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Diplomacia Sanitária Cubana

“Sem dúvida alguma, Cuba faz parte do discurso político da comunidade internacional e do imaginário coletivo, servido como base de estudos e sustentação de uma visão bipolar que transcende ao mundo multipolar e ao estado de anomia atual, sendo por vezes tratada como pária e outras como alternativa ao sistema financeiro internacional, em um papel de protagonista anti-hegemônico e antisistema, mas que suscita grande interesse, paixões e controvérsias”

Desde 1960 vigora o embargo comercial, financeiro e econômico também conhecido como “bloqueio” da nação insular caribenha. Ainda que a primeira medida tomada nesse sentido seja anterior ao governo de Fidel Castro, quando o governo dos Estados Unidos proibiu a venda de armas para o regime do ditador Fulgêncio Batista no dia 14 de março de 1948. São as restrições impostas após esse período, que repercutem em produtos essenciais e bens de consumo que de fato geram discussões e diferentes posicionamentos na Comunidade Internacional.

Ao longo da história do embargo da economia cubana, houve mais de 23 condenações das Nações Unidas e tentativas de flexibilizar o mesmo, principalmente após a consolidação do mundo multipolar com a dispersão da hegemonia global.

Porém, Estados Unidos e Israel sempre mantiveram uma postura rígida em relação a uma possível abertura comercial da ilha, mantendo sempre um discurso que retratava o país como um pária internacional e um exemplo a ser evitado. Presidentes como Bill Clinton e George W. Bush (filho) aumentaram as pressões contra Cuba, ainda que houve momentos de flexibilização  tais como a autorização da venda de produtos humanitários no ano 2000, em contraposição a proibição e multa de mais de 700 milhões de dólares a empresas que operassem no pais, ambas assinadas por Bill Clinton.

Somente na gestão Obama (2014) houve uma reaproximação entre os Estados Unidos e Cuba, a qual aos poucos começou um processo de abertura comercial e mudanças internas, lideradas por Raúl Castro (Irmão de Fidel Castro) e que posteriormente seriam seguidas pelo presidente da ilha após a saída da família Castro da presidência (atualmente o presidente da Ilha é Miguel Diaz Canel. Porém a vitória de Donald Trump paralisou as relações e retomou o discurso isolacionista em relação a Cuba com grande eco nas nações latinas onde se produzia uma mudança de alinhamento político.

No cenário internacional Cuba representa um paradigma, com múltiplas dimensões a controvérsias.

O país, ainda que seja uma nação insular bloqueada economicamente desde os anos 60, mantém índices sociais consideráveis, quando comparados a outras nações inseridas dentro do mercado financeiro internacional. Assim mesmo em alguns rankings tais como os de educação, nutrição infantil, mortalidade, saúde e segurança, a ilha supera diversas nações latino-americanas.  Fazendo com que seja perceptível que mesmo dentro de suas deficiências econômicas e produtivas, o país utiliza de forma eficiente seus recursos.

Por outro lado, é inegável afirmar que não existe a privação de determinados produtos que estão ausentes no mercado interno, seja pela falta de produção ou pela incapacidade de aquisição deles no mercado internacional, assim mesmo as liberdades democráticas em comparação com as chamadas democracias liberais, apresentam uma forte assimetria.

Não obstante, Cuba coopera na área sanitária com diversas nações do planeta e suas missões médicas são reconhecidas dentro da comunidade internacional. Atuando como importante ferramenta diplomática da nação.

Atualmente Cuba possuí pouco mais de 11 milhões de habitantes, com mais de 95 mil médicos e 85.000 enfermeiros, o total de pessoal sanitário ascende a mais de 492.000 conforme dados do anuário 2019 do Ministério da Saúde cubano. O sistema de educação pública e universal contribui para o número de formados, assim como o sistema público universitário, sendo considerado pela Unesco como o melhor sistema de educação da América Latina.

