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Entrevista com Alana Monteiro Leal Rêgo*, sobre a invasão Russa na Ucrânia.


Com a invasão da Rússia na Ucrânia passando os cinco meses, e sem um norte para o seu fim, é fundamental ouvirmos especialistas na área para compreendermos melhor, não somente o presente, mas as motivações e estratégias do conflito por parte do governo de Moscou. Dessa forma convidei Alana Monteiro que é mestranda em Relações Internacionais pela UEPB na linha de pesquisa de Política Externa e Segurança Internacional, com pesquisa política na área de Defesa e Política Externa da Federação Russa, para essa entrevista.


É fundamental entendermos que todo e qualquer conflito, deve ser, na opinião desse que vos escreve, criticado e abominado. No entanto as Relações Internacionais não funcionam de maneira estanque, ou em um sentido bipolar de 8 ou 80. Há inúmeras camadas, que vão desde questões puramente de estratégia militar, até questões culturais e de identidade.



Bernardo: No início do conflito muitos diziam ser apenas uma prevenção da parte russa contra uma possível entrada na OTAN pela Ucrânia porém existem questões mais complexas e de identidade na principais áreas de influência russa na Ucrânia.

Como você pode nos explicar e até onde vão esse reconhecimentos?


Alana: Sempre foi discurso do presidente Vladmir Putin reintegrar a Rússia como nos tempos do Império, isso faria dele o novo Czar. Essa narrativa é amplamente defendida pelo lado conservador, os mais antigos dentre o eixo social, que é maioria. Não há como definir "até onde irá", mas sabe-se que há um peso significativo na questão do pertencimento, na qual os mais interessados estão dispostos a defender tal narrativa. Vemos que há um desequilíbrio apenas na questão prática: até onde a Guerra, que é custosa, trará ganhos aos interessados? Essa é a questão.


B: Ao desenrolar dos primeiros meses Putin dava sinais, ora de que ia até Kiev, ora que sua intenção era na região do Donbass. Na sua análise houve alguma mudança nos objetivos? E por quê?


A: Sim, sem dúvidas. Aposto muito que ao ver que a retaliação internacional foi de pouco impacto, ele ficou confortável em seguir o plano antigo e mais ambicioso.


B: Recentemente Putin convocou um referendo em áreas controladas pela Rússia. A aprovação, como foi apurada, tem ligações somente com as questões de identidade, ou as alegações de violações contra um povo russo por parte de braços neonazistas?


A: Um pouco dos dois, de fato. Pouco se fala da segunda, mas na realidade dos que lá habitam, é muito presente.


B:Agora cerca de 15% do território ucraniano é russo, desde a região do Donbass até a saída para o mar negro. Sobre isso duas questões:

1 - essa soberania territorial deverá ser reconhecida e respeitada internacionalmente? E a resistência ucraniana, será tratada como ato de agressão ou resistência?


A: Muito dificilmente será reconhecida, pela forma como a Guerra é vista hoje internacionalmente, sobretudo pelo Ocidente. Será sinal de resistência, pela agressividade como tudo aconteceu e principalmente como vimos nas redes sociais, registros, fotos, relatos, etc.


B: 2 - quais benefícios geopolíticos e geoeconômicos a Rússia terá com esses novos territórios e uma saída para o Mar Negro?


A: Menos do que a Rússia deseja, mais que imaginamos. O acesso geopolítico, sem dúvidas, conduz à novas saídas e por consequência, maiores benefícios em termos de Poder, na região. O Mar Negro é tido como uma das principais áreas de confrontação entre os interesses políticos, econômicos e militares da Rússia. A economia russa vê como uma nova porta em questão de abertura de caminhos e transportes, por corresponder a um dos mais estrategicamente importantes cruzamentos geográficos do planeta. Tal importância estratégica justificava a disputa entre grandes potências pelo controle da região, buscando se beneficiar da facilidade de projeção de forças na Europa, Ásia e Oriente Médio, que hoje está nas mãos de Putin.


B: Por fim, o fornecimento principalmente de gás para a Europa, que já estava escasso, agora com as explosões em duas áreas de gasodutos, pode ficar comprometido. As consequências para a Europa devem motivar uma ação militar contra a Rússia, mesmo sob ameaças nucleares?


A: Não vejo motivações militares contra a Rússia, tudo que pode haver por hoje, é na parte de negociações, pela ameaça nuclear ser delicada e de impacto muito maior aos olhos do Ocidente.



*Alana Monteiro é mestranda em Relações Internacionais pela UEPB na linha de pesquisa de Política Externa e Segurança Internacional, com pesquisa política na área de Defesa e Política Externa da Federação Russa. É internacionalista e consultora em comércio exterior, onde atua.





Bernardo Monteiro é graduado em Relações Internacionais pela UNESA e também pós graduado (MBA) em Relações Internacionais pela FGV-RJ; autor de Para uma Estabilidade Democrática, possui formação como analista político internacional; atua como escritor, analista político, pesquisador e divulgador científico sobre: política brasileira, história da democracia, democracias ocidentais e sociopolítica;

foi pesquisador associado do Laboratório de Simulações e Cenários da Escola de Guerra Naval da Marinha do Brasil (LSC-EGN/MB); foi professor convidado para a disciplina Análise de Política Internacional para a graduação em Defesa e Gestão Estratégica Internacional da UFRJ; foi professor de Análise de Política Externa para o I Congresso de Relações Internacionais (I CONRI); foi palestrante e professor sobre política brasileira, análise política, geopolítica, democracias e cenários prospectivos.


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