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Resenha livro: Narrativa dos Ratos, uma epopeia da tomada do poder

Rato…Um termo cuja conotação negativa é usada frequentemente pela sociedade para designar determinados políticos e pessoas quando cometem ou são relacionadas com crimes de corrupção, malversação, peculato, obstrução, prevaricação, desvio de recursos, entre outros…

A figura do roedor, ora adorado em determinadas culturas ou como uma personagem de desenhos e filme