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O triunfo da Extrema Direita e o pós-bolsonarismo.

Atualizado: 26 de set. de 2023

Nas últimas eleições, em grande parte do mundo, porém, em especial na América Latina, a centro esquerda/esquerda pôde disfrutar mais uma vez da sensação da época da chamada “onda rosa”. Embora o contexto contemporâneo seja diferente em comparação ao do referido momento, houve um respiro por parte da oposição aos governos de extrema direita que engoliram países na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos, presidido pela figura mais simbólica desse movimento da direita política, Donald Trump, que agora parecem se fortalecer após a dura derrota recente.


Embora Bolsonaro esteja enfrentando diversas investigações e acusações de envolvimentos claros de sua família e dele próprio em crimes cometidos durante o governo, o ex-presidente ainda possui apoio de parte de sua base popular. Talvez no presente cenário de fortalecimento do governo eleito e as ações para punir os responsáveis pelos ataques e invasão golpista em Brasília, seja difícil de identificar que, Bolsonaro ainda possua apoiadores significativos para respaldar sua volta à presidência, contudo, ainda é cedo para concretizar ou descartar a possibilidade de um retorno triunfal do ex-presidente.


No cenário político brasileiro atual, todas as variáveis devem ser lavadas em consideração, não somente pelo momento de polarização, de recente instabilidade política e da dificuldade de Lula em se colocar novamente no comando do presidencialismo de coalisão, mas, pelo possível elemento surpresa que poderá surgir. Se observado como a conjuntura política brasileira se movimentou nos últimos cinco anos, é inegável que a maior vitória tenha sido do então ex-presidente Lula e de seu partido, o Partido dos Trabalhadores, que devido às investigações da lava-jato, Lula foi condenado e preso assistindo a imagem do PT se deteriorar de forma exponencial.


No entanto, apesar do contexto desfavorável ao petista, Lula consegue sua liberdade e ainda, a anulação de seu julgamento por ter sido considerado parcial num momento em que Bolsonaro enfrentava dificuldades em governar conjuntamente às acusações de genocídio devido às ações e inações durante a pandemia. Em outras palavras, aquilo que parecia inviável começa a tornar-se realidade, Lula recupera seu folego político e inicia sua campanha presidencial um ano antes, o que o levou a criar uma frente ampla de apoio, cuja a maior prova se dá em seu vice de chapa, Geraldo Alckmin, antes rival agora aliado contra a reeleição de Jair Bolsonaro que representava uma ameaça clara à democracia brasileira.


Se por um lado a vitória petista, ainda que em nome de algo maior que o próprio Partido dos Trabalhadores, foi viável considerando o cenário destroçado do seu passado recente, por que a volta da extrema direita e do reacionarismo também não seria? É justamente a reorganização da extrema direita no Brasil e em outros países, como nos Estados Unidos, que tem novamente Trump como favorito para a disputa eleitoral pelo partido Republicano, que a atenção deve-se voltar novamente, pois ainda é cedo demais para concluir a derrota desse movimento tanto em terras brasileiras quanto ao redor do globo.


Mesmo com a consolidação da direita mais moderada como citado acima, ainda existem vestígios de extremistas buscando seu espaço político recém tirado, não por acaso, Lula vem enfrentando diversas derrotas nesse período inicial de governo para o legislativo. O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP/AL), apesar de manter uma relação próxima ao presidente Lula, se coloca numa posição de poder e influência, preocupado em pautar temas que são de seu interesse e de grupos que foram e ainda são a base eleitoral bolsonarista, escanteando as discussões de assuntos sensíveis ao governo federal.


É possível identificar a dificuldade de Lula em lidar com os mecanismos do presidencialismo de coalisão, principalmente após o ganho de autonomia e barganha do legislativo no governo Bolsonaro, e ainda, os recentes acontecimentos mostraram que mesmo com uma clara frente ampla desde sua candidatura até a distribuição de cargos ministeriais, há forte resistência da oposição que curiosamente participa do próprio governo. Uma das explicações é a de que a intenção e objetivo de boa parte dos partidos do centrão e da direita está muito mais alinhada em apossar-se novamente da arena política colocando-se como maioria outra vez, ocupando o espaço recém perdido.


Embora exista movimentações da extrema direita, em paralelo há ações para punir e investigar os responsáveis pelos atos golpistas no dia 8 de janeiro em Brasília, a recente cassação de Deltan Dallagnol e os processos que Carla Zambeli vem respondendo, sem esquecer é claro, do próprio Bolsonaro que a depender da situação poderá tornar-se inelegível. Não é preciso ter um olhar mais atento para perceber a conjuntura política atual se assemelhando ao momento de baixa enfrentado pelo atual presidente Lula, contudo, a figura que se encontra num cenário delicado é justamente o recém derrotado, Jair Bolsonaro.


