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Desglobalização: antítese dos preceitos unificadores entre as nações ou reorganização da Ordem Mundi

Antes de entrar no cerne da questão da Desglobalização, é premente que se tenha pelo menos uma pequena introdução do que é sua antítese, ou do que supostamente deveria ser, onde muitos foram aqueles que colocaram no pedestal da excelência o termo Globalização, por se tratar do fruto, antes de tudo, da incessante busca humana pelo progresso, e que foi levada adiante por navegadores, missionários, aventureiros, mercadores e soldados ao deixarem seus locais de origem para realizar suas ambições pessoais. Não apenas levaram produtos, ideias e tecnologia, mas reforçaram a noção do mundo como unidade, integrado e interdependente, não sendo apenas um mero termo com definições culturais e econômicas – sinônimo do capitalismo – e sim, o desejo intrínseco do ser humano pela busca de uma existência melhor (CHANDA, 2007).

Na década de 1970, o termo globalização começou a ganhar contornos usuais como chavão burocrático e depois empresarial, tendo sua aplicação aumentada visivelmente com a crescente integração econômica do mundo. Processos intrínsecos pela globalização tais como fabricação e venda de produtos, surgimento das operações bancárias eletrônicas e a reforma financeira mundial, aliadas a crescente liberalização dos mercados de capitais promovida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e a assinatura do NAFTA (Acordo Norte-Americano de Livre Comércio) se combinaram para levar a integração global a um patamar inédito.

A partir da década de 1990, as preocupações com as consequências negativas da expansão incontida determinada pelo mercado, sinônimo da globalização, começaram a tomar proporção enorme e se transformaram num ícone perverso depois da crise financeira asiática em 1997 e finalmente colapsaram furiosamente no encontro de cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC) realizado na cidade de Seattle em 1999.

A ironia de todo esse processo foi que os preceitos da Globalização se tornariam visíveis no mapa das discussões mundiais somente no momento do surgimento de movimentos antiglobalização, transformando seus processos em uma espécie de maldição.

“A globalização – alvo de paixões hostis e algumas vezes protestos violentos – tornou-se um fenômeno condenado a interminável controvérsia. Defensores citam suas virtudes e sua inevitabilidade. Adversários proclamam seus supostos vícios e falibilidade. Um ponto central de muitos dos protestos contra ela é uma trilogia de insatisfações com a ideia do capitalismo, o processo de globalização e o comportamento das corporações. E todas essas três insatisfações se tornaram interligadas na cabeça de muitos manifestantes. Os inimigos da globalização a consideram uma extensão mundial do capitalismo, com as empresas multinacionais como seus B-52 de longo alcance.” Jagdish N. Bhagwati, em Foreign Affairs, 2002.

Segundo Kissinger (2015), no mundo da geopolítica, a ordem estabelecida e proclamada como universal pelos países ocidentais se encontra num momento crítico. Os remédios para seus problemas são compreendidos globalmente, porém não existe consenso sobre sua aplicação; na realidade, conceitos como democracia, direitos humanos e direito internacional recebem interpretações tão divergentes que as partes numa suposta guerra regularmente os invocam uns contra os outros, como seus gritos de batalha. As normas do sistema foram promulgadas, mas se revelaram ineficazes na falta de instrumentos que forcem o cumprimento dessas regras. O compromisso em torno das noções de parceria e de comunidade foi substituído em algumas regiões, ou pelo menos acompanhado, por duro teste sobre os limites do respeito às normas.

E é no momento atual, onde as supostas normas de compromisso e parceria mundiais começam a apresentar falhas e tomar desígnios diferentes do seu escopo fundante, que surge uma terceira via de processos (des) globalizantes.

A desglobalização significa fazer o mercado doméstico novamente ser o centro de gravidade da vida econômica, não o mercado global. Isso não significa autarquia ou retração da economia internacional. Significa que produzir para o mercado doméstico, não para o mercado de exportação, mais uma vez se torna a linha de corte e força motriz da economia. Significa aumentar capital para a produção da economia local, por exemplo, por aumento de impostos, em vez de recorrer principalmente a empréstimos nos mercados internacionais de capital. Significa revitalizar a economia interna para que ela seja o sustentáculo da economia, criando poder de compra através da redistribuição de renda e riquezas (Bello, 2009).

