• CERES

Etiópia: Desafios e dúvidas sobre o boom econômico

Enquanto os vizinhos Sudão do Sul, Eritreia e Somália vivem em completo caos e desgoverno, a Etiópia voa em busca de entrar para o grupo dos países em desenvolvimento. Com taxas de crescimento chinesas, o país vive um boom econômico que nem os próprios etíopes conseguem acreditar. Depois de quase trinta anos de miséria absoluta, o que se vê nas ruas da capital Adis Abeba é uma corrida para construir avenidas, prédios, hotéis e túneis de metrô. Para o Banco Mundial, a Etiópia é um dos treze países que mais vão crescer até 2017.

A meta do governo é agressiva. O principal objetivo é transformar a Etiópia em um país de renda média até 2035. Porém, a pobreza é um obstáculo importante sobre as possibilidades de expansão econômica. A renda per capita ainda é de um dólar ou menos por dia – US$ 500/ano. Por enquanto, a assistência de organizações não governamentais dos países desenvolvidos ainda é necessária para que os mais pobres não morram de fome.

O país se localiza na África Subsaariana ou no que também é conhecido como Chifre da África –  região nordeste do continente. A população de 76 milhões de pessoas é majoritariamente rural. Apenas 17% dos nacionais vivem em áreas urbanas (CIA, 2014). Contudo, isso não impediu que o país crescesse 8,2% no ano de 2014.

A Etiópia reúne características que a tornam única. Nunca foi colonizada e é o país mais antigo a ser independente na África. O Império Etíope, conhecido como Abissínia, ocupou o país por 225 gerações, entre 1270 a 1974. A dinastia tem origens históricas até o Rei Salomão e a Rainha de Sabá, figuras relevantes no processo de formação da cultura islâmica clássica. Por esses motivos, conseguiu resistir à Partilha da África, no século XIX.

A religião é um importante fator de coesão social, sendo os cristãos ortodoxos etíopes a maioria da população. A Igreja Católica da Etiópia é um pouco diferente da Romana, mas ambas seguem em comunhão.

O país também é conhecido por ser o primeiro a consumir o café. O produto é até hoje a principal commoditie para exportação, embora o governo busque a diversificação da pauta. A Etiópia é sobretudo um país de cultura agrícola, contudo as práticas na agricultura são pobres e as secas constantes impedem o desenvolvimento do agronegócio.

Além de café, o país exporta ouro, produtos de couro, flores e animais. Os maiores compradores são a China, Arábia Saudita, Alemanha, Estados Unidos e Bélgica. Por causa da deficiência na indústria, o país importa comida, produtos derivados do petróleo, químicos, maquinários, veículos e produtos têxteis.

De olho nessa balança comercial, o governo do país lançou o Plano de Crescimento e Transformação (Growth and Transformation Plan) que traz metas importantes a serem cumpridas entre 2011 e 2015. O objetivo do governo é fortalecer a agricultura e ao mesmo tempo combater a fome, grande gargalo do país. (Governo da Etiópia, 2015)

O plano é composto por cinco importantes pilares: 1 – aumentar a produtividade e a produção dos pequenos agricultores; 2 – Fortalecer os sistemas de marketing; 3 – Aumentar a participação e o engajamento do setor privado; 4 – Expandir a quantidade de terra sob irrigação; 5 – Reduzir o número de agregados familiares com insegurança alimentar crônica;

Apesar dos esforços para diversificar a economia, principalmente na indústria, as exportações se concentram em produtos de baixo valor agregado. Mesmo com o boom econômico, bancos, seguradoras, setor de telecomunicações e as pequenas fábricas ainda são financiadas por investidores domésticos. Contudo, o país tem atraído significativas quantias de investimento externo direto dos Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Índia, China e Alemanha no setor têxtil, couro, agricultura comercial, manufatura e hotelaria (MRE, 2015).