Contudo, as acusações e responsabilizações devem ser feitas, em especial ao ex-presidente que atuou de forma omissa e com políticas negacionistas fomentadas durante seu governo. No entanto, é justamente o papel exercido de forma imparcial e legal da lei, que poderá ser usado por Bolsonaro como um instrumento de perseguição para construir a narrativa de vítima e preso político, podendo seguir na mesma linha do ocorrido com o presidente Lula, angariando cada vez mais apoio de sua base mais radical e enfervecida.


O apoio e a narrativa uma vez construída poderá ser comprada e propagada a depender dos interesses de grupos e organizações sociais poderosas, capazes de influenciar eleições. Não é difícil imaginar que Bolsonaro tenha ajuda mais uma vez para se eleger novamente como presidente da República, pois, se o ex-presidente conseguir implacar tal ideia, sua base se fortalece, e a depender dos resultados do governo Lula, poderá angariar respaldo de votantes descrentes ou descontentes com as políticas feitas durante o retorno do PT ao poder.



Recentemente foi iniciado o julgamento de Bolsonaro no TSE, devido às falas falaciosas do ex-presidente numa reunião com embaixadores de diversas nações sobre o processo eleitoral brasileiro. Em seu discurso, Bolsonaro, colocava em dúvida a seriedade e seguridade das eleições no país, indicando sem provas possíveis fraudes nas eleições que o elegeram, ficando evidente sua tentativa de utilizar a reunião e atores presentes para fins políticos que o favorecessem, indicando assim, abuso de poder.


Embora a situação descrita seja justa para um julgamento que o levou a ser declarado inelegível nos próximos 8 anos, é preciso ter em vista que essa poderá ser a chance perfeita de Bolsonaro para interpretar o papel de vítima e perseguido politicamente. Há ainda outras acusações referentes à sua família e durante seu governo, em especial no momento crítico da pandemia, que podem prejudicar e afastar Bolsonaro da vida política e poderão servir de combustível para a narrativa de que o ex-presidente está vivendo uma suposta caça às bruxas.


Ainda que haja incerteza sobre o resultado do julgamento no TSE ou se outras acusações e investigações poderão vir à tona e colocar Bolsonaro como réu, é fato que que o ex-presidente utilizará do recurso de construção de uma narrativa distorcida, pois ainda existe parte da oposição que o quer como presidenciável novamente. O que ainda não está claro, é se parte maior do eleitorado brasileiro comprará a ideia, já que, obter apoio de sua base mais fiel é importante, mas não é o suficiente para o eleger novamente.


Nesse sentido, Bolsonaro, precisará trabalhar na justificativa para convencer parte da população que sua situação está na verdade criando um ambiente ainda mais polarizado, movido a uma suposta perseguição ou vingança, promovida pela esquerda ou qualquer outro ator que lhe seja conveniente. Em recente pesquisa da Genial/Quaest, foi apresentado que 47% dos entrevistados são favoráveis a condenação do ex-chefe do executivo contra 43% que são desfavoráveis mostrando um cenário ainda divido, mesmo com o pêndulo para um saldo negativo para Bolsonaro.


É justamente com o cenário acirrado ainda polarizado que o ex-presidente poderá se beneficiar trazendo à tona uma vez mais um governo extremista e reacionário ao poder, numa das maiores democracias do mundo, angariando apoio para o retorno triunfante de outras figuras da política internacional da extrema direita. No caso do terceiro governo Lula falhar, o espaço de manobra para Bolsonaro é maior, sendo considerado inelegível ou não, o ex-presidente possivelmente se fortalecerá obrigando a esquerda a se colocar cada vez mais a direita e assim diminuindo progressivamente a arena de discussão plural na política e na democracia brasileira.


Bruna Dutra Ribas, formada em Relações Internacionais pela FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), local que lhe proporcionou desenvolvimento pessoal e profissional. Durante a graduação pode participar de diversas atividades acadêmicas como o MUMFMU, RI Ponta da língua, monitora voluntária em Política Externa e um Intercâmbio na Polônia para estudar sobre multiculturalismo e UE. Ademais, cursou dois semestres em Políticas Públicas na Universidade Federal Fluminense, porém, interrompeu os estudos para se dedicar ao cargo de trabalho atual como Analista de Operações LATAM.


Por fim, anteriormente havia realizado diversos voluntariados, entre eles, exercendo a função de redatora e revisora acerca de temas relacionados a conjuntura internacional.


Bibliografia:


KATZ, Claudio. O ponto fraco da ultradireita latino-americana. Outras Palavras, 2023. Disponível em https://outraspalavras.net/direita-assanhada/o-ponto-fraco-da-ultradireita-latinoamericana/

SANTOS, Natália. Brasileiros se dividem sobre julgamento no TSE que pode tornar Bolsonaro inelegível, mostra pesquisa. Estadão. São Paulo, 2023. Disponível em https://www.estadao.com.br/politica/brasileiros-dividem-julgamento-tse-jair-bolsonaro-inelegivel-pesquisa-nprp/

TRAUMANN, Thomas. O pós-bolsonarismo já começou. Veja. São Paulo, 2023. Disponível em https://veja.abril.com.br/coluna/thoma

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