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Releitura de uma era de Guerra Fria: A versão sino-americana

As relações internacionais estão mudando, não de maneira pacífica, multilateral, abrangente. O que se vê é um revistar de experiências divisionistas, um mundo dividido por dois blocos antagônicos ideologicamente e que afetam os arranjos econômicos, comerciais, políticos e militares dos Estados protagonistas e suas respectivas zonas de influência.

Nesse ambiente, a terminologia de Guerra-Fria 2.0, amplamente difundida no meio de especialistas, acadêmicos e formadores de opinião em política internacional, marca o tom da nova interpretação das relações entre Estados Unidos e a China.

Em um contexto recente, na administração de Barack Obama (2009-2017), os realinhamentos de suas prioridades em política externa colocam luz sobre a Ásia, em detrimento ao Oriente Médio, fraturado por longas disputas que atraíram inúmeros grupos de interesse.

Essa política que ficou conhecida como Pivot para Ásia consistiu em ampliar as relações com diversos atores do sudeste asiático, dentre os quais, Vietnã, Filipinas, Malásia, Taiwan, bem como solidificar suas relações com os tradicionais parceiros, Japão, Coréia do Sul e Austrália, numa tentativa de isolar a China, que busca ser o contraponto das políticas de Washington para a região.

O referido contraponto é um caminho a uma ordem asiática, Beijing compartilha de um forte entendimento que há reequilíbrio no movimento atual, de avanço para um maior protagonismo, após uma intervenção não natural de Estados ocidentais ao longo dos últimos séculos.

Tal interpretação é compartilhada por Henry Kissinger, em sua obra “Ordem Mundial”. Para o ex-assessor de Segurança Nacional, secretário de Estado dos presidentes Richard Nixon (1969-1974) e Gerald Ford (1974-1977) e Prêmio Nobel da Paz em 1973, a ordem mundial que funcionou por mais tempo foi a que ficou sob jugo chinês.

Nesse sentido, o autor justifica refletindo sobre a trajetória mais complexa que o país percorreu, indo de uma antiga civilização, progredindo para um império clássico, passando por uma revolução comunista até alcançar características de grande potência dos tempos recentes.

O “sinocentrismo” tem forte apelo na China que se considerava o único governo soberano do mundo, o “Império do Meio” que aperfeiçoaria o restante da humanidade. Ainda segundo Kissinger, o imperador era tratado como uma figura capaz de unir o plano humano com o divino, legado expansionista cujo raio de ação era “tudo que existe sob o céu”.

Com essa convicção histórico-cultural na raiz do pensamento chinês, ao transportar a conjuntura para acontecimentos de tempos recentes a tensão crescente entre a potência estabelecida, Estados Unidos e a em ascensão, China redireciona as relações internacionais para um ambiente já experimentado.

Historicamente a potência em ascensão buscará interferir no status quo, ao passo que a potência estabelecida direcionará esforços para impedir o aumento da relevância de seu oponente tentando mantê-lo numa posição secundária no espectro geopolítico.

Para Kissinger no âmbito da política externa estadunidense há um receio entre os formuladores de estratégia ao projetar a China como ameaça a segurança interna dos EUA, da mesma forma que interpretava a União Soviética como um ator capaz de alcançar domínio econômico e principalmente militar em toda sua vizinhança resultando em sólido alicerce hegemônico.

A tendência atual de desacoplamento das relações China-EUA, de acordo com uma visão chinesa já está em curso acelerado, especialmente após Beijing anunciar estratégia de política externa que objetiva expandir seu território marítimo na região do Mar do Sul da China, ato considerado flagrante ameaça as diretrizes da Convenção das Nações Unidas sobre Direito do Mar (UNCLOS, na sigla em inglês).

Para o pesquisador do China Youth University of Political Studies, Cong Peiying, com 41 anos de relações diplomáticas, ambos os Estados desenvolveram um relacionamento interdependente, seus interesses e vínculos estão entrelaçados e indissociáveis, principalmente no campo econômico e comercial, entretanto esse desacoplamento parece ser inevitável, especialmente após Washington recorrer a ações diplomáticas que deferiram um duro golpe nas relações bilaterais, dentre eles o fechamento do consulado da República Popular da China em Houston, forçando Beijing, responder de forma recíproca e fechando o consulado estadunidense em Chengdu, na província de Sichuan. Outro movimento altivo e bastante simbólico para as relações sino-americanas foi o discurso do secretário de Estado, Mike Pompeo na Biblioteca Nixon, na Califórnia com forte conteúdo alusivo a uma nova guerra fria em curso.

Embora as recentes declarações sugiram uma ruptura, ainda segundo o pesquisador do instituto chinês, poderá haver mais perdas comerciais aos EUA, uma vez que estatísticas recentes apontam que com o impacto da pandemia da COVID-19 poderá onerar empresas norte-americanas que tem no mercado chinês uma importante fonte de receita.

Outro ponto levantado pelo pesquisador também sugere que a instabilidade econômica pós-pandemia atingirá também empresas americanas que dependem de componentes e peças fornecida pela China. As tarifas que a Casa Branca impôs aos produtos chineses prejudicaram os interesses dos próprios empresários americanos, principalmente as pequenas e médias empresas, o que também inviabilizou a volta dos empregos, principalmente no setor agrícola de grãos.

Liu Weiping e Yu Zheng, pesquisador do China Develpment Bank e professor do American and Canadian Economic Studies da Universidade de Wuhan respectivamente apontam para outro mecanismo da política estadunidense para a China, o novo Nafta, cuja nova denominação atende por Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês).

