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O impacto das novas tendências de consumo alimentar pós-industrialização nas relações internacionais

Ao analisarmos as novas tendências de consumo a nível mundial é inevitável notar, além do consumo da moda e de produtos eletrônicos, o setor de alimentação como um dos principais fatores que movem a indústria capitalista.

Sabemos que a modernidade e a globalização provocaram mudanças de hábitos na população mundial. Ainda focando no consumo alimentar, a facilidade aos produtos industrializados e de rápido preparo, nas metrópoles, reflete a adaptação do homem à uma rotina de produção acelerada ligada a uma grande e prática oferta de alimentos a qualquer hora do dia.

Impactos

Porém, os efeitos colaterais deste consumo começaram a ser destacados conforme a mudança acontecia e a agenda sobre o meio ambiente ganhava destaque. Como esquecer a Rio 92 e demais eventos do tipo acontecendo após os anos 90?

Sem entrar na questão de saúde relacionada à qualidade dos alimentos, é importante que o indivíduo tenha uma consciência macro sobre os padrões alimentares que participa. Neste sentido, analiso aqui a continuidade e impactos do atual sistema, além de mostrar novas tendências.

Uma linha ambientalista defende a ideia que a  sociedade contemporânea deve mudar o paradigma antropocêntrico ainda predominante para uma visão de mundo biocêntrica, comprometida com a natureza e a sustentabilidade.

Segundo Morin e Kern (2003, p. 79), “o mito do desenvolvimento determinou a crença de que era preciso sacrificar tudo por ele”.

Os padrões de consumo impostos pelo sistema capitalista devem ser revistos, sob pena de inviabilizar a continuidade da vida no planeta. Muito tem se falado que o planeta não vai sobreviver se houver o predomínio das leis do mercado. Assim, surge a preocupação com modelos sustentáveis de desenvolvimento, onde haja a conciliação entre o desenvolvimento econômico e a preservação do meio ambiente (Gomes, 2006).

Tendências

Na pré história o homem caçava para se alimentar e seguia padrões de agricultura diferentes do mundo atual. Hoje não temos mais que nos programar para colheitas e ou hora para pegar as armas e correr atrás da “mistura”. Todos esses produtos estão na gôndola do supermercado com uma farta variedade para todos os tipos de dieta.

Como mudança comportamental, baseada em dados, observa-se no primeiro mundo, a partir dos anos 80, uma tendência em reduzir o consumo de carne vermelha, principalmente nas famílias com maior poder aquisitivo. Na França, por exemplo, uma pesquisa mostra que este alimento perdeu grande parte de seu poder simbólico[1]. Em 1985, 23% dos entrevistados concordava que a carne é indispensável ao equilíbrio alimentar. Em 1987, somente 19,6% afirma esta mesma opinião e 67% acha que seu consumo de carne de boi é demasiado, necessitando de uma redução (Bleil, 1998).

Você provavelmente lembrou das correntes vegetarianas e veganas sobre o consumo de carne. Tal fato se deve pois tais correntes relacionam a degradação do meio ambiente com a produção agropecuária e pesca. Neste sentido, voltamos a visão macro do sistema atual com os seguintes dados:

  1. Gases do efeito estufa: A agricultura animal é responsável por 18% das emissões de gases de efeito estufa, mais do que o escapamento combinado de todos os transportes.[2]

  2. O escapamento de transportes é responsável por 13% de todas as emissões de gases de efeito estufa. As emissões de gases com efeito de estufa deste setor envolvem principalmente combustíveis fósseis queimados para transporte rodoviário, ferroviário, aéreo e marítimo.[3]

    ●     As vacas produzem 150 bilhões de galões de metano por dia.[4]

  1. O consumo de água em agricultura animal varia entre 34-76 trilhões de galões por ano.[5]

  2. São necessários 2.500 galões de água para produzir 1 libra de carne bovina.[6]

  3. Agricultura animal é a principal causa de extinção de espécies, zonas mortas do oceano, poluição da água e destruição do habitat.[7]

O vegetarianismo e veganismo são apenas um exemplo em foco. Temos também o consumo baseado “pegada de carbono” onde o ideal seria mitigar a produção de carbono consumindo produtos de produtores próximos à você, tendo hábitos mais saudáveis e sustentáveis de modo geral (GFN).

Outro assunto em foco é o consumo de agrotóxicos, alimentos transgênicos e hormônios adicionados nos alimentos. Todos estes temas oriundos de análises de produção e consumos atuais, relativos à saúde do indivíduo e do planeta.

Certamente que diversos locais no globo possuem infra estruturas precárias e a fome e a miséria são realidades para essas populações. Neste caso tais tendências não são aplicáveis por muitos motivos, como o solo pobre e recursos limitados e são assuntos para outro debate construtivo.

O que se nota é o desafio do desenvolvimento sustentável, que visa o equilíbrio entre o desenvolvimento socioeconômico atendendo a demanda mundial e a preservação do meio ambiente. Diz-se o termo “desenvolvimento sustentável”  englobando aspectos econômicos, sociais e ambientais, expressos no Relatório Brundtland como o “desenvolvimento que atende às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade de as futuras gerações atenderem às suas próprias necessidades” (MOUSINHO, 2003, p. 348).