Atualmente, conforme dados da Unidade Central de Cooperação Médica, o país possuí linhas de cooperação e colaboração com mais de 59 países, entre eles:

Angola, Arábia Saudita, Argélia, Bahrein, Burkina Faso, Cabo Verde, Catar, Chade, Congo, China, Dominica, Eritreia, Esuatini (Suazilândia), Etiópia, Gâmbia, Gana, Granada, Guatemala, Guiné Conacri, Guiné Equatorial, Guiana, Jamaica, Quênia, Kuwait, Mauritânia, Mongólia, Moçambique, Nicarágua, Níger, República Dominicana, África do Sul, Tanzânia, Timor Leste, Trinidad e Tobago, Turquia, Uruguai, Venezuela, Vietnã e Zimbábue.

Assim como mais de 15 missões médicas dedicadas ao combate do Covid19, algumas delas até mesmo na Europa, com presença em Itália e Principado de Andorra.

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Foto: Missões médicas cubanas frente ao Covid19 –  fonte DW.com

A primeira missão médica organizada pela ilha foi em 1963 em Argélia contabilizando mais de 164 países os que já receberam missões cubanas segundo dados da Organização Panamericana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde.

Mesmo diante de números impressionantes como estes, uma série de questionamentos surgem em relação a atuação de Cuba em missões internacionais ou na prestação de serviços sanitários para países como o Brasil, muitas delas derivam em relação ao regime contratual dos médicos participantes e outras são fruto do discurso político e ideológico, forjado ao longo dos anos em relação ao regime político da Ilha e seu papel no panorama internacional.

Para Cuba as missões médicas possuí um valor estratégico, tanto na consolidação de suas relações internacionais quanto nos ingressos do país, uma forma indireta de participar no sistema financeiro internacional que não sofre perante a interferência do bloqueio sometido a ilha.

Certo é que as condições laborais dos médicos cubanos, assim como a de tantos profissionais dos sistemas públicos de saúde latino-americanos podem ser questionáveis, a disparidade salarial entre servidores públicos e privados é algo gritante não somente na realidade da nação insular, mas presente em grandes economias da América Latina. Sem ir mais longe, no caso do Brasil a diferença entre um profissional que atua no sistema público para um que atua no sistema privado pode superar em até 5X seu salário. O que de fato não evidência somente a mais valia existente no mundo liberal, como também expõe as desigualdades e assimetrias… A ilusão de uma falsa meritocracia onde o mais capacitado é retribuído conforme seus méritos…  Um médico cubano não ganha menos por ser cubano, mas sim por atuar no setor público…  uma vez que supostamente seu salário, assim como ocorre em nações autoproclamadas liberais, são indexados conforme o gasto público e o custo de vida.

De forma leviana podemos pensar que a solução está em liberar o mercado laboral médico, tanto o cubano quanto o do resto do mundo, porém essa medida que aparentemente levaria uma equidade salarial, levaria a uma disparidade social, já que não todas as sociedades possuí poder de compra necessário como para requisitar serviços privados… de modo que talvez o que falte, seja o reconhecimento real do valor do médico, que atua no serviço público, assim como a necessidade de reconhecer o papel que cumpre o profissional médico cubano para seu país e para o mundo.

A Cuba como ente dentro do cenário internacional atua na periferia do poder constituído e de um sistema financeiro internacional do qual foi excluída. Porém essa exclusão, por muitos pautada pelo regime político da ilha, nada mais é que um grande paradoxo do próprio sistema, uma vez que países muito mais autoritários e menos flexíveis como a Arábia Saudita, atuam de forma plena. Sendo talvez seu papel anti-hegemônico o que de fato pesa em sua inserção no contexto global.

Wesley S.T Guerra.

Bibliografia:

Anuario Estadístico de Cuba Edición 2019 Enero-Diciembre 2018 – http://www.onei.gob.cu/node/14211

“Misiones médicas” cubanas: ¿cuántas, dónde y por qué? – Deutsche Well

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