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Relação entre Armênia e Azerbaijão – Parte 5

O conflito e seus interesses hoje

Os recentes conflitos entre os separatistas Armênios e as forças militares do Azerbaijão, deixam claro que a guerra que ocorreu, apesar de estar “congelada”, pode voltar a “esquentar” a qualquer momento. Mesmo após o cessar-fogo assinado em 1994, enfrentamentos esporádicos se tornaram mais comuns, conforme fomos entrando neste novo século.

Diversas escaramuças ocorreram desde o termino do conflito, porém, foi a partir que 2008 que os embates começaram a ficar mais comuns e violentos. Neste ano, e depois novamente em 2010, houve embates entre as forças dos dois lados que deixaram 74 mortos.

Entre 2011 e 2013 aconteceram pequenos enfrentamentos na região fronteiriça entre os dois países, deixando dezenas de mortos de ambos os lados. O ano de 2014 foi de intensificação do conflito com embates totalizado 27 soldados e 6 civis armênios mortos, além de um helicóptero derrubado, e 37 soldados e 2 civis mortos do lado azeri. Em 2015, conflitos esporádicos deixaram 42 soldados armênios e 37 azeris mortos.

No começo de 2016, dia 1 de Abril, um conflito envolvendo de um lado o exército do Azerbaijão, e do outro as forças militares da Armênia e o Exército de Defesa do Nagorno-Karabakh se desenrolou. Ambos os lados culparam o outro pelo início do conflito. Coincidentemente ele se iniciou enquanto ambos os presidentes se encontravam em Washington para uma cúpula sobre segurança (The Economist, 2016).

Oficialmente o conflito resultou na morte de 92 soldados armênios, mais de 100 feridos e 14 tanques destruídos.  O número de baixas no lado dos azeris é conflitante, indo de 35 até quase 100 dependendo da fonte, além da perda de drones, pelo menos um helicóptero e tanque (PanArmenian, 2016). O cessar fogo definitivo foi firmado em junho, com um encontro arquitetado pelo presidente russo Vladmir Putin, em São Petersburgo.

Interesses Internos

Nota-se uma clara escalada na tensão entre os dois países, principalmente a partir de 2010, com a ocorrência de embates cada vez mais violentos, ano após ano.  As razões e causas disso podem ser atribuídas tanto a fatores internos dos países envolvidos, quanto à fatores e influências externas, em uma área politicamente complexa.

O Cáucaso é uma região propensa a conflitos devido a sua localização, e a multiplicidade de povos e culturas que habitam a região, além de ser alvo de interesse das potências internacionais que o circundam.

É onde Ocidente e Oriente (Europa e Oriente Médio/Ásia Central) se encontram, onde cristãos e muçulmanos são vizinhos, e onde Turquia, Irã e Rússia estabeleceram como sua zona de influência. Além de ser uma área de grande produção de gás e petróleo ao redor do Mar Cáspio, sendo o Azerbaijão um dos pioneiros na exploração do combustível fóssil e um dos grandes produtor e exportadores da região. A variação do preço desta commoditie pode ajudar a explicar um dos fatores que serviram de gatilho do último confronto nesta guerra.

O Azerbaijão se aproveitou da sede por combustível da Europa Ocidental, e a partir dos anos 90, mas sobretudo após 2006, com a abertura do oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC) que leva petróleo bruto e gás dos campos de exploração de Azeri–Chirag–Gunashli no Mar Cáspio (através da Geórgia, até o Mediterrâneo, na cidade turca de Ceyhan), para se tornar um dos maiores fornecedores de combustível para os europeus.

O boom no preço do produto no mercado internacional que se viu nos primeiros anos do século XXI, e a nova alta do preço pós-crise internacional, foram responsáveis por um grande aumento no PIB do país, cuja exportação de petróleo cru, refinado e gás respondem por mais de 90% de todas suas exportações (OEC, 2016).

Esse aumento de capital propiciado pela alta do preço do combustível fóssil possibilitou, além de outras coisas, em um a aumento no orçamento militar de $117 milhões de dólares em 2003 para $3 bilhões em 2015 (The Economist, 2016).

