista da USP, São Paulo, 1995-1996.

Nogueira, Arlinda Rocha. Imigração japonesa na história contemporânea do Brasil. Centro de Estudos Nipo-Brasileiros. p. 94. 1984

Saito, Hiroshi. O japonês no Brasil. Estudo de mobilidade e fixação. São Paulo: Ed. “Sociologia e Política”, 1961.

Endrica, Geraldo. A lei de cotas de 1934: controle de estrangeiros no Brasil. Universidade de Campinas. 2009.

Foto: Vivian Farinazzo

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