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O acordo nuclear com o Irã e as relações internacionais no Oriente Médio

                                                                                                      Por Carlos Frederico Pereira da Silva Gama[i]

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) anunciou que a República Islâmica do Irã cumpriu as exigências previstas no acordo negociado com o grupo das seis potências (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha) em 2015[ii]. Após a desativação de suas centrais nucleares e o envio de material nuclear remanescente para a Rússia, sanções internacionais impostas ao Irã acabam de ser suspensas. Tais sanções levaram 15 milhões de pessoas (20% da população) para abaixo da linha de pobreza. O rial iraniano perdeu metade do seu valor frente ao dólar. O Irã viveu anos de recessão e expressivas quedas do produto interno bruto (-6.6% em 2012 e -1.9% em 2013).

A eleição em 2013 do presidente Hassan Rouhani (considerado moderado, em contraste com o nacionalista Mahmoud Ahmadinejad) e o declínio do preço do barril de petróleo brent no mercado mundial (de 110 dólares na crise econômica de 2008 para menos de 30 em 2016) contribuíram para a reaproximação entre Teerã e Washington.

Uma grande promessa de campanha de Barack Obama era trazer estabilidade ao Oriente Médio e Ásia Central e recuperar a imagem de liderança dos EUA naquelas regiões. Antes do acordo nuclear, Obama enfrentava imensas dificuldades para transformar suas intenções em resultados. A retirada das tropas norte-americanas do Iraque fracassou espetacularmente após o início da guerra civil na vizinha Síria. A “linha vermelha” das armas químicas de Bashar Al-Assad foi esquecida após acordo negociado por Rússia e China com a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ). A autorização da Organização das Nações Unidas (ONU) para o uso da força contra o “estado” islâmico/ISIS/Daesh veio na sequência de prolongados bombardeios unilaterais e não-coordenados da Rússia e OTAN. Mesmo tendo morto Osama Bin Laden e retirado suas tropas, as promessas de Obama no Afeganistão permanecem reféns de remanescentes da Al-Qaeda e senhores da guerra.

Os fracassos estratégicos dos EUA foram comemorados em Teerã. Após as intervenções dos EUA no Iraque, o Irã se tornou a grande força política no país (via líderes políticos xiitas). A participação do Hezbollah na guerra civil síria (apoiando Assad, em parceria com a Rússia) e na política libanesa potencializa a influência do regime dos aiatolás, bem como a insurgência das tribos xiitas Houthi no Iêmen. A Arábia Saudita interveio no Iêmen em 2015, o que elevou o nível de tensão com Teerã.

Irã e Arábia Saudita romperam relações diplomáticas em 2016 – como já haviam feito em 1988. Para além das justificativas oficiais (a execução do clérigo xiita Sheik Nim al-Nimr na Arábia Saudita, acusado de “terrorismo” e o incêndio da embaixada saudita em Teerã a seguir), os dois estados disputam a primazia na região, mobilizando diferentes versões do Islã. Os regimes da família Saud e dos aiatolás se legitimaram politicamente transformando a religião em questão de estado: a Monarquia absolutista sunita guardiã das cidades sagradas de Meca e Medina versus a República Islâmica xiita sob a liderança do aiatolá Ali Khamenei. Em meio a discursos da Al-Qaeda e Daesh promovendo suas versões de um “novo califado” (no Afeganistão e na Síria), a relação delicada entre religião e soberania não pode ser subestimada.

Sob pesadas críticas de seu principal aliado na região (Israel), o governo Obama se mostrou pragmático a ponto de se aproximar de um regime inimigo de décadas (como já fizera com Cuba em 2014). A negociação não criou uma aliança entre EUA e Irã. Além da proximidade geográfica, outros interesses conectam Teerã às demais potências participantes do acordo (Rússia e União Europeia).

À ousadia de Obama no plano externo se somaram constrangimentos internos. Enquanto o Irã se unia pela agenda do fim das sanções, o presidente dos EUA enfrentou resistências a um acordo até mesmo de sua ex-secretária de estado, Hillary Clinton, pré-candidata democrata à Casa Branca. Ao contrário de Rouhani, Obama está em fim de mandato. Não há garantias de que o futuro governo dos EUA – ou um Congresso hostil, dominado pela oposição – manterá o acordo em vigência.

O acordo que congelou o programa nuclear do Irã é um alento para o regime internacional de não-proliferação nuclear (abalado pelo recente teste nuclear da Coréia do Norte[iii]) numa região onde um acordo dessa envergadura era considerado uma miragem. Esse ceticismo vitimou a iniciativa de Brasil e Turquia em 2010: a negociação que fizeram com o governo Ahmadinejad foi rechaçada pelas seis potências. A trilha que levou ao acordo com o Irã foi pavimentada com muitas decepções.

Mesmo com a piora do contexto internacional, as exigências feitas no acordo foram cumpridas. O contraste entre o Irã e outros países com programas nucleares incompatíveis com o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) é expressivo, num mundo globalizado com múltiplos centros de poder.

Uma chance foi dada à diplomacia. E ela foi aproveitada.


colaborador

DOUTOR EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS PELO IRI/PUC-RIO (2011).

MESTRE EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS PELO IRI/PUC-RIO (2005).

BACHAREL EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS PELA PUC-MINAS (2002).

[i] Professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT)

[ii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2015). “O Acordo Nuclear com Irã e as Transformações na Ordem Internacional”. SRZD. Disponível em: <a

href=”http://www.sidneyrezende.com/noticia/247794″>http://www.sidneyrezende.com/noticia/247794. Acesso em: 06 de Abril de 2015.

[iii] Gama, Carlos Frederico Pereira da Silva (2016). “A Coréia do Norte desafia o Mundo“. NOO. Disponível em:

http://noo.com.br/a-coreia-do-norte-desafia-o-mundo-entre-crises/. Acesso em: 08 de Janeiro de 2016

Imagem: http://og.infg.com.br/in/16754718-5e8-4b9/FT1086A/420/IRAN-NUCLEAR_-GT229NPTF.1.jpg

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