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Gestão Bolsonaro e os resultados do ministro Paulo Guedes

Aos seus 72 anos, o ministro carioca Paulo Guedes, foi uma das grandes apostas do governo Bolsonaro. Formado em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutorado pela Universidade de Chicago (cuja influência moldaria sua visão econômica), foi um grande defensor da Operação Lava-jato durante sua atuação como colunista no jornal O Globo.


Guedes prometia fazer do Brasil o novo Chile, aplicando as reformas instituídas durante a ditadura de Pinochet, sendo um defensor do Consenso de Washington e do liberalismo econômico.


A diferença de grande parte dos integrantes da atual gestão, Paulo Guedes jamais atuou como político, sendo sua carreira desenvolvida fundamentalmente no plano privado, destacando sua atuação como sócio fundador do Banco Pactual, no mercado de capitais e como docente em diversas instituições privadas.


Entre os membros da equipe de governo é um dos mais discretos, sendo poucas vezes envolvido em polêmicas e escândalos fruto do discurso tão característico da gestão Bolsonaro. Ainda assim, sua falta de objetividade e principalmente os resultados tênues que obteve até o momento, foram aos poucos minando a credibilidade do ministro.


Certo é que alguns setores do Brasil, tais como o agronegócio e as exportações aumentaram consideravelmente, porém este aumento se deve mais a conjuntura internacional e a desvalorização do Real, seguida de uma instabilidade crescente nos mercados produtores e principais competidores, do que a uma política econômica assertiva e planejada. Tanto que o impacto na economia interna foi devastador para diversas famílias, provocando uma inflação galopante que minou o poder de compra de grande parte da população e levou ao desabastecimento de diversos produtos de primeira necessidade a elevações de preço fora do alcance do consumidor.


Embora podemos afirmar que fatores externos afetaram o desempenho da economia brasileira, seja para bem ou para mal, foi sem embargo, a falta de planejamento dos fatores estruturais da economia interna o maior ponto de inflexão na atuação de Guedes, já que negligenciou o impacto do consumo interno no PIB e o potencial de mercado que mantinham grandes empresas e atraíam grandes investimentos para o país.


O mercado interno brasileiro deixou de ser interessante.


O poder aquisitivo da população foi reduzido a mínimos históricos e muitas empresas simplesmente desistiram de atuar no Brasil, já que não somente se enfrentavam a um consumo deprimido, como também a incapacidade do governo em promover as mudanças necessárias para reduzir os custos de produção, tais como uma reforma tributária efetiva e a manutenção de uma taxa de juros atrativa. Por sua vez, a privatização de empresas estatais e a falta de grandes investimentos públicos, retirou o principal comprador do mercado interno, que era o próprio Estado, não havendo substituição pelo consumo interno e focando toda produção para o exterior.


A falta de precisão e articulação com outros ministérios também foi um ponto chave para entender o baixo desempenho de Guedes, já que em seu “bandwagoning” discursivo, o Brasil pretendia se reaproximar de economias como as dos EUA e da Europa, porém mantendo a importância dos mercados asiáticos, sem conseguir de fato resultados nem acordos, além de reduzir a participação do Brasil no mercado regional e seu papel de liderança, diante do crescimento de economias tais como a Colombiana.


A redução drástica em investimentos públicos e no orçamento de setores fundamentais para o crescimento interno, tais como educação, saúde, pesquisa e inovação, também tiveram um impacto direto na performance da economia brasileira, já que o país não conseguiu atrair investimentos para substituir a falta de orçamento público, seja pelos constantes ataques à parceiros comerciais e a postura isolacionista de Bolsonaro e do então ministro Ernesto Araújo, seja pela própria incoerência política interna que afetava as negociações com blocos tais como a União Europeia e minava as relações com mercados já consolidados.


