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De Império a Império, há tempos

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama[i]

Há tempos tive um sonho

  Não me lembro, não me lembro

(Legião Urbana, “Há Tempos”)

Após a Grande Exibição de 1851, o Crystal Palace foi derrubado e reconstruído em outra parte de Londres. O prédio de ferro fundido e vidro projetado por Joseph Paxton e Owen Jones havia sido visitado por cerca de 1/5 da população do Reino Unido à época (que incluía a Irlanda) em menos de 1 ano, ajudado pela revolução dos transportes e da indústria que o palácio buscava corporificar[ii].

O surgimento e derrubada do Crystal Palace marcou o apogeu do longo reinado da Rainha Vitória.  Reconstruído de forma vazia, simbolizava o surgimento e o passamento de uma experiência. A maior parte dos objetos exibidos foram vendidos durante o período da exibição, ou foram devolvidos a seus donos. Sua efemeridade foi uma mais potentes metáforas da modernidade do nascente império britânico que se pretendia global, movido a ferro e vidro, onde o sol não se deitava jamais.

A inovadora obra (precursora das parcerias público-privadas) foi reapropriada por seus visitantes. O Crystal Palace se tornou uma atração em si mesma.

Algumas décadas antes, outro grande império, de extensão desconhecida, iniciava a construção do que hoje conhecemos como o Museu Nacional, na cidade do Rio de Janeiro, então uma capital imperial e sede de uma das mais antigas cortes da Europa. Rapidamente uma coleção única de artefatos passou a ter moradia permanente na atual Quinta da Boa Vista – pergaminhos da Torah, múmias egípcias, obras extraordinárias dos povos nativos do Brasil, o mobiliário imperial. Com acervo crescente, o museu sobreviveu ao fim da monarquia, a muitas ditaduras e crises econômicas. O Rio se tornou a capital federal e perdeu seu status, mas o Museu Nacional persistiu na sua singularidade.

Em 1936 – ano de uma crise econômica global – o Crystal Palace pegou fogo. Restaram maquetes, imagens, relatos, fotos, pinturas, reminiscências, referências arquitetônicas, literárias, musicais.

O passado não é um lugar inerte, sem vitalidade. Permanece vital, reapropriado pelos pósteros. Não se resume a uma nostalgia gloriosa.

Nas palavras de Barbara Misztal[iii], quem está invocando qual versão do passado – e para que?

O que há de ser preservado – por que, para que, por quem, para quem?

O que merece fazer parte do futuro de muitos, senão de todos?

Tais questões não findaram nas chamas: permanecem em aberto. Delas a democracia não se separa.

Diante da visão das ruínas do Museu Nacional, o Brasil contempla esses dilemas em 2018.

Em meio a acusações privadas e públicas, no fogo das eleições, o país do futuro se remove em cinzas.

Todas os tons do espectro político apontam a responsabilidade e o dedo para o outro lado, e temos a sensação palpável de que um bem coletivo[iv] foi arrebatado do seio da nação. As feridas são sentidas em escala municipal, estadual, federal – até mesmo mundial[v].

Será que a sociedade civil brasileira conseguiu se reapropriar de tudo aquilo que a Família Real e seus sucessores depositaram na Quinta da Boa Vista?

Em meio à vertigem das perdas, 200 anos parecem ter sido insuficientes.

Qual o Angelus Novus de Paul Klee[vi], não podemos fazer retroceder o relógio, reunir escombros, reerguer o que deixamos perecer. Reconstruções são parciais. São atos políticos: mudam os rumos.

Ao manter uma distância respeitosa da própria história, não sabemos o que dizer a respeito.

Subitamente, o Crystal Palace parece estar bem mais em pé do que nosso quase bicentenário palácio recém-acalentado pelas chamas em outro período de crise econômica num mundo globalizado.

Enquanto a comoção pública se resumir às dependências do museu, perdemos a chance de repensar a nação. Nossas escolhas se atrofiam, o futuro se embaça numa cortina de fumaça.

Lidar com a finitude, as contingências, fracassos e frustrações é uma tarefa inescapável da liberdade. A criatividade humana encontra sua luz nos desafios que pavimentam o nosso caminhar.

Agora, como sempre, recomeça a luta pelo futuro, para definir quem e porque terá dignidade para fazer parte do que restará desse museu. Quem vai ter o que dizer dependerá de nossas escolhas.

Nosso tempo precisa de um update.


Referências

Barbara Misztal (2003). Theories of Social Remembering. Berkshire, Open University Press.

David Carradine (2017). Victorious Century. New York, Viking.

Mancur Olson (1965). The Logic of Collective Action. Harvard, Harvard University Press.

Walter Benjamin (1940). “Theses on the Philosophy of History”. Disponível em: https://www.sfu.ca/~andrewf/CONCEPT2.html. Acesso em: 03 de Setembro de 2018.

colaborador

[i] Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Tocantins (UFT)

[ii] David Carradine (2017). Victorious Century. New York, Viking: p. 282

[iii] Barbara Misztal (2003). Theories of Social Remembering. Berkshire, Open University Press.

[iv] Mancur Olson (1965). The Logic of Collective Action. Harvard, Harvard University Press.

[v] http://www.lefigaro.fr/culture/2018/09/04/03004-20180904ARTFIG00096-solidarite-de-la-france-apres-l-incendie-du-musee-national-de-rio-de-janeiro.php

[vi] Walter Benjamin (1940). “Theses on the Philosophy of History”. Disponível em: https://www.sfu.ca/~andrewf/CONCEPT2.html. Acesso em: 03 de Setembro de 2018.

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