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Entre a Globalização e a Autarquia: a França de Jacques Chirac

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama[i]

Em 26 de Setembro de 2019 falecia Jacques Chirac, aos 86 anos. Presidente da França por 12 anos (1995-2007), primeiro-ministro (1974-76, 1986-88), prefeito de Paris, Chirac foi um dos últimos líderes mundiais do período da Guerra Fria. Semanas depois, em 8 de Outubro, agricultores fechavam as principais rodovias da França em protesto, contra suas condições de trabalho e acordos de livre comércio criados no governo Emmanuel Macron[ii]. Em 13 de Outubro, Christian Jacob foi eleito o novo líder de Les Républicains (LR), o partido que sucedeu as denominações de Chirac[iii].

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Foto: Jacques Chirac, palácio do Eliseu.

No intervalo de três semanas, tais eventos se entrecruzaram, fornecendo um amplo painel das contradições da França contemporânea – 6ª maior economia do planeta, liderança incontornável da União Europeia, dividida entre impulsos autárquicos e ações de integração.

Chirac entrou no Elysée como ministro de Georges Pompidou em 1962. Ao deixar a presidência da França 45 anos depois, o eleitorado acabara de rejeitar em referendo uma proposta de constituição europeia. Nessas cinco décadas o império colonial francês se eclipsou e foi mais do que compensado pelo sucesso da integração regional.

A França – não obstante se tornar um símbolo da globalização – fazia questão de manter uma autonomia inesperada. Por vezes, inquietante para seus parceiros. Simultaneamente, a França manteve relações privilegiadas com as ex-colônias através da zona do franco CFA e se negou a integrar suas capacidades nucleares sobre o guarda-chuva institucional da OTAN. O nacionalismo se estendeu via investimentos estratégicos em tecnologias aeroespaciais e de comunicações. A França foi o primeiro país a construir uma rede pública de computadores pessoais (o Minitel). Guerras coloniais entre as décadas de 1940 e 60 foram entremeadas por episódios de busca de proeminência fora de molduras institucionais – caso da fracassada invasão do Canal de Suez (1956). Apesar de ter a Grã-Bretanha a seu lado contra Gamal Abdel Nasser, na presidência do General Charles De Gaulle a França vetaria seguidamente o acesso da monarquia britânica à Comunidade Econômica Europeia.

Nessa época, a economia francesa articulou nacionalismo e internacionalismo de forma singular. A manutenção de relações favoráveis com as ex-colônias deu sobrevida ao fornecimento de bens primários e mão-de-obra barata. Beneficiária de relações assimétricas após a imigração massiva das ex-colônias, a seguir o país também colheu os frutos da gradual liberdade de movimentação no espaço europeu ocidental (iniciada nos países do Benelux em 1960). A expansão do processo de integração europeia assegurou o fornecimento de mão-de-obra através do influxo de trabalhadores comunitários[iv], que se tornaram responsáveis pelas tarefas menos nobres em uma economia cada vez mais sofisticada. Após o Tratado de Nice, a maioria deles foi oriunda do Leste Europeu. Nesse período formativo da carreira política de Chirac, a França manteve altas taxas de crescimento na recuperação pós-guerra(s) pelas vias da integração regional e também da autarquia.

Entre a crise do petróleo na década de 1970 e o primeiro ano da União Europeia, a França viveu a desaceleração do impressionante desempenho na reconstrução pós-guerra (1946-1974) – momento que Chirac viveu como primeiro-ministro em meados da década de 1970 e nos apagar das luzes da Guerra Fria. Nesse período, o produto interno bruto cresceu à média anual de 2.75%, marcado por dois anos de recessão no seu início (1975) e término (1993).