Atualmente, a Etiópia não faz parte da Organização Mundial do Comércio (OMC). O processo de adesão do país começou em 2003 e continua em processo de análise. Caso consiga se tornar um país membro poderá ampliar o fluxo de comércio exterior até mesmo com o Brasil. Hoje, os dois países são parceiros tímidos. De 2008 a 2012, o intercâmbio comercial entre o Brasil e a Etiópia cresceu 68,1%, de US$ 32,9 milhões para US$ 55,4 milhões.

Os principais produtos das exportações brasileiras para a Etiópia, em 2012, foram máquinas escavadoras e niveladoras. Mas de olho no crescimento etíope, o país tem planos para exportar trigo, cana-de-açúcar, além de produtos derivados de petróleo, máquinas de terraplanagem e tratores, que certamente vão atender ao projeto de industrialização do país (MRE, 2015).

Já o Brasil como nação em desenvolvimento e com a planta industrial mais completa, importa somente produtos de baixo valor. Entre os itens da pauta de importação brasileira da Etiópia estão couros, sementes e óleos.

O governo da Etiópia tem grande atuação na economia e financia as obras de infraestrutura e melhoria nas empresas estatais através de empréstimos com os Estados Unidos e a Inglaterra. Sem dúvida um dos casos de sucesso do país é a companhia estatal Ethiopian Airlines, que certamente colocou o país na rota de muitos passageiros que viajam para o Oriente Médio e Ásia.

A empresa aérea possui uma das frotas mais modernas do mundo e chegou ao Brasil, em junho de 2013, reduzindo o tempo de voo entre o Brasil e a África para dez horas, o que antes chegava a 24 horas via Europa ou África do Sul. Com uma base em Lomé, a capital do Togo, a Ethiopian cobre mais 17 países entre eles Nigéria, Mali, Gana e Senegal. O governo já avisou que a privatização da empresa não está nos planos.

Um das maiores incógnitas no atual histórico de crescimento  da Etiópia é como o país vai conseguir manter os índices econômicos e garantir o desenvolvimento. A educação, assim como a fome, é um dos gargalos que o governo tenta vencer. O país possui um histórico de 1.700 anos de tradição em educação diretamente ligada a Igreja Ortodoxa. A grade escolar secular só teve início em 1950 com a fundação da Universidade de Adis Abeba (Saint, 2004).

Desde então, a educação universitária caminhou a passos lentos e ficou ainda mais prejudicada quando um golpe militar derrubou o último imperador Haile Selassie do poder, em 1974. O último regente real da Etiópia é conhecido também como Rás Tafari. Até hoje ele é considerado um símbolo religioso de um Deus encarnado entre os 15 milhões de seguidores do movimento Rastafari, muito popular na Jamaica e disseminado com a ajuda do popular cantor de reggae Bob Marley.

Após o golpe, durante 21 anos a Etiópia mergulhou em uma dura ditadura que junto com as constantes secas e a fome deixaram o país numa situação de completa catástrofe. Neste cenário, a educação superior era praticamente inexistente e sem autonomia.

Com a  democratização da política em 1995, o governo finalmente trabalhou em uma reforma na educação para realinhar o sistema de ensino superior com a estratégia nacional de crescimento e redução de pobreza. Assim, foi desenhada uma agressiva expansão nos níveis educacionais que pudesse atender as necessidades produtivas.

Até o ano 2000, a Etiópia só contava com duas universidades. Este número pulou para oito em menos de cinco anos, além de nove colégios técnicos, cinco escolas de treinamento para professores e 37 instituições de ensino superior privadas (Saint, 2004).

O total de matrículas em universidades públicas e privadas, subiu de 43.843 entre 1997 e 1998 para 147.954 em 2002 e 2003,  mais que triplicando em apenas cinco anos (Governo da Etiópia, 2003). A maioria dos alunos estudam negócios, comércio, ciências sociais e em menor grau engenharia.

A concretização da reforma no ensino superior ficou conhecida como Higher Education Proclamation e foi aprovada pelo Parlamento em junho de 2003.  O governo também dobrou o seu esforço financeiro em prol da educação. Em 1995, 2,5% do PIB era gasto com educação em 2002 já era 4,3% (Ministério de Finanças e Desenvolvimento Econômico da Etiópia, 2002).