Ao longo dessa gestão alguns números ajudam a entender melhor o quê de fato ocorreu com o Brasil e seus resultados internos e externos. A falta de recursos públicos a setores fundamentais e a redução dos programas sociais, em um ambiente onde o endividamento da população já era alto, somadas a falta de planejamento estratégico e a competência internacional (pois o mundo não para pelo Brasil), provocou por um lado uma depressão crescente do consumo e por outro a saída de grandes multinacionais do país (Ford, Mercedes Benz, Renault, Nissan, Nikon, Sony, etc) impactando em toda a cadeia de produção, levando ao aumento do desemprego, incremento da pobreza e ao ressurgimento da fome.


A desvalorização da moeda provocou um aumento exacerbado dos preços que foi demasiado rápido como para ser absorvido pelo consumo, levando a precarização em todas as esferas. Os resultados obtidos com o crescimento de setores tais como o agronegócio e as exportações de commodities, não foram revertidos na população, permanecendo concentrado em uma pequena parcela que foi se enriquecendo à medida que avançava a crise estrutural, aumentando a desigualdade e a queda econômica das classes emergente, e em meio a todo este cenário, cada vez mais dependente do mercado externo, veio a pandemia...


A pandemia não é o principal motivo do baixo desempenho do Brasil, porém sem dúvidas representou o auge do declínio econômico da nação, pois se formou a tempestade perfeita, cujos resultados são perceptíveis nas ruas e nos mercados. O embate entre negacionistas e defensores das medidas sanitárias, prolongou a crise e postergou a capacidade de resposta do Brasil que concentrou grande parte de sua economia no mercado de exportação cujas cadeias de produção e distribuição foram amplamente danificadas ao longo do lockdown e o mercado interno estava muito enfraquecido como para manter flutuando a economia.


Neste ano o Brasil deve registrar um aumento do PIB, sem embargo o mesmo está mais condicionado as melhorias no cenário internacional que a própria condição interna da economia brasileira e todos esses milhões captados, dificilmente serão interiorizados a nível perceptível para o cidadão comum, porém este será o primeiro a pagar a conta.


De modo que talvez, Guedes sim que tenha realizado parte das mudanças prometidas, sem embargo a pergunta que fica é quando será que isso vai de fato melhorar a vida do cidadão?


O país cuja economia continua entre as maiores do planeta, concentrou seu capital em uma parcela da população alheia as dificuldades do restante do povo, se transformando em uma grande fazenda, que vende a maior parte de sua produção e que as sobras são comercializadas a preços irreais de um povo com pouco poder de consumo, alta taxa de desemprego e serviços públicos deficientes e que dificilmente podem pagar pelos ofertados no setor privado...Uma sociedade onde a desigualdade é crescente, se institucionalizou mas que prega constantemente uma meritocracia entre competidores que começam a corrida em posições bem diferentes...



Wesley Sá Teles Guerra, brasileiro, residente em Ourense (Galicia), PHd Candidate em Sociologia e Mudanças da Sociedade Contemporânea, Mestre em Políticas Sociais e Migrações, Mestre em Gestão e Planejamento de Cidades Inteligentes, Pós-graduado em Relações Internacionais e Ciências Políticas, autor do livro Cadernos de Paradiplomacia e do estudo Brasil Galicia. Membro associado do IGADI – Instituto Galego da Análise e Documentação Internacional, do OGALUS – Observatório Galego da Lusofonia e da Associação Impulsora da Casa da Lusofonia. Fundador do Think tank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais do Brasil. web: www.wesleysateles.com



Bibliografia:


Traine, Martin (2004), “Neopopulismo. El estilo político de la pop-modernidad”. En: Revista Diálogo Político N°2, 2004. Fundación Konrad Adenauer, Buenos Aires

Oyama, Thais (2019), “Tormenta: O Governo Bolsonaro, crisis, intrigas e segredos", São Paulo.

José de Jesús Rodríguez Vargas (2005): EL TRÁNSFUGA DEL LIBERALISMO: KEYNES


https://www.csis.org/analysis/manufacturers-dilemma-reshoring-and-resiliency-pandemic-world


https://www.project-syndicate.org/commentary/prevent-future-supply-chain-disruptions-using-ai-models-by-michael-spence-2021-11/portuguese


https://datosmacro.expansion.com/pib/brasil

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