Já na presidência de Chirac, a França viveu anos de crescimento ininterrupto – antes da crise global de 2008. O PIB cresceu na média anual de 2.89[v]%. Ao mesmo tempo, a intensificação da integração europeia e a consolidação do Espaço Schengen reforçaram o crescimento populacional de uma França em acelerado envelhecimento, via migração. Na era Chirac, o ritmo de crescimento populacional foi 50% superior na média anual ao período anterior. Maior crescimento combinado com a diminuição do aumento da renda per capita indicava uma transição demográfica em curso e limites do modelo bem-sucedido no pós-guerra – dimensões que a crise de 2008 fez mais evidentes.

Em seus dois mandatos, a França manteve indicadores econômicos superiores à média europeia. Figura central da tentativa europeia de protagonismo na resposta à invasão iugoslava do Kosovo (1999), Chirac se mostraria um notável opositor da invasão norte-americana do Iraque (2003), via multilateralismo. No plano doméstico, seus mandatos marcariam a continuidade do ideário gaullista em oposição ao socialismo. No marco comunitário, nos seus 12 anos a Europa adotaria uma moeda comum e empreenderia a mais vigorosa expansão da membrezia, após o Tratado de Nice (2003-04).

Chirac foi o símbolo de um nacionalismo reformulado que cresceu no seio da globalização relutante. Tanto como presidente quanto como um dinâmico prefeito de Paris, sua moderação era temperada por desconfiança com relação a grandes ventos de transformação. Não foi entusiasta do Maio de 1968 no crepúsculo da era de Gaulle, tampouco mostrou excessivo entusiasmo pela queda do Muro de Berlim. Seu pragmatismo se calcava na expertise do longo prazo. Ao mesmo tempo, se destacou em meio ao oceano tecnocrático de sua geração pela firme adesão aos valores ocidentais. A coexistência incômoda com Lionel Jospin não impediu o avanço da integração da Europa. A reeleição avassaladora sobre Jean-Marie Le Pen foi obtida ao longo de todo o espectro político do hexágono.

Primeiro presidente francês eleito após o fim da Guerra Fria e a unificação da Europa, Jacques Chirac se beneficiou do zeitgeist singular do fim do século XX. Ao mesmo tempo que mantinha viva a “ideia de França” consagrada pelo general De Gaulle[vi], foi um beneficiário da euforia euro-globalizante que se seguiu à queda do Muro de Berlim. No início do seu governo, a União Europeia abriu negociações de tratado de livre comércio com o MERCOSUL – travado pelas concessões feitas pelos republicanos franceses aos agricultores, tradicional reduto eleitoral. A manutenção de benesses aos agricultores implicou o fechamento do mercado agrícola da UE a competidores das Américas e Oceania e trouxe um problema perene para a recém-criada Organização Mundial do Comércio[vii]. O tratado seria fechado apenas um quarto de século depois, num sistema internacional já bastante modificado[viii].

Último mandatário de um boom econômico coroado pela integração regional, o eclipse da era Chirac motivou a revista Paris-Match a denominá-lo, em tom de elegia nostálgica, como “o bem-amado”[ix]. Por mais de uma década, a França se equilibrou entre o local e o global – situação evidenciada pela rejeição da Constituição europeia no referendo de 2005, que daria maiores poderes aos órgãos comunitários e consolidaria os direitos dos cidadãos europeus. Pouco antes, os banlieus de Paris arderam, na revolta das populações de origem estrangeira contra a desigualdade e discriminação crescentes no berço da “Liberté, Egalité et Fraternité”. A França de Chirac viveu com intensidade as contradições da inclusão política calcada na cidadania do Estado consagrado pela Revolução Francesa versus uma sociedade civil convergindo para o modelo de uma sociedade de mercado[x]. O dirigismo do capitalismo francês buscou regular a criação de novos mercados (como o de ativos ambientais) com a preservação de um amplo repertório de direitos sociais para os recém-chegados.

