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Galiza, o galego e sua relação com a lusofonia.

No dia 17 de maio a região da Galiza (norte da Espanha) celebra o dia das Letras Galegas. A data foi instituída em 1963 pela Real Academia das Letras Galegas em comemoração ao centenário da publicação “Cantares Galegos” da escritora Rosália de Castro que marca o Ressurgimento do idioma galego moderno.

Embora a data seja desconhecida pelo grande público brasileiro assim como por diversos integrantes da academia nacional, o fato é que se trata de um marco importante não somente para Galiza como para Portugal, Brasil e demais países integrantes da lusofonia.

Para entender essa relação é necessário fazer um breve repasso histórico.

Após a queda do Império Romano e a invasão bárbara na península Ibérica, o território se dividiu em diversos estados feudais que com a invasão do império árabe em 711D.C foram pressionados ao terço norte da atual Espanha. Posteriormente estes reinos promoveram a chamada reconquista do território Ibérico.

O reino de Galiza foi um desses primeiros territórios, e nele se desenvolveu uma língua românica denominada Galaico  (Cabe lembrar que nesse momento não existiam os estados de Portugal e Espanha, mas sim um conjunto de reinos cristãos que lutavam na recuperação do território dominado pelos árabes) posteriormente o Galaico seria denominado Galaico-Português.

Dessa matriz linguística se desenvolveu o português luso (com a separação de Portugal em 1139 D.C) assim como suas variações a partir do século XVI nas diferentes colônias, tais como o Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor, etc. Por outro lado o galego permaneceu como língua regional fortemente pressionado pelo castelhanocentrismo do Reino da Espanha, e foi perseguido duramente durante os períodos de ditadura.

Atualmente o português e o galego moderno, embora sejam línguas irmãs são considerados idiomas diferentes desde uma perspectiva geopolítica, não havendo consenso na comunidade de filologia de ambas as regiões. Existem diversos movimentos culturais que buscam uma aproximação de Galiza com a lusofonia, uma vez que suas diferenças são mínimas e principalmente dialetais, sendo possível a compreensão mutua tanto escrita como falada em ambos os idiomas podendo ser considerada a mesma língua que evoluiu de forma paralela mediante fatores intrínsecos de seu posicionamento geográfico e político, assim como o castelhano falado na Espanha e o castelhano falado na Argentina e toda a região do Rio de la Plata e outros países. Porém fatores identitários e ideológicos dificultam essa aproximação.

A região de Galiza aprovou em 2014 a chamada Lei Paz Andrade que visa uma maior integração da região com a Lusofonia, espaço formado por 8 países com mais de 250 milhões de pessoas.

Embora a região esteja presente no Brasil mediante investimentos de grupos tais como a famosa marca de roupas ZARA da empresa Inditex ou a cervejaria Estrella de Galicia, muitos brasileiros desconhecem que o verdadeiro berço do seu idioma não foi Portugal, mas sim Galiza.

Por motivo da comemoração do dia das Letras Galegas, o CERES (Centro de Estudos das Relações Internacionais) entrevistou ao professor e ativista galego, Luís Fontenla Figueiroa, da Universidade de Santiago de Compostela e da Universidade de Nova de Lisboa, especializado em pedagogia pela Universidade de Vigo, para que nos explique a situação linguística da região e o ensino de português na Galiza que visa essa aproximação com a lusofonia e consequentemente com o Brasil.

CERES – Obrigado Prof. Luis Fontenla por participar dessa entrevista como CERES. Nosso principal objetivo é a democratização das relações internacionais de modo que para nós é muito importante saber sobre a realidade de outras regiões e suas relações com o Brasil e ir além da informação divulgada pela mídia ou instituições governamentais, promovendo dessa forma o senso critico de nossos participantes.

O senhor atua como professor de português na Galiza, uma região importante para nossa história, porém marginalizada pela historiografia. Ainda assim existem grandes sinergias e novas tentativas de aproximação, porém as mesmas têm sido pouco frutíferas, em sua opinião o que está falhando?

Prof. Luis Fontenla – Primeiramente obrigado pelo convite para a entrevista, sem dúvidas esta é uma forma de promover todas essas medidas além da mera atuação política e buscar sinergias entre a comunidade de ambas as regiões.