Um dos principais fatores que causaram esse movimento pela desglobalização dos processos produtivos e comerciais seria a massiva “exportação de postos de trabalho”, onde Europa e EUA estão se tornando cada vez mais restritivos a esse processo tendo como inimigo comum, países da Ásia Oriental, principalmente a China que levaram a sério a estratégia de crescimento liderado pela exportação baseados em uma combinação de alta produtividade e baixíssimos custos, sendo responsáveis por décadas de abastecimento mundial e que serão grandemente afetados pelo processo de desglobalização.

Outro ponto importante nessa estruturação da desglobalização seria a volatilidade do mercado de câmbio e de produtos financeiros e a consequência prática é que o comércio internacional está sendo reduzido, principalmente agora com o evento da Covid-19, porque os investidores procuram valores de refúgio seguros. Isso acontece com o mercado de valores, mas também com as moedas. Desta forma, as exportações e importações são mais arriscadas porque trabalham com margens de insegurança. Em consequência, certos setores empresariais de caráter local podem estar interessados ​​em fortalecer as trocas nos mercados habituais como o nacional, União Europeia (UE), MERCOSUL ou optarem por métodos mais radicais como Rússia e China fizeram com a assinatura de acordos (2014) sobre pagamentos em moedas nacionais, onde o comércio direto entre os dois países utilizando rublos (moeda russa) entraram em vigor sem a participação de Bancos americanos, britânicos ou da União Europeia, reiterando a concreta rejeição à moeda norte-americana. Um desses acordos, assinado em junho de 2019 pelo Ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, e pelo governador do Banco Popular Chinês, Yi Gang, lançou a criação de um novo sistema de pagamentos que se tornará uma “porta de entrada para a fundação de análogos russos e chineses do SWIFT” (do inglês Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), um sistema interbancário internacional de transmissão de dados financeiros.

Segundo especialistas, a pressão popular também é objeto de estudo sobre consequências da desglobalização onde, uma das principais ocorrências da crise de 2008 nos países desenvolvidos foi o empobrecimento das classes médias, já que em muitos casos se optou pela desvalorização salarial para manter a competitividade. Trabalhadores das indústrias e outros setores exigem que os governos imponham medidas protecionistas para enfrentar os países emergentes. Um exemplo claro é o que aconteceu em várias localidades do mundo onde convulsões sociais demonstraram a insatisfação popular que se transformou em atos de violência e insurgência. Nações sem nenhum vínculo institucional, com realidades sociais radicalmente diferentes e governadas por partidos de ideologias políticas das mais variadas, nos últimos tempos foram palcos de um processo único que as aproximou de forma surpreendente: a ira de suas populações contra as autoridades. Em cada uma delas, o que ficou claro foi à insatisfação popular diante da descrença em relação aos compromissos dos líderes em servir aos cidadãos. Abusados em suas inteligências, sofrendo para pagar suas contas e fartos de uma elite que insiste em não reconhecer a disparidade de renda cada vez maior na sociedade esses locais foram tomados por um profundo desgosto em relação à autoridade e seus métodos de degradação político-econômica.

Analistas internacionais apontam como as forças de direita e de extrema direita, tanto na União Europeia, como nos EUA, se aproveitam da insatisfação e ressentimento das classes médias e trabalhadoras empobrecidas e desempregadas para crescer politicamente, acenando com um discurso nacionalista, racista e xenófobo, onde, a figura do presidente norte-americano, Donald Trump, que sempre apoiou as políticas do partido republicano em prol do grande capital, poderia se converter numa liderança no intuito de reestruturar a ordem capitalista norte-americana e internacional, direcionando-a a uma desglobalização e à geração de empregos nos EUA indo contra preceitos neoliberais e também contra a financeirização e a desregulamentação do capital.

Um dos exemplos, bastante claro e considerado um dos gatilhos da desglobalização, foi o processo que retirou a participação dos EUA na Parceria Transpacífico (Trans-Pacific Partnership, ou TPP na sigla em inglês). Assinado em 5 de outubro de 2015 por EUA e outros 11 países, sendo eles: Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura e Vietnã, o TPP seria o maior acordo de livre comércio da história com abrangência de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) global, 26% do comércio mundial, envolvendo um total de 800 milhões de consumidores.

Após sete anos de elaboração (2009-2015), as negociações foram concluídas com sucesso e tinham como objetivo além de remover barreiras ao comércio dos países envolvidos, a parceria estabeleceria normas comuns sobre questões que abordariam padrões e regras que se estendiam a áreas como a trabalhista, a ambiental, a propriedade intelectual e a de compras governamentais.

