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Boko Haram: o grupo extremista que mais mata no mundo

Se o Estado Islâmico é o grupo extremista que mais choca o mundo, o Boko Haram  é o que mais mata. Em 2014, segundo o relatório Global Terrorism Index 2015, encomendado pelo Institute for Economics and Peace, os jihadistas mataram 6.644 pessoas em atentados terroristas. O Estado Islâmico matou 6.073 civis, sendo o segundo mais mortal. Já o Taleban que parecia esquecido aparece em terceiro lugar com 3.477 mortes de civis no Afeganistão e no Paquistão.

O Boko Haram surgiu em 2002, mas tornou-se mais violento e com operações militares frequentes em 2009. O nome significa aproximadamente “influência ocidental é proibida”. O grupo prega a formação de um califado na Nigéria. Atualmente, representa uma crise regional grave porque já controlam além do nordeste da Nigéria, extensões em Camarões, Chade e Benim.

Os líderes do Boko Haram têm conexões internacionais com a Al Qaeda, na qual se inspiraram. Mais recentemente, em março deste ano, juraram lealdado ao Estado Islâmico. Embora, seja improvável o intercâmbio de jihadistas e informações devido as inúmeras fronteiras que dividem os dois grupos é preciso atenção já que compartilham a mesma visão fundamentalista do islã. Extremistas que juraram lealdade ao Estado Islâmico foram observados causando estragos mesmo fora da Síria e do Iraque. Exemplo disso é o que aconteceu recentemente na Península do Sinai, no Egito, onde a facção Ansar Beit al Maqdis reinvindicou o ataque que derrubou o avião russo com 224 pessoas a bordo.

Assim como o Estado Islâmico, o Boko Haram tem objetivos específicos. Conquistar território e implementar as normas mais estritas da sharia, a lei islâmica, para os que aceitarem viver nos vilarejos conquistados. Depois que juraram lealdade ao Estado Islâmico, os ataques com bombas praticamente triplicaram na Nigéria tornando o combate aos extremistas uma das prioridades do presidente eleito Muhammadu Buhari.

O Boko Haram mata mais muçulmanos do que cristãos. Os alvos são os sunitas e xiitas, ao contrário do Estado Islâmico que é de orientação sunita e ataca xiitas. A milícia usa bem a estratégia terrorista explodindo igrejas, carros e também usando homens-bomba. É talvez um dos grupos radicais islâmicos mais violentos da história da África. A violência causada pelos jihadistas já forçou o deslocamento de mais de dois milhões e meio de pessoas, sendo apenas 400 mil não nigerianos, segundo as Nações Unidas.

O Boko Haram se utiliza também da violência contra a mulher parar causar destruição social. No ano passado, os extremistas levaram mais de 200 adolescentes de uma escola no vilarejo de Chibok, no norte do país. O rapto das jovens fez com que o governo sofresse grande pressão interna e internacional para resgatar as garotas e combater a milícia. O exército nacional passou a atacar diariamente as vilas ocupadas pelo grupo rebelde. A campanha contou com o suporte dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido. Mesmo sob ataque, a milícia já ocupa um território no nordeste da Nigéria equivalente ao tamanho da Bélgica. Com seus soldados se escondendo na floresta de Sambisa, na fronteira com o Camarões, o combate ao grupo torna-se ainda mais complexo.

Além de combater militarmente os extremistas, o presidente do país ainda precisa trabalhar na redução da pobreza. Além disso, é necessário garantir coesão social para que os jovens não sejam facilmente recrutados para engrossar o exército dos jihadistas. Tarefa inadiável. A Nigéria é o país mais populoso da África e o oitavo do mundo – são 170 milhões de pessoas. A repercussão dos ataques terroristas também afeta a economia do país. O aumento de poder de fogo dos extremistas somado a alta dependência da exportação do petróleo podem ser fatores responsáveis pela queda de investimento externo direto no país. De acordo com o relatório World Investment Report (2015) da ONU, esse investimento caiu 16% no último ano.

Embora o petróleo seja responsável por 90% das exportações da Nigéria, o país tem um mercado dinâmico a ser explorado. Multinacionais como Nestlé, Heineken, SABMiller e Unilever têm investido milhões de dólares para expandir a produção em território nigeriano. As multinacionais tentam acompanhar o surgimento de uma nova classe média em Lagos, capital financeira do país.

A Nigéria de hoje oferece uma visão bipolar. Ao mesmo tempo que tem um mercado cheio de oportunidades e em crescimento, também é um país que parece estar sob situação caótica e desordem. Apesar de ser o maior produtor de petróleo da África, de acordo com o Banco Mundial, dois terços da população vivem na pobreza. Embora o número de pobres fique estagnado, o de ricos deve crescer pelo menos 47% nos próximos dois anos tornando a Nigéria um dos mercados mais crescentes de consumidores de champagne, jatos privados e outros artigos considerados de luxo.

Os setores de telecomunicações e financeiros também atraem os investidores externos, inclusive os brasileiros. Basta pegar um voo com direção a Lagos da companhia Ethiopian Airlines para conhecer alguns destes empresários que investem nos setores de serviços hospitalares, logística para o transporte de alimentos, entre outros.

Já a Nigéria foi o quinto maior exportador para o Brasil em 2014 com US$ 420 milhões. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o principal produto importado pelo Brasil da Nigéria é óleo bruto de petróleo seguido de derivados de petróleo. Os principais produtos brasileiros exportados para a Nigéria são açúcar, arroz e etanol.

Para manter a economia aquecida o governo nigeriano precisa impedir o avanço do Boko Haram. O grupo tem grande poder de fogo e pode, assim como o Estado Islâmico, avançar ainda mais sobre o território nigeriano e seus vizinhos. O governo do país é reconhecimento internacionalmente e considerado estável, apesar do grande problema doméstico que enfrenta. Contudo, além de combater jihadistas o país ainda precisa trabalhar a consolidação da democracia, a unificação nacional e lutar contra a corrupção. Enquanto a mídia internacional observa com toda a energia os ataques cometidos pelo Estado Islâmico, o Boko Haram segue matando mais.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

United Nations Coference on Trade and Development – World Investment Report 2015. Disponível em: http://unctad.org/en/PublicationsLibrary/wir2015_en.pdf

Foto: Utomi Ekpei

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