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Guerra Fria: Como a invasão japonesa e o racismo moldaram a política externa ocidental

“Há séculos o Ocidente estuda, investiga e explora o Oriente. A própria identidade ocidental (de cultura, tradições e costumes) pode ser delimitada apenas quando posta em contraste com o imaginário oriental” (SAID, 1990, p. 12-13).


O perigo amarelo

A ameaça de dominação do “mundo moderno” pelo “Extremo Oriente” ganhou o nome de Perigo Amarelo formalmente como uma espécie de política oficial de governo entre o final do século XIX e o começo do século XX, mas é possível encontrar referencias ao termo já no sec XVIII em referência à invasão mongol. Em uma carta do Guilherme II da Alemanha ao Czar Nicolau II da Rússia no ano de 1895, o imperador alemão acusa o russo de “cultivar o continente asiático e defender a Europa das incursões da Grande Raça Amarela”.

Em suma, o perigo amarelo seria uma tomada do controle hegemônico por nações asiáticas, vistas como inassimiláveis e retrógradas em relação ao Ocidente, e a consequente subversão de ideais tradicionais, como o liberalismo individualista, o cristianismo, etc., que fundamentam a vida ocidental, criando uma ameaça no imaginário da população e transformando-a num slogan que justifica suas políticas imperialistas no Leste Asiático.

Inicialmente a tese foi pensada para a China, com seu tamanho e densidade demográfica, mas com a expansão militar japonesa e sua vitória na Guerra Russo-Japonesa em 1905, pela primeira vez uma nação “branca” perdeu para uma “amarela”, a histeria foi generalizada ao ponto desse mesmo Imperador alemão dizer em uma entrevista “O futuro não pertence aos amarelos ou aos negros ou aos de cor oliva.” A tese da “raça branca” era o ponto inicial que os europeus precisavam para moldar suas políticas externas de exploração e colonialismo no “mundo incivilizado”, o que desaguou no darwinismo social e na eugenia como “ciência ocidental”.


O fardo do homem branco

Caso ainda fique alguma dúvida das reais intenções dessas teses, dentro deste mesmo espaço de tempo (final do séc XIX e começo do séc XX) surge o poema “o fardo do homem branco”, feito poeta britânico Rudyard Kipling, conhecido pelos ensaios e poemas favoráveis ao imperialismo. O escritor justifica o imperialismo pela via civilizacional e não a econômica.

As línguas europeias, a religião cristã, as técnicas, a educação, a medicina e até mesmo noções de higiene deveriam ser levadas aos “selvagens”, isto é, os não-brancos. Este era o “fardo”, a difícil missão que o coitado do homem branco deveria levar para os “tristes povos, metade criança, metade demônio”.

O poema traduz a mentalidade coletiva do período, que contava com intensificação de missionários evangélicos e padres para espalhar o cristianismo a todo custo, aumento de escolas de inglês para árabes, africanos, chineses e indianos em seus países, a partilha da África e a subjugação total de populações asiáticas. O trauma japonês

Os aliados ocidentais optaram por perceber o Sudeste Asiático no período da Guerra Fria sob o prisma das vitórias chocantes do Japão. Eles não podiam esquecer a facilidade com que Tóquio tomou Cingapura, a joia da coroa britânica em apenas 15 dias. Ainda em 1942, o Japão havia unido toda a região do sudeste asiático, seja pela dominação do território, como nas Filipinas, Cingapura, seja através de acordos políticos, como foi feito com a Tailândia e a Indochina, que na época era comandada pela França de Vichy.

Para as autoridades britânicas e norte-americanas, o rápido avanço do Japão para o sul ofereceu uma prévia de como os comunistas chineses também tomariam o subcontinente. Vários foram os documentos dos serviços de inteligência de ambos os países classificando a China como um agressor externo e sobre uma provável dominação chinesa comunista de todo o sudeste asiático aos moldes do imperialismo japonês.

Em 1950, relatórios pedidos pelo então presidente Harry Truman concluíram que “os japoneses haviam demonstrado o caminho” pelo qual a China montaria uma “invasão terrestre da Malásia”; que quando Pequim atingisse o sul na Indochina, a Tailândia “logo cairia”, permitindo que as forças chinesas “descessem a península malaia como os japoneses fizeram na última guerra” para então invadir Cingapura.


Teoria do dominó

Foi nesse contexto que os Estados Unidos decidiram combater o comunismo custe o que custar, a tese criada para sustentar a importância do ato foi feita em 1954, quando o presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, usou a imagem de “dominós caindo” para responder à pergunta de um repórter sobre a “importância estratégica da Indochina para o mundo livre”. Eisenhower explicou que se os comunistas “derrubassem o primeiro”, o último “cairia muito rapidamente”. O presidente dizia que o “mundo livre” não deve “descartar” a Indochina, mas sim “construir aquela fileira de dominós para que possam suportar a queda de um”.