Eu tenho um grande interesse na relação entre Galiza e Portugal, sendo este um tema que me apaixona. De modo que vou começar fazendo uma breve apresentação de Galiza desde um ponto de vista local.  Somos uma região europeia com pouco mais de 2,5 milhões de pessoas das quais metade falam uma forma de português. Somos um povo antigo, imaginem que foi há 900 anos que o Condado Portucalense se separou da Galiza, mudando depois o nome da língua comum para português. Atualmente conservamos uma forma do idioma que até hoje se discute sua relação com o português moderno, sendo uma discussão marcada por interesses políticos. Durante a ditadura espanhola, o nosso especial português, que nós chamamos de galego, foi duramente perseguido, mas depois deste período o galego finalmente pode ser lecionado nas escolas. Nos dias de hoje mais de 80% dos habitantes conseguem falar o idioma, mas apenas a metade utilizam de maneira habitual.

Atualmente existem diversos interesses e certas inércias que devem ser vencidas. Caso a Galiza passe a integrar o espaço lusófono resultaria em outro interlocutor dentro da Europa e serviria de ponte da Lusofonia com a comunidade hispanofalante. Nesse sentido a nossa relação com o Brasil e demais países lusófonos é diferente, não apenas por termos o castelhano como segunda língua, mas por não termos uma posição de ter sido o “colonizador” como acontece com Portugal. Temos é uma possível posição partilhada, de origem, como Berço da língua… Podemos ser vistos como mais um parceiro que nunca foi metrópole colonial dos povos da comunidade lusófona. O Brasil sempre apoiou a participação da Galiza dentro da comunidade e até na participação galega no acordo ortográfico de 90. Já a respeito da Galiza tudo depende de quem ocupar a presidência do governo autónomo.

CERES – Em relação ao potencial das relações Brasil e Galiza deveram considerar que atualmente o português é visto como língua estrangeira perante a atual legislação o que pode dificultar essa integração, já que para um galego a aprendizagem do português pode parecer menos rentável que estudar outro idioma (inglês, francês, alemão…) ainda mais levando em consideração que ambas as línguas são irmãs é possível compreender e se expressar de forma escrita sem grandes dificuldades de ambos os lados. Por outra parte a Academia de Letras Galegas tem tido um papel inexpressivo dentro da Lusofonia, quais são as ferramentas que o senhor considera que poderia reverter esse quadro?

Prof. Luis Fontenla – Atualmente o português é considerado uma língua estrangeira para permitir a sua aprendizagem por parte do governo autónomo que é quem tem legalmente as competências em educação. Mas também isso reflete a tentativa de normalizar as tensões do seu estudo dentro da própria Galiza que já na década de 80 não alcançou o consenso da parte dos políticos em relação à questão da norma gráfica do idioma e até da própria identidade da língua. O debate é a respeito de se o falar galego como  apenas um idioma local ou uma modalidade do português. O principal  conflito acerca da utilização gráfica assenta na escolha da norma espanhola ou da portuguesa para escrever o idioma galego, sendo este um debate profundo com diversos interesses. Há uma matéria escolar língua galega, que utiliza a norma gráfica do castelhano e uma matéria escolar língua estrangeira portuguesa em que ensinamos português.  Em relação à Real Academia Galega (Academia das Letras Galegas) ela faz parte da política oficial do governo e depende deste. Em 2008 surge uma nova academia focada no português e no relacionamento lusófono, a Academia Galega da Língua Portuguesa. De modo que temos atualmente duas academias, uma depende do governo e outra está focada numa relação galega com a comunidade internacional.

CERES – Gostaríamos de entender desde seu ponto de vista, como é visto o português na Galiza e o papel dos professores na região? Quais são as dificuldades de implementar essa integração mesmo havendo leis para isso tais como a lei Paz Andrade? E como é feito a adesão do português?