Como parte principal dessa pujança, o governo fornece todo o financiamento para o setor de educação – o que inclui manter os alunos matriculados, fornecimento de alimentação, dormitórios e cuidados com a saúde, além de em alguns casos dar bolsas. Porém, um longo caminho ainda precisa ser percorrido, pois somente 24% da população adulta completou a educação primária.

Ainda não é possível saber quais serão os efeitos desses últimos anos de crescimento econômico na sociedade Etíope. O país engatinha em vários aspectos, principalmente no âmbito da educação, mas é certo que os primeiros passos já foram dados. Ainda não está claro até quando o governo será capaz de continuar atuante em um nível tão alto da economia ou como vai continuar construindo, equipando, e mantendo os laboratórios e dormitórios das universidades. Hoje, o financiamento estatal é fundamental para expandir o sistema educacional, que vai garantir melhores as oportunidades de emprego nas novas empresas.

Enquanto o PIB cresce, a renda per capita continua estagnada e como uma das mais baixas do mundo.  Pelo menos 39% da população ainda vive abaixo da linha da pobreza e a taxa de fertilidade é de 5.1 crianças por mulher (MRE, 2015). Números que mostram a urgência do governo em pensar em que tipo de desenvolvimento se quer ter e a que custo quer se tornar um país de renda média.

O Brasil ainda engatinha nas relações com o país e ainda pode estreitar as relações bilaterais assim como fez com outros países africanos. Até agora, as negociações tímidas resultaram em poucos tratados e acordos. Um deles é de cooperação na agricultura assinado em 2013. Mais recente, o Brasil negocia um acordo de cooperação na área de educação, o que sem dúvidas será bem recebido pelos etíopes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Departamento de Promoção Comercial e Investimentos do Ministério das Relações Exteriores. Guia de Negócios Etiópia.

Disponível em: http://www.brasilexport.gov.br/sites/default/files/publicacoes/comoExportar/GNEtiopia.pdf

Estados Unidos da América – Central Intelligence Agency (CIA). (Agência Central de Inteligência). The World Factbook 2014. Informações e estatísticas sobre Etiópia. Disponível em: https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/et.html  Acesso em: 20 jul. 2015.

Saint, William (2004). Higher Education in Ethiopia: The Vision and Its Challenges;  Boston College & Council for the Development of Social Science Research in Africa, 2004.

Governo da Etiópia – Agência de Transformação Agrícola.

Disponível em: http://www.ata.gov.et/priorities/national-growth-transformation-plan/

Governo da Etiópia – Ministério da Educação: Education Statistics Annual Abstract 2002/03, Addis Ababa: Education Management Information Systems, Ministry of Education

Banco Mundial – Ethiopia: Social Sector Report, Washington, DC; 1998;

Ministério das Finanças e Desenvolvimento Económico, Ministry of Finance and Economic Development, 2002, Ethiopia: Sustainable Development and Poverty Reduction Programme. Addis Ababa: Federal Democratic Republic of Ethiopia.

Ministério das Relações Exteriores. Divisão de Atos Internacionais. Acordo de cooperação educacional entre o governo da República Federativa do Brasil e o governo da República Democrática Federal da Etiópia. Assinado em 2013.

Disponível em: http://dai-mre.serpro.gov.br/

Foto: Ryan Kilpatrick

#sulglobal #paísesemergentes #investimentosÁfrica #relaçõesinternacionaisÁfrica #núcleodeestudosmultidisciplinardeRelaçõesInternacionais #economiaafricana #BancoMundialÁfrica #desenvolvimentoÁfrica #NEMRI #Etiópia #As13economiasquemaisvãocrescer #economia #FESPSP #DesenvolvimentoEconômico #relaçõesÁfricaeBrasil #CrescimentoEconômico #RelaçõesInternacionais #DerlaCardoso #sulsul #NEMRIFESPSP

0 visualização0 comentário