As contradições da França de seu tempo viriam à tona após o término de seu mandato no Elysée – além da crise de 2008, nessa categoria se incluem as acusações de corrupção contra Chirac em 2011. A forte recessão da década de 2010 coincidiu com a desilusão com as administrações republicanas (no governo Nicolas Sarkozy). Acusações de corrupção cimentaram o retorno dos socialistas com François Hollande, antes do experimento da “nova política” no governo Macron[xi]. A derrocada histórica de François Fillon na eleição presidencial de 2017[xii] motivou a mudança na liderança dos republicanos, marginalizando figuras históricas como o ex-primeiro ministro de Chirac Alain Juppé.

A dialética da autarquia e integração na França durante as cinco décadas da vida política de Jacques Chirac elucida sutilezas do processo de globalização em curso no século XXI. Diante das incertezas de um sistema em transformação, os estados soberanos tem se mostrado notavelmente resilientes. Em contraste com profecias otimistas da globalização, feitas na época da queda do Muro de Berlim – que apontavam para um futuro sem fronteiras – as relações sociais na Modernidade comportam movimentos simultâneos de desterritorialização e territorialização[xiii], que merecem nossa atenção.

[i] Professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do Tocantins. Professor Visitante na Al Akhawayn University in Ifrane (Marrocos).

[ii] Agence France Presse (2019). Agriculteurs en colère : des routes bloquées dans plusieurs départements. Le Parisien, 08/10/2019. Disponível em: http://www.leparisien.fr/economie/agriculteurs-en-colere-des-routes-bloquees-dans-plusieurs-departements-08-10-2019-8168592.php. Acesso em: 8 de Outubro de 2019.

[iii] Carriat, J. (2019). Christian Jacob élu président des Républicains dès le premier tour. Le Monde, 14/10/2019. Disponível em: https://www.lemonde.fr/politique/article/2019/10/13/christian-jacob-elu-president-des-republicains-des-le-premier-tour_6015358_823448.html. Acesso em: 14 de Outubro de 2019.

[iv] Gama, C. F. P. S. (2017). “A Eleição Presidencial na França e a União Europeia em crise”. NEMRI. Disponível em: https://ceresri.wordpress.com/2017/04/27/a-eleicao-presidencial-na-franca-e-a-uniao-europeia-em-crise/. Acesso em: 27 de Abril de 2017.

[v] Country Economy. France GDP. Disponível em:  https://countryeconomy.com/gdp/france. Acesso em: 10 de Outubro de 2019.

[vi] Hobsbawm, E. (1995). Age of Extremes: the short Twentieth Century 1914-1991. London: Abacus.

[vii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2017). Economia Global e Integração Regional no mundo de Donald Trump. SRZD. Disponível em: http://www.srzd.com/geral/economia-global-regional-donald-trump/. Acesso em: 25 de Janeiro de 2017.

[viii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva Gama (2019). O Brasil do século 21 – A aliança preferencial com os EUA e o acordo de livre comércio com a UE. SRZD. Disponível em: https://www.srzd.com/brasil/brasil-do-seculo-21-alianca-preferencial-eua-acordo-livre-comercio-ue/. Acesso em: 02 de Agosto de 2019.

[ix] PARIS MATCH. Jacques Chirac, le bien-aimé : le numéro hommage. Disponível em: https://www.parismatch.com/Actu/Politique/Jacques-Chirac-le-bien-aime-le-numero-hommage-1649392. Acesso em: 26 de Setembro de 2019.

[x] Rosanvallon, P. (1989) Le Libéralisme économique : Histoire de l’idée de marché. Paris: Poche

[xi] Gama, C. F. P. S. (2017). A Eleição Presidencial na França e a União Europeia em crise. NEMRI. Disponível em: https://ceresri.wordpress.com/2017/04/27/a-eleicao-presidencial-na-franca-e-a-uniao-europeia-em-crise/. Acesso em: 27 de Abril de 2017

[xii] Ibid.

[xiii] Santos, M. (1996). A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec.


colaborador

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