Nessa nova formação o acordo trilateral fornece não apenas novas regras de origem, direitos de propriedade intelectual, comércio digital, trabalho e meio ambiente, mas uma cláusula comumente conhecida como “pílula veneno”, presente no capítulo 32 do acordo.

Nessa cláusula sugerida pela delegação norte-americana há o entendimento que qualquer um dos três membros que assinar um acordo de livre comércio com outro Estado estará previsto o direito de retirada desse membro e substituir o acordo por um novo, de estrutura bilateral.

Para os dois pesquisadores citados, a cooperação regional com a cláusula “pílula venenosa” tem impacto direto, porém limitado sobre a economia chinesa, embora haja entendimento que no médio e longo prazo, aliado ao contexto de incerteza global o impacto na relação sino-americana dependerá do nível de disputa que ambos os atores estarão dispostos a investir nos níveis global, regional e bilateral.

De forma ilustrativa, o volume de comércio de Canadá e México não estão bem classificados entre os principais parceiros comerciais do “Império do Meio”.

Em 2018, pó exemplo, o total de importação e exportação de bens entre China e Canadá foi de US$ 79,5 bilhões, e entre a China e México foi de aproximadamente US$ 90,7 bilhões, o que representa 1,72% e 1,96% das interações comerciais totais de bens da China respectivamente.

Para o Canadá, plantas, papel, minerais, produtos químicos e produtos animais respondem por 64% de suas exportações para a China, enquanto minerais, equipamentos de transporte, equipamentos mecânicos e elétricos, metais básicos respondem por 83% das exportações totais do México para a China, o que mostra que as matérias-primas e produtos finais, todos com características de fácil substituição dominam as exportações canadenses e mexicanas para o país asiático.

Essa cláusula no USMCA também é estudada em acordos do EUA com outros parceiros comerciais como União Européia e Japão, contudo a lenta negociação inviabiliza a um cenário de China isolada no curto prazo.

No esforço militar, a China busca melhor posição, ao comemorar o 70º aniversário da fundação da República popular. Foram apresentadas as novas armas da indústria armamentista, o míssil intercontinental DF41, capaz de atingir qualquer país a partir do seu território, o bombardeio estratégico H-6N com autonomia de combate de aproximadamente 5.000km e o JL-2, também da classificação intercontinental, porém sua base de lançamento é feita por submarino.

Com base nos dados da Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI, na sigla em inglês) é possível observar que o gasto militar chinês em equipamento militar saltou de 1% de seu PIB no período da Guerra Fria, menor que de países como Itália e Kuwait, para 14%, com um processo de modernização das Forças Armadas liderados por presidente Xi Jinping.

Com a modernização proposta na administração Xi, o gigante asiático também obteve lucros com exportações, o Paquistão, ex-aliado na guerra contra o terror promovida pelos EUA é um de seus principais clientes, assim como Bangladesh e Mianmar.

Alguns analistas nos EUA entendem que com os investimentos pesados no setor militar chinês, a vulnerabilidade estadunidense no pacífico é sinônimo de preocupação em Washington. O Pentágono reconhece tal cenário e alerta para a necessidade de novas estratégias para a região no pacífico sul.

Em geral o armamento e as capacidades do Exército Popular da China continuam longe dos norte-americanos, porém algumas visões pessimistas como a do ex-diretor do Comitê das Forças Armadas no Senado, Christian Brose colocam em dúvida a capacidade de resposta dos EUA a um eventual ataque das forças militares chinesas.

Segundo Brose, os EUA poderiam sair derrotados e cita um panorama em que as bases de Guam, Japão e Coréia do Sul poderiam sofrer pesados bombardeios de mísseis, os porta-aviões seriam indefensáveis nas proximidades do litoral chinês e os caças ficariam fora de combate pela falta de aviões de reabastecimento.

Na iminência de reverter tal situação, militares do alto escalão no Pentágono alertaram na Câmara dos Representantes que há urgência em adotar novas estratégias e da necessidade de investimento, o que configura uma nova corrida armamentista, uma das características mais marcantes do período pós Segunda Guerra.

Com o advento da Guerra Fria, o mundo polarizado ficou sob jugo de uma linha tênue minar os esforços multilaterais de convivência pacífica. Ao que parece as lições de um passado distante terá um ciclo renovado de novas ameaças.

Victor José Portella Checchia é formado em Relações Internacionais pela Faculdades de Campinas (FACAMP), com pós-graduação em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD). Atuou como articulista em Política Internacional para o Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) ao longo de quatro anos. Teve passagens pela Prefeitura Municipal de Campinas, na antiga pasta de Cooperação Internacional, hoje Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Tem experiência em questões relacionadas o Comércio Exterior, no atendimento a clientes internacionais, projetos de internacionalização de empresas, cooperação econômica e paradiplomacia.

Bibliografia:

KISSINGER, Henry. Ordem Mundial. Editora Objetiva.

TAVARES de Oliveriaa, Carlos. Estados Unidos e China. O desafio econômico. Editora Aduaneiras, 2001.

CHOMSKY, Noam. O Império Americano. Hegemonia, ou sobrevivência. Editora Campus.

MANN, Michael. O Império da incoerência. A natureza do poder americano. Editora Editora Record.

https://global.chinadaily.com.cn/a/202007/30/WS5f220377a31083481725cf98.html

https://global.chinadaily.com.cn/a/202008/01/WS5f24ca11a31083481725d8ce.html

https://ustr.gov/usmca

https://brasil.elpais.com/internacional/2020-07-27/eua-x-china-cenarios-da-nova-guerra-fria.html

https://sipri.org/databases/milex

https://www.cfr.org/report/military-confrontation-south-china-sea

CEIRI, Centro de Estudos, Inteligência e Relações Internacionais, author Victor José Portella Checchia

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