Em 4 de fevereiro de 2016, representantes de cada nação protocolaram o acordo e entrariam no processo de espera para que cada legislatura aprovasse a documentação antes de entrar em vigor. Nesse meio tempo, corria a conturbada campanha presidencial norte-americana entre Donald Trump (republicano) e Hilary Clinton (democrata). Trump deixaria claro, em suas promessas de campanha, o seu comportamento protecionista ao criticar ferozmente o Acordo, afirmando que iria trazer perdas enormes para as indústrias e para os trabalhadores dos EUA.

Antes que o Congresso norte-americano pudesse avaliar a documentação do TPP, em 23 de janeiro de 2017, Donald Trump, já eleito como novo presidente, assinaria uma ordem executiva retirando os EUA do Acordo. Com a saída dos EUA, na prática, inviabilizaria o Tratado, pois, para entrar em vigor, o texto precisaria ser ratificado por países que representassem 85% do PIB total dos signatários, o que, na ocasião, somente os EUA tinham 60% do montante.

Em 8 de março de 2018, os outros 11 países do TPP assinaram um acordo modificado sem os Estados Unidos e em 30 de dezembro do mesmo ano, entrou em vigor o Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Trans-Pacífico (Comprehensive and Progressive Agreement for Trans-Pacific Partnership, ou CPTPP na sigla em inglês). O bloco comercial representa 495 milhões de consumidores e 13,5% do PIB global.

Apesar desse exemplo, entre muitos outros ocorridos na última década, não se pode afirmar que o processo de desglobalização atuante deverá ser definitivo e perpétuo (Troyjo, 2017). Os países que optarem por esse caminho (EUA), vão perder capacidade exportadora e eficiência; vão dirimir os benefícios de contar com uma cadeia global de suprimentos. Tudo isso cobrará seu preço de uma maneira pesada abreviando o ciclo de desglobalização. Num futuro nada distante, os números corporativos começarão a cair, e assim, ficarão mais claros os custos do protecionismo, do conteúdo local, de uma política industrial sustentada na substituição de importações. Se houver, e essa hipótese é enormemente provável, uma retaliação por parte dos parceiros comerciais desses países também afetará negativamente a performance global das empresas locais.

Por outro olhar, Boaventura (2017) esclarece que apesar de processos protecionistas afetarem o status quo da globalização, estão longe de serem considerados como preceitos desglobalizantes, e sim, constituem manifestações, como sempre contraditórias, de uma nova fase de globalização mais dramática, mais excludente e mais perigosa para a convivência democrática, se é que não implicam o fim desta.

Edson José de Araujo, Mestrando no programa de Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais (PUC-SP), Especialista em Política e Relações Internacionais (FESPSP), MBA em Economia de Empresas (FEA-USP), Bacharel em Ciências Econômicas (CUFSA). Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC) e articulista no Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI).

Referencias Bibliográficas:

ARAUJO, Edson José. Política monetária russa poderá diminuir dolarização na economia do país. Disponível em: <https://ceiri.news/politica-monetaria-russa-podera-diminuir-dolarizacao-na-economia-do-pais/>. Acesso em: 13/07/20.

CHANDA, Nayan. Sem fronteira. Tradução de Alexandre Martins. Rio de Janeiro: Record, 2011.

KISSINGER, Henry. Ordem mundial. Tradução de Cláudio Figueiredo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

LORDON, Frédéric. A desglobalização e seus inimigos. Disponível em: <https://diplomatique.org.br/a-desglobalizacao-e-seus-inimigos/>. Acesso em: 08/07/20.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Boaventura: a ilusória “Desglobalização”. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/572689-boaventura-a-ilusoria-desglobalizacao>. Acesso em: 11/07/20.

TROYJO, Marcos. Breve história da Desglobalização. Disponível em: < https://www.institutomillenium.org.br/breve-historia-da-desglobalizacao/>. Acesso em: 10/07/20.

ZERO, Marcelo. O mito da “Desglobalização” de Trump. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/564577-o-mito-da-desglobalizacao-de-trump>. Acesso em: 11/07/20.

Entrevista: Desglobalização para uma nova economia mundial. Entrevista especial com Walden Bello. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/21157-desglobalizacao-para-uma-nova-economia-mundial-entrevista-especial-com-walden-bello>. Acesso em: 11/07/20.

Reportagem: O mundo vive uma “desglobalização”? Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/06/150605_desglobalizacao_economia_mundo_rb>. Acesso em: 12/07/20.

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