O recente conflito com os separatistas de Nagorno-Kharabakh foi uma maneira que o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, pode ter encontrado para justificar os gastos, e também para ganhar popularidade em uma causa em que os azeris historicamente saíram perdendo, em um momento em que a economia do país vem sofrendo com a enorme queda no preço do petróleo de mais de 50% nos últimos anos.

Nos últimos dois anos o Banco Central do Azerbaijão gastou quase dois terços de sua reserva para segurar o valor da moeda país, enquanto a inflação e o desemprego aumentam, e o país cogita pedir empréstimo para o Fundo Monetário Internacional (The Economist, 2016).

A Armênia, por sua vez, sofreu um maior impacto com a crise internacional, uma vez que o país vinha crescendo a taxas de dois dígitos, financiado por capital externo, no período pós-crise cresceu uma média de 4%, com esse percentual caindo a cada ano, resultado direto do impacto da crise da Rússia (sua maior parceira econômica) nos últimos anos (Banco Mundial, 2016).

O aumento dos conflitos pode ter relação à má situação econômica atual de ambos os países, que se mantiveram relativamente pacíficos enquanto suas economias cresciam a grandes taxas no período do final dos anos 90 e início dos anos 2000.

Interesses Externos

O jogo de interesses por trás dos países com maior influência na região (Rússia, Irã e Turquia) é complexo e as alianças nem sempre acontecem do jeito que parece mais lógico, e isso incluí países que não tem presença direta na região, como Israel ou os países Europeus. A grande quantidade de minorias étnicas vivendo em países vizinho ao que são maioria, complica um pouco mais o cenário.

A Rússia é o grande aliado dos armênios, ambos são membros da Comunidade dos Estados Independentes (CEI) e participantes do sistema de defesa conjunta do CEI, juntamente com Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Belarus. Esses países também fazem parte da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), aliança militar fundada em 1992 por antigos membros da URSS, o Uzbequistão se juntou ao tratado em 2006. De acordo com esse tratado, a agressão a um de seus países membros, é uma agressão a todos os países membros.

A relação entre os dois povos é bem próxima, devido a sua história e as disputas entre cristãos e muçulmanos, que sempre ocorreram na região. Além disso, a Armênia sempre foi um país que se manteve na esfera de influência da Rússia, e ambos se beneficiaram disso (ao contrário da Geórgia, pró-UE).

Porém, apesar de toda essa proximidade entre eles, a aliança não impede os russos de serem os principais fornecedores de armamentos para o Azerbaijão. O país foi responsável por fornecer 85% das armas para seu vizinho ao sul (GRYGORIAN, 2016).

Os outros países-membro da OTSC, não tomaram a atitude esperada pelos armênios, de condenar publicamente a agressão azeri e se postar ao lado de seu aliado. A maioria se manteve neutro, ou teve reações e declarações que podem ser lidas como favoráveis ao Azerbaijão (Belarus e Cazaquistão), o que gerou uma reação negativa por parte da Armênia (KUCERA, 2016).

A sua vizinha Geórgia, que teoricamente teria uma proximidade com a Armênia por ambos serem cristãos, sempre foi muito mais próxima do Azerbaijão. Isso ocorre por diversos motivos. Um deles é a solidariedade da Geórgia em relação ao Azerbaijão e a região de NAgorno-Karabakh, pois ela tem um problema muito semelhante com a Rússia no que diz respeito as regiões de Ossétia do Sul e Abkhazia (Curtis, 1994).

Além disso, os georgianos sempre foram dependentes do petróleo comprado dos azeris, essa dependência econômica virou parceria quando ambos se uniram através do GUAM (Geórgia, Ucrânia, Azerbaijão e Moldova) – Organização para a Democracia e o Desenvolvimento Econômico e construíram o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC), que vai do Azerbaijão, passando pela Geórgia, até a Turquia, e de lá para a Europa.