Prof. Luis Fontenla – Bom em relação ao papel do professor eu acho que o seu papel é dotar a seus alunos de competências e capacidades no uso da língua portuguesa. Evitando uma posição marcada em relação às questões identitárias e políticas. Ainda existem alguns medos por parte dos políticos em relação ao papel do português na Galiza. Mas professores acreditamos em que aprender português é um elemento que contribuirá grandemente para valorizar os falares locais e aumentará a autonomia das pessoas mediante a obtenção de maiores conhecimentos. Uma pessoa pode aprender mais do que um idioma sem mudar o seu posicionamento político ou a sua identidade nacional. Porém existe esse medo por parte da classe política, de que o aumento das competências em português gere uma maior consciência social da importância dos falares galegos e da cultura galega.

CERES – Existe algum apoio governamental de fato? O que pode ser feito para dar a conhecer o galego no Brasil e o português na Galiza? Como é possível transformar a Galiza em um hub de negociações usando seu potencial de articular as relações tanto com a lusofonia como com o mundo hispanofalante e finalmente tirar a mesma dessa marginalização econômica que sofre em relação ao centralismo espanhol?

Prof. Luis Fontenla – Em relação ao que deveria ser feito… Sem dúvidas é preciso apoio político, ouvindo mais à sociedade, potencializando o português no ensino secundário como foi solicitado constantemente. Há diversas medidas para mudar a situação atual que podem ser implementadas, a primeira é trabalhar em um novo consenso social acerca de qual deverá ser nas próximas décadas a língua comum de integração na Galiza (independentemente da grafia) sem por isso desprestigiar a existência e conhecimento de uma segunda língua que é nosso património (o castelhano). Galiza é uma região privilegiada, porém é necessário fazer a melhor das políticas linguísticas que é despolitizar as línguas. Isso só pode acontecer com uma aceitação do papel do português como uma variedade internacional do nosso falar galego que oferece mais recursos do que os gerados unicamente no que nos chamamos no nosso “País” de galego. Não se pode comparar a produção de produtos culturais galegos isoladamente com a enorme oferta cultural do espanhol, de modo que é preciso  fazer uso da normativa europeia que permite o uso do português em televisões, rádios e imprensa para complementar a produção cultural na Galiza. Para vocês entenderem, se temos cinco jornais espanhóis nos espaços de leitura públicos, devemos ter cinco em português ou galego, cumprindo assim tanto com o estabelecido pela lei da Espanha como também pela normativa europeia. A legislação já existe. Somente temos de disponibilizar recursos para a população.

CERES – Muito obrigado pela sua participação Luis e por nos proporcionar maiores informações sobre a região da Galiza e do português dentro da Espanha e da própria União Europeia. Sem dúvidas essa informação é importante, para conhecer a dinâmica linguística entre estados, a relação histórica e a própria evolução política e cultural da Espanha e Portugal que foram os primeiros Estados Modernos, mas que continuam enfrentando uma série de paradigmas e paradoxos, com movimentos identitarios, diferentes línguas e fatores culturais.

Prof. Luis Fontenla – Obrigado pelo convite e por me oferecer este espaço para falar da situação do português na Galiza, sendo meu intuito direcionar o meu discurso para o ouvinte que se localiza fora da Europa, lhe fornecendo o ponto de vista de um cidadão que ama a sua língua. Para quem tem maiores interesses existem organizações e associações que oferecem maiores informações. Assim mesmo recomendo a produção cultural da Galiza que é crescente e que oferece uma grande diversidade, tanto a nível musical, literário ou no teatro. Afinal as atividades culturais podem vir a ser uma ponte interessante entre Brasil e a Galiza.

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Luís Fontenla Figueiroa estudou Filologia Portuguesa na Universidade Santiago de Compostela (USC) e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL – Estudos portugueses) ampliando posteriormente a sua formação pedagógica na Universidade de Vigo (Uvigo).  É professor de português e ativista da língua na Galiza, participando em diferentes associações e eventos culturais ou escrevendo artigos de opinião em diferentes jornais ou revistas.

Além de professor, já foi tradutor, padeiro, trabalhador florestal e habitante da montanha numa comunidade local. Transitou pelos caminhos da produção biológica local e dos circuitos de consumo responsável. 

Na atualidade mora com a sua família perto da cidade da Corunha (Comunidade Autónoma da Galiza) e desenvolve a sua atividade profissional no ensino/aprendizagem da língua portuguesa em centros de ensino público.

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