Na visão macro uma vez mais, percebe-se a necessidade de se buscar uma nova ética, regida por um sentimento de preservação da natureza. A ética agora volta-se principalmente para a sua interrelação com o planeta. De modo que é necessária a construção de uma ética ambiental voltada ao futuro, para que o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado possa ser assegurado para as presentes e futuras gerações (SIRVINSKAS, 2002, p. 307).

As Relações Internacionais

Agora tratando das relações internacionais e câmbio entre os países, como fica a mudança nas balanças comerciais diante do cenário em questão?

Como isso pode ajudar a estabelecer novos laços comerciais ou impactar nas exportações e consumo?

“O Brasil detém o segundo maior rebanho comercial do mundo e é o maior exportador mundial. É ainda o segundo em quantidade de equivalente carcaça produzida, perdendo somente para os Estados Unidos da América do Norte em volume produzido. A produção de equivalente carcaça aumentou mais de 20% enquanto as exportações quadruplicaram. Aproximadamente 140 países compram hoje a carne bovina brasileira, a qual é literalmente “comprada” já que poucos esforços no sentido de promover nosso produto no exterior vêm sendo feitos, com exceção dos últimos dois anos quando um movimento ainda modesto de divulgação começou junto aos principais importadores. Os exportadores brasileiros terão que começar a se preocupar em divulgar o produto brasileiro se quiserem aumentar ou até mesmo manter o atual volume exportado, principalmente com a retomada das exportações de importantes concorrentes do Brasil, como a Austrália e a Argentina. Apesar de ser o líder mundial em tonelagem de carne bovina exportada, o país tem uma renda relativamente baixa, já que não exporta para os mercados de maior valor agregado, pois, além da questão da presença de aftosa nos rebanhos, a carne brasileira, segundo alguns importadores, não é considerada de boa qualidade.”(Filho, 2006)


Ainda destacando o papel do Brasil no agronegócio, o país vive a expectativa de ultrapassar os Estados Unidos em área cultivada de soja e tornar-se o principal produtor mundial do grão. Hoje a produção  de soja e milho supre sua cadeia produtiva de carnes e permite exportar produtos das cadeias produtivas de ambos os grãos, com destaque para a exportação de soja em grão. Neste item especificamente o país assume o status de principal exportador mundial (Lorini, 2016).

Atualmente nos supermercados existem centenas de produtos cuja formulação possui um ou mais ingredientes à base de soja, destaca-se o óleo de soja, que atende cerca de 85% da demanda nacional por óleo alimentício (UNITED STATES, 2016).

Importante destacar também as bebidas à base de soja (BBS), que atendem os novos conceitos de alimentação e consumidores com intolerância à lactose. Empresas alimentícias que antes produziam somente derivados lácteos ou sucos de frutas, agora estão produzindo as BBS. Além disso, no setor energético, o óleo de soja tem sido responsável pelo sucesso do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), suprindo mais de 75% da produção nacional do biocombustível em 2015 (BOLETIM MENSAL DO BIODIESEL, 2016).

Analisando as informações é possível notar a maior possibilidade de a soja ganhar mais mercados que a carne bovina, devido qualidade e demanda de mercado.

Não será possível neste texto comparar a relação comercial do Brasil com todos os países. Porém pego como exemplo rápido a Índia, parceira comercial, considerada país emergente como o Brasil, com semelhanças culturais e econômicas:

Principais produtos exportados de 2002 a 2012 (porcentagem) – Brasil – Índia

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Tal gráfico confirma os dados sobre o potencial da soja no Brasil e, apesar de a Índia não consumir carne bovina, não há dados relevantes de demais itens da pecuária, que foram substituídos por produtos semimanufaturados neste caso.

Principais produtos importados de 2002 a 2012 (porcentagem) – Brasil – Índia

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Ao analisarmos a importação com a Índia, confirmamos o foco em produtos semimanufaturados e sem dados relevantes para a pecuária.

Conclusão

Percebe-se, porém, ainda que de forma muito restrita, a relação dos novos costumes com as tendências e pensamentos pós-industrial, quanto à relação com o meio ambiente e qualidade do alimento.

Em tempos em que a informação chega aos lugares mais inóspitos, compreende-se que por um lado, a procura por alimentos de fácil preparo continue e, por outro, a necessidade, ainda tímida, de cuidar melhor das escolhas alimentares, visando a continuidade de um sistema capitalista, porém sustentável.

No caso das Relações Internacionais, as balanças comerciais com certeza se adaptarão à demandas do globo. Cabe aos diplomatas identificarem os melhores parceiros de acordo com sua identidade e fomentar demais projetos alinhados com seus objetivos, as negociações sempre ocorrerão, não importa o produto.

Independentemente do seu estilo de vida, sua opção alimentar ou preocupação com o planeta, o conceito “Pensar Globalmente e Agir Localmente” de Ulrich Beck resume bem o momento atual e o surgimento de alternativas ao atual sistema:  uma busca por aproximação entre colaboração, Solidariedade e participação, imbricadas na questão ambiental.