A Turquia, por sua vez, é um aliado natural do Azerbaijão, ambos são culturalmente muito próximos já que falam línguas turcomanas (e seguem o princípio: uma nação, dois Estados), eles também têm laços comerciais muito próximos e além de os turcos terem sido os primeiros a reconhecerem a independência azeri da URSS. Desde 2010, os países assinaram um Acordo de Parceria Estratégica e Assistência Mútua, e projetos de integração energética (como os gasoduto e oleoduto já existentes) e de transporte tendem a se expandir (Ministério de Relações Exteriores da Turquia, 2016).

Assim como a Turquia, o Azerbaijão tem políticas alinhadas com o Ocidente, e ambos têm grande proximidade com o Estado de Israel. A Turquia foi o primeiro país muçulmano a reconhecer a existência do estado judeu, que atualmente é o segundo maior fornecedor de armas para os azeris (após a Rússia), e vê o país como um forte aliado regional.

Como contrapartida a essa proximidade entre Israel, Turquia e Azerbaijão, a República Islâmica do Irã mantém uma relação próxima com a Armênia. As razões dessa aliança são muitas: o antagonismo regional com Turquia e Israel e a ideologia pró-Ocidente que eles seguem. A disputa entre o modelo secular Kemalista contra o modelo islamita iraniano.

Mas o principal motivo seria a enorme minoria azeri, algo em torno de 16 milhões (mais que no próprio Azerbaijão), que mora principalmente no norte do país (The Worldfact Book, 2016). O país é constituído de diversas minorias e movimentos separatistas são sempre um perigo que pode surgir e desestabilizar a unidade do país, especialmente uma minoria que chega a quase 25% da população.

Por esses motivos, os iranianos são um importante aliado tanto da Armênia, quando dos armênios de Nagorno-Karabakh (chamados de karabachis) fornecendo armas para os separatistas, além de gás e petróleo para o país através do gasoduto, sendo um dos maiores parceiros comerciais do país.

Além disso, o Azerbaijão pode ser considerado como o grande concorrente do Irã quando se trata do mercado de petróleo e gás natural, e diferentemente dos persas, ele não faz parte da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e por isso tem total autonomia sobre a política de preços que oferece para os compradores de seu combustível, o que explica a preferência que os europeus e israelenses tem pelo produto azeri.

De modo que o conflito de Nagorno-Karabakh pode ser visto como um microcosmo da região em que está localizado, pois demonstra a existência de uma complexa rede de interesses e atores geopolíticos por trás dele. E pode ser utilizado por qualquer um desses países para impor a sua agenda de política internacional sobre uma região de extrema importância econômica devido ao petróleo.

Referências Bibliográficas

A Frozen Conflict Explodes. The Economist.  9 de Abril de 2016. http://www.economist.com/news/europe/21696563-after-facing-decades-armenia-and-azerbaijan-start-shooting-frozen-conflict-explodes

COFFEY, Luke. Nagorno-Karabakh is not a localized conflict. Aljazeera. 6 de Abril de 2016.

http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2016/04/nagorno-karabakh-localised-conflict-armenia-azerbaijan-160406081258222.html

World Bank Country Report. 2016. http://www.worldbank.org/en/country/armenia/overview

GRYGORIAN, Marianna. Angered at Arms Sales to Azerbaijan, Armenians Push Away from Russia’s Embrace. 3 de Junho de 2016. http://www.eurasianet.org/node/79066

KUCERA, Joshua. Armenia, Azerbaijan Air Grievances Against “Allies”. 2016 http://www.eurasianet.org/node/78266

Glenn E. Curtis, ed. Georgia: A Country Study. Washington: GPO for the Library of Congress, 1994.

PRIEGO, Albert. Armenia-Iran relations and their implications for Nagorno-Karabakh. UNISCI, 2007.  https://www.ucm.es/data/cont/media/www/pag-72542/1comentario.pdf

Atlas do Azerbaijão. OEC –The Observatory of Economic Complexity. 2016 http://atlas.media.mit.edu/en/profile/country/aze/

http://www.panarmenian.net/eng/news/210323/

Imagem: wikicommons

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