Washington e Londres não apenas temiam a China, mas também os dez milhões de chineses do Sudeste Asiático que os aliados ocidentais supunham que serviriam prontamente às ambições hegemônicas de Pequim e emulariam a campanha japonesa. Os líderes ocidentais há muito suspeitavam que os chineses do Sudeste Asiático permaneciam "racial, cultural e politicamente ligados à pátria mãe”

De fato Pequim enviou panfletos e propaganda comunista por todo subcontinente e tentou cooptar algumas células, mas sem grandes efeitos, o que o ocidente desconsidera é que milhares de chineses étnicos estavam fora do seu país há dezenas, ou até, centenas de anos fruto de diásporas anteriores, assim como a China figurava entre os países mais pobres do mundo e ainda fragmentada política e socialmente.


O Problema Chinês

Em 1946, portanto, antes da tomada de poder do Partido Comunista Chinês (PCC), oficiais de inteligência dos EUA concluíram em outro relatório que “os 4.500.000 estrangeiros chineses e milhões de pessoas de sangue parcialmente chinês” tinham uma “disposição para se isolar política e culturalmente e direcionar sua lealdade à China”. Com base em tais observações, as autoridades americanas concluíram que a diáspora chinesa era uma “ferramenta potencial para a extensão da influência da China no Sudeste Asiático” que foi chamada nos documentos de “penetração chinesa”.

A paranoia atingiu seu ápice quando o primeiro-ministro Lee Kuan Yew de Cingapura, fez sua primeira visita oficial aos Estados Unidos em 1967. Em um programa de TV ele foi perguntado sobre o papel da China no conflito do Vietnã já que ele era etnicamente chinês, respeitosamente o político respondeu que “Não posso falar como chinês porque sou um Cingapuriano”. O tema foi finalizado apenas quando ele disse categoricamente que apoiava a presença dos EUA no sudeste asiático para combater o comunismo.

A tese do “perigo amarelo” foi adaptada para “problema chinês” ou “penetração chinesa” durante a Guerra Fria como um recurso de manipulação das relações de poder e aliança que visavam manter a hegemonia euro-americana, conduzindo o medo coletivo numa lógica de terror. O padrão de urgência absoluta de questão civilizacional em risco foi acionado novamente sob outro nome, o Perigo Amarelo é um dos mecanismos que Estados utilizam para recorrer ao pânico generalizado que abre portas para as políticas imperialistas.


Conclusão

As preocupações de um possível alcance hegemônico chinês no sudeste asiático por meio de suas redes diaspóricas e seu tamanho territorial e populacional são anteriores à Guerra Fria e pavimentada em teses raciais, e não ideológicas. O comunismo foi apenas mais uma camada de diferenção de “nós x eles”, “ocidente x oriente”, muito antes dele ja havia toda uma teoria acerca da necessidade de contenção à Pequim.

Assim como questões internas chinesas do pós-guerra, não foram levadas em consideração nessas análises inúmeras dinâmicas do subcontinente, como uma natural resistência ao comunismo ateu por parte dos países islâmicos, o conservadorismo tradicionalista dos povos tailandeses e mianmarenses, a aproximação dos filipinos com os costumes americanos e uma rivalidade milenar vietnamita.

O “perigo amarelo” do séc XVIII se tornou o “medo vermelho” do séc XX, desaguando em mortes em escalas industriais na Guerra Fria. A Guerra do Vietnã na fase estadunidense e o massacre de cerca de um milhão de membros do Partido Comunista da Indonésia em apenas dois anos, por exemplo. A maleabilidade do cenário político e econômico internacional através do medo é uma ferramenta tradicional dos poderes hegemônicos para evitar mudanças no status quo.


O racismo se instrumentaliza e vemos como a população negra é rejeitada na questão da Ucrânia em seu acesso a Polônia, em como a Europa abre os braços para os ucranianos em detrimento dos refugiados da Síria, ou como a Rússia pelo fato de ser a Rússia é a errada da questão sem nenhum julgamento de todo o histórico e a tendência geopolítica do leste europeu, seja de um lado ou do outro, o racismo é o ápice da ignorância humana que trata de se justificar na tragédia e no julgamento do lado que se considera superior.


Referências


SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

https://ink.library.smu.edu.sg/cgi/viewcontent.cgi?article=4525&context=soss_research

https://ensinarhistoria.com.br/o-fardo-do-homem-branco-exaltacao-do-imperialismo/

https://outracoluna.wordpress.com/2017/03/26/a-origem-do-perigo-amarelo-orientalismo-colonialismo-e-a-hegemonia-euro-americana/

https://www.wilsoncenter.org/blog-post/world-war-ii-race-and-the-southeast-asian-origins-the-domino-theory




Valter Peixoto Neto, formado em Comércio Exterior (Unibr), pós-graduado em Relações Internacionais com ênfase em Diplomacia (Unisinos). Trabalha com remessas internacionais em uma casa de câmbio e faz pesquisas independentes sobre o Sudeste Asiático. Possui site e podcast onde procura difundir e democratizar o debate e o conhecimento na área de Relações Internacionais. Editor Site: MenteMundo R.I.



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