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Veruska Clednev formou-se em Relações Internacionais na Universidade Paulista e atualmente atua como secretária executiva trilíngue. Enquanto formanda foi diretora voluntária de Comunicação e Marketing do Conselho Institucional dos Estudantes de Relações Internacionais da UNIP. Adepta do veganismo, divide seu tempo livre entre descobrir novos restaurantes veganos (não é boa com receitas), seus estudos sobre a Índia, empoderamento feminino, viagens e tudo que envolva sua maior paixão: as Relações Internacionais. Também pratica natação e participa de campeonatos, um exemplo de que é possível ser vegana e esportista.

Bibliografia:

A máquina e a revolta: as organizações populares e o significado da pobreza. São Paulo, Brasiliense, p.174.

Bleil, Susana Inez. “O padrão alimentar ocidental: considerações sobre a mudança de hábitos no Brasil.” Cadernos de Debate 6.1 (1998): 1-25.

de Souza, Elaine Goncalves Weiss, and Eliana Maria de Senna do Nascimento. “Direito ambiental planetário e transnacionalidade: uma possibilidade de correção da deterioração do planeta.” Revista Justiça do Direito 27.1 (2013): 161-188.

GOMES, Daniela Vasconcellos. EDUCAÇÃO PARA O CONSUMO ÉTICO E SUSTENTÁVEL. REMEA – Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental, [S.l.], v. 16, set. 2012. ISSN 1517-1256. Disponível em: <https://www.seer.furg.br/remea/article/view/2778/1567>.

Lorini, Irineu. “Qualidade de sementes e grãos comerciais de soja no Brasil-safra 2014/15.” Embrapa Soja-Documentos (INFOTECA-E) (2016).

Luchiari Filho, Albino. “Produção de carne bovina no Brasil qualidade, quantidade ou ambas.” SIMPÓSIO SOBRE DESAFIOS E NOVAS TECNOLOGIAS NA BOVINOCULTURA DE CORTE-SIMBOI 2 (2006).

“Sombra Longa de Pecuária: questões e opções ambientais”. Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. Roma 2006






[1] antigamente a carne além de representar prestígio social, era considerada um alimento forte e bom para a saúde. Bleil, Susana Inez (1998)

[2] “Sombra Longa de Pecuária: questões e opções ambientais”. Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. Roma 2006

[3] Agência de Proteção Ambiental. “Dados globais sobre emissões de gases de efeito estufa”.

[4] Ross, Phillip. “Vaca Farts tem” maior impacto do gás estufa “do que o pensamento anterior, o metano empurra a mudança climática”. International Business Times. 26 de novembro de 2013.

Miller, Scot M, et al. “Emissões antropogênicas de metano nos Estados Unidos”. Procedimentos da Academia Nacional de Ciências. Vol. 110. No. 50. 18 de outubro de 2013

[5] “Resumo do uso estimado de água nos Estados Unidos em 2005”. Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Pimentel, David, et al. “Recursos hídricos: questões agrícolas e ambientais”. BioScience. (2004) 54 (10): 909-918

[6] Robbins, John. “2.500 galões todos molhados?” Earth Save: Healthy People Planeta saudável.

Pimentel, David, et al. “Recursos hídricos: questões agrícolas e ambientais”. BioScience (2004) 54 (10): 909-918.

“Conteúdo da Água das Coisas: Tabela de Dados 19”. A Água do Mundo 2008-2009

Beckett, J. L, Oltjen, J. W “Estimativa do requisito de água para a produção de carne nos Estados Unidos”. Journal of Animal Science. 1993. 71: 818-826

“Agua”. Grupo de Trabalho Ambiental.

“Pegada de água de produtos vegetais e vegetais: uma comparação”. Water Footprint Network.

[7]“Depleção de água doce: Realidades de escolha”. Comfortablyunaware: Depleção Global e Escolha de Escolha de Responsabilidade. 25 de novembro de 2014

“Sombra Longa da Pecuária”. Organização das Nações Unidas para a Alimentação ea Agricultura. 2006

Hogan, C Michael. “Causas da extinção”. A Enciclopédia da Terra. 13 de junho de 2014

“Impacto da perda de habitat em espécies”. WWF Global

Machovina, Brian, et al. “Conservação da biodiversidade: a chave é reduzir o consumo de carne”. Ciência do ambiente total 536 (2015) 419-431

“Avaliação da Gestão de Riscos para Operações Concentradas de Alimentação Animal”. Agência de Proteção Ambiental dos EUA. 2004

Hance, Jeremy. “Como os humanos estão levando a sexta extinção em massa”. O guardião. 20 de outubro de 2015

Zielinski, Sarah. “As zonas mortas do oceano estão piorando globalmente devido à mudança climática”. Smithsonian.com. 10 de novembro de 2014

Tilman, David, et al. “Sustentabilidade agrícola e práticas de produção intensiva”. Nature 418, 671-677. Agosto de 2002

Wilcove, David S, et ai. “Quantificando ameaças para espécies ameaçadas nos Estados Unidos”. BioScience. Vol. 48, nº 8 (agosto de 1998) pp. 607-615

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