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Ceres entrevista um dos maiores especialistas em Segurança Internacional Prof. Bernardo Wahl

Atualizado: 28 de fev.

NOTA EDITORIAL: Entrevista concedida antes do bombardeio russo a Ucrânia


As tensões entre os Estados Unidos e a Rússia na chamada crise da Ucrânia, sem dúvidas é um dos grandes temas da atualidade dentro da área de Relações Internacionais, principalmente para os estudiosos de Segurança e Defesa e Geopolítica. Por esse motivo, entrevistamos hoje ao Prof. Bernardo Wahl, um dos maiores especialistas da área no Brasil. Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge atua como analista independente, palestrante, consultor autônomo e professor universitário na área de relações internacionais. É o professor responsável pela disciplina Segurança e Defesa da Pós-Graduação lato sensu Política e Relações Internacionais da Sociologia e Política - Escola de Humanidades (FESPSP). Também leciona no Bacharelado em Relações Internacionais do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU-SP). Detém Mestrado Acadêmico em Relações Internacionais (área de concentração em Estudos de Paz, Defesa e Segurança Internacional) pelo Programa San Tiago Dantas (formado pela UNESP, UNICAMP e PUC-SP) e Bacharelado em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP). Além disso, tem formação complementar em segurança e defesa realizada nos Estados Unidos (dois cursos no William J. Perry Center for Hemispheric Defense Studies – CHDS), na Suíça (um curso no Geneva Centre for Security Policy – GCSP) e no Brasil (um curso realizado na Escola Superior de Guerra – ESG e outro na Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra – ADESG). Cuja ampla experiencia e conhecimento nos ajudará a entender um pouco melhor deste assunto e a democratizar um pouco este tema tão importante, mas complexo das Relações Internacionais.


A gestão Biden até o momento teve uma ação tímida no cenário internacional, talvez pelo fato de que na gestão anterior de Donald Trump, o ex-presidente americano comentava diariamente nas redes sociais, seu ponto de vista sobre diferentes assuntos, cometendo mais de uma gafe, mas que, porém, mantinha o foco na política americana. Por outro lado, Biden parece atuar como um político “da velha escola” e retomou determinados temas para as altas esferas políticas, sem muita difusão pública. Partindo desse ponto de vista Prof. Wahl o senhor considera que houve uma recessão da atividade internacional dos Estados Unidos, mesmo quando falamos de um governo supostamente mais aberto a participação internacional que a gestão de Trump, considerado isolacionista? Ou os EUA mantém uma postura isolacionista ainda?


Resposta: Desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os Estados Unidos assumiram o papel de liderança da ordem internacional liberal, caracterizada pelo respeito às regras do direito internacional e pela existência de instituições internacionais, cuja maior expressão é a Organização das Nações Unidas (ONU). Ao longo da Guerra Fria (1947-1989), a hegemonia mundial foi disputada entre as duas superpotências EUA e URSS, em um sistema internacional bipolar, cujo desfecho resultou em Washington saindo vitoriosa sobre Moscou. Após a queda do muro de Berlim em 1989 e a dissolução da União Soviética em 1991, com a vitória do capitalismo liberal Francis Fukuyama lançou a ideia do “fim da História”, que depois se mostrou prematura (e o próprio autor a reavaliou). Os Estados Unidos passaram a ocupar a posição de hiperpotência (Hubert Védrine) ou superpotência solitária (Samuel Huntington) em um sistema internacional unipolar (um único polo de poder militar) ou unimultipolar (um polo de poder militar e diversos polos de poder econômico). O domínio estadunidense nesse momento era incontestável, pelo menos até os atentados terroristas da al-Qaeda em onze de setembro de 2001, quando iniciou-se o declínio do poder relativo norte-americano. Foi lançada a “guerra global ao terror”, com múltiplas frentes de batalha, destacando-se os teatros de operações do Afeganistão e do Iraque. Mais tarde veio a crise econômica de 2008 e o posterior “retorno da História”, com a ascensão chinesa e o ressurgimento russo, marcado pela guerra na Geórgia em 2008, a tomada da Crimeia em 2014, entre outros. O governo Trump (2017-2020) marcou o fim da liderança norte-americana da ordem internacional liberal, em uma postura com um certo desengajamento internacional, onde a “América” viria em primeiro lugar (“America First”). Porém, os EUA estão tão envolvidos na política mundial, que mesmo havendo um desengajamento, ainda assim a participação externa estadunidense é muito grande. Quando Joe Biden assumiu a presidência em 2021, foi colocada essa questão: se os EUA buscariam novamente assumir um papel de liderança. Porém, a presidência de Biden está abaixo do que se esperava, sendo considerada fraca, com baixa popularidade e, simultaneamente, parte do espaço deixado pelos EUA foi preenchido por outras grandes potências: a China em ascensão e a Rússia buscando novamente ocupar seu lugar no tabuleiro do xadrez mundial. Para alguns, as relações internacionais testemunham uma espécie de retorno da competição entre as grandes potências. A atrapalhada retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão em agosto de 2021 após 20 anos de guerra acabou por manchar o currículo de Biden em política externa, a crise em torno da Ucrânia está sendo um teste em suas relações exteriores e a China é o atual adversário estratégico dos EUA. Dessa forma, não tem como os Estados Unidos quererem se isolar, pois o mundo chama os norte-americanos de volta para o jogo. Foi assim com as grandes potências ao longo da história, é assim com as grandes potências no presente. Mas o cenários geopolítico é turbulento, o que restringe o espaço de manobra das iniciativas em política externa.


Não é de hoje que a OTAN pressiona aos países membros localizados na Europa uma maior participação e engajamento com a organização, desde a gestão Obama, existe uma tentativa de redesenhar a organização. A Crise da Ucrânia pode ser uma prova de fogo para a OTAN?


Resposta: A crise em torno da Ucrânia é uma prova de fogo para os diversos atores envolvidos nela, inclusive e particularmente a OTAN. Criada durante a Guerra Fria para fazer uma frente militar à URSS na Europa, tal aliança militar se manteve viva após o fim do confronto Leste-Oeste. Como uma forma de consolidar o poder ocidental, houve a ideia de expandir a OTAN para a Europa oriental, uma região de tradicional influência russa. Aproveitou-se o momento em que a União Soviética havia se dissolvido e a Rússia estava enfraquecida. Conforme lembrou o Professor Stephen Walt no artigo “Liberal Illusions Caused the Ukraine Crises” (Foreign Policy, 19/01/2022), essa ideia de ampliar a OTAN se baseou na teoria liberal das relações internacionais, que divide o mundo entre Estados “bons”, os liberais democráticos, e Estados “ruins”, os autoritários. Segundo esta teoria, os conflitos internacionais surgem principalmente dos impulsos agressivos de autocratas, ditadores e outros líderes não liberais. A solução viria através da derrubada dos tiranos, espalhando a democracia, os mercados e as instituições com base na crença de que as democracias não lutam entre si, especialmente quando estão unidas pelo comércio, investimento e um conjunto acordado de regras. Só que, nos anos 1990, quando da expansão da OTAN, as elites políticas que se guiaram pela teoria liberal não levaram em conta o realismo político, as regras da política de poder e as zonas de influência. Hoje a Rússia sob Putin está fortalecida, em posição de reivindicar seus interesses e não aceitar que as regras do jogo sejam impostas pela OTAN. O futuro da ordem de segurança da Europa passa pela crise ucraniana. Uma possível solução seria uma Ucrânia neutra, que não entrasse em tal aliança.


Em breves palavras quais são os reais motivos das tensões na Ucrânia e quais são seus possíveis impactos?


Resposta: A presente crise em torno da Ucrânia é uma continuação do que começou em 2014, quando a Rússia tomou a Crimeia. Mas os recentes desenvolvimentos políticos na Ucrânia, nos EUA, na Europa e na Rússia ajudam a explicar por que Putin está agindo com mais ênfase atualmente. Entre esses desenvolvimentos estão a eleição em 2019 do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. Ele prometeu durante sua campanha “reinicializar” as negociações de paz para encerrar o conflito no leste ucraniano, incluindo tratar diretamente com Putin para resolver a contenda. A Rússia também achou que poderia tirar algo disso: viu o novato político Zelensky como alguém que poderia estar mais aberto ao ponto de vista russo. A Rússia desejava que Zelensky implementasse os acordos de Minsk de 2014 e 2015, que trariam as regiões pró-Rússia de volta à Ucrânia, mas também equivaleriam a uma espécie de “armadilha” para Moscou exercer influência e manter o controle. Nenhum presidente ucraniano aceitaria esses termos e, dessa forma, Zelensky recorreu ao Ocidente em busca de ajuda, falando abertamente sobre querer se juntar à OTAN. A opinião pública na Ucrânia também se inclinou fortemente para apoiar a entrada em órgãos ocidentais como a União Europeia e a OTAN. Isso pode ter deixado a Rússia achando que havia esgotado todas as ferramentas políticas e diplomáticas para trazer a Ucrânia de volta à sua esfera de influência. Moscou não quer a OTAN em suas fronteiras. Além disso, a perspectiva de Putin sobre os Estados Unidos também mudou. Para o líder russo, a caótica retirada norte-americana do Afeganistão e a turbulência doméstica dos EUA são sinais de fraqueza. Putin também percebe o Ocidente dividido sobre o papel estadunidense no mundo. A Europa da mesma forma apresenta desafios internos, como o pós-Brexit, o rumo da gestão do novo chanceler alemão Olaf Scholz e as eleições francesas no mês de abril de 2022. Assim, a Rússia deixou claro que, caso a diplomacia não resolva o problema ucraniano, a força militar poderá ser usada. Na verdade, já existe uma guerra por procuração (proxy war) no leste ucraniano, onde o Kremlin apoia rebeldes pró-Moscou nas autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk. Como afirmou o pensador francês Raymond Aron (1905-1983), as relações internacionais se desenrolam à sombra da guerra. E Putin criou uma grande sombra de guerra em cima da Ucrânia: uma guerra que está presente e ausente ao mesmo tempo, para a qual Aron também possui uma máxima (utilizada na época da Guerra Fria) que se aplica muito bem atualmente: “paz impossível, guerra improvável”. A estratégia russa parece ser de ganhar a guerra antes mesmo da guerra começar, embora atualmente o fenômeno da guerra se manifeste cada vez mais sob a forma de guerra híbrida (não sendo uma exclusividade russa, também fazendo parte do arsenal ocidental), na qual ocorre a dissolução das fronteiras entre política, guerra e paz. Cabe aqui também retomar o clássico pensador oriental Sun Tzu, autor do livro A Arte da Guerra, quando ele diz que “toda a guerra é baseada na dissimulação”. Sempre que uma notícia sobre a crise da Ucrânia for lida, Sun Tzu deve ser lembrado e uma análise crítica precisa ser feita, para não se perder no labirinto do “reino da incerteza da guerra” conforme lembrado pelo consagrado pensador ocidental do fenômeno da guerra Carl von Clausewitz.


Bolsonaro decidiu viajar em plena crise para a Rússia, ainda que a participação de sua gestão no cenário internacional tem sido muito tímida e amplamente criticada, o Brasil chegou a ser chamado “Estado Paria” no cenário internacional. Quais são os motivos que podem levar o Brasil a visitar a Rússia, pais que já foi duramente criticado por Bolsonaro, e quais são os impactos que pode ter essa visita ao Brasil?


Resposta: Conforme noticiado na imprensa, inúmeros motivos podem ter levado Jair Bolsonaro a visitar Vladimir Putin, embora a viagem no contexto da crise atual em torno da Ucrânia houvesse sido desaconselhada. Não se pretende esgotar todas as variáveis a se levar em conta para explicar tal viagem, mas se tocará no ponto principal ao final dessa resposta. O primeiro aspecto que pode vir à mente para elucidar a visita são os BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), mas o encontro se tratou de uma visita para abordar as relações bilaterais Brasil-Rússia. Além disso, tal visita tem um aspecto simbólico da reunião de dois líderes conservadores. Aliás, Bolsonaro esteve fisicamente próximo de Putin, ao contrário do presidente francês Emmanuel Macron, que visitara a Rússia antes e manteve distanciamento, pois não fizera o teste de Covid (essa distância também foi entendida como um afastamento nas relações entre Paris e Moscou). Bolsonaro disse que não tocaria no assunto Ucrânia, mas acabou assumindo uma posição, ainda que implícita, quando disse que “Putin busca a paz” e que “somos solidários à Rússia” (a tradicional neutralidade diplomática brasileira não deve ter ficado muito contente com isso). Bolsonaro também elogiou Putin por “apoiar a soberania da Amazônia” (lembrando que existe uma preocupação no Brasil, ainda que construída, com uma suposta cobiça internacional da Amazônia, embora o atual governo não se empenhe muito ele mesmo em preservá-la). Uma das pautas anunciadas da visita foram as relações comerciais, com destaque aos fertilizantes russos, dos quais o Brasil depende, entretanto a ministra da agricultura Tereza Cristina acabou não indo. Cabe destacar a comitiva militar na viagem. Segundo análises do Prof. Piero Leirner (UFSCar) e do Coronel da Reserva do Exército Marcelo Pimentel Jorge de Souza, o governo Bolsonaro é resultado de um projeto de militares de alta patente do Exército, que funcionam como uma espécie de partido fardado ou partido militar ou um tipo de central de comando e controle. Eles operam a partir dos bastidores, pois dessa forma há menos custos e o desgaste é menor. Bolsonaro atua na linha de frente. Na viagem à Moscou, o ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) General Augusto Heleno e seu equivalente russo assinaram um acordo sobre informações classificadas. Noticiou-se também que Bolsonaro tratou de cibersegurança com Putin. Alguns acreditam que o mandatário brasileiro foi buscar apoio russo para influenciar as eleições de 2022 com notícias falsas e hackeamentos. Então essa visita tem a ver com política doméstica brasileira e atenção deve ser dada aos militares brasileiros pois a chave da visita está neles. Tal leitura dos acontecimentos costuma não aparecer muito na grande imprensa, mas esse recorte da realidade é revelador.


O Brasil por vezes tem sido considerado um líder pacifista dentro do cenário internacional, sem participação direta em grandes conflitos salvo com tarefas humanitárias. Em pleno ano eleitoral, qualquer ação internacional pode ser vista como um ato publicitários sem embargo convidamos a todos a refletir sobre o tema.


Neste momento nefasto devemos conhecer e entender a complexidade da situação, e elevar nossas orações a população civil.



Bernardo Wahl G. de Araújo Jorge atua como analista independente, palestrante, consultor autônomo e professor universitário na área de relações internacionais. É o professor responsável pela disciplina Segurança e Defesa da Pós-Graduação lato sensu Política e Relações Internacionais da Sociologia e Política - Escola de Humanidades (FESPSP). Também leciona no Bacharelado em Relações Internacionais do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU-SP). Detém Mestrado Acadêmico em Relações Internacionais (área de concentração em Estudos de Paz, Defesa e Segurança Internacional) pelo Programa San Tiago Dantas (formado pela UNESP, UNICAMP e PUC-SP) e Bacharelado em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP). Além disso, tem formação complementar em segurança e defesa realizada nos Estados Unidos (dois cursos no William J. Perry Center for Hemispheric Defense Studies – CHDS), na Suíça (um curso no Geneva Centre for Security Policy – GCSP) e no Brasil (um curso realizado na Escola Superior de Guerra – ESG e outro na Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra – ADESG). Possui diversos artigos e capítulos de livros publicados, trabalhos apresentados em congressos, palestras ministradas em variadas instituições e inúmeras entrevistas concedidas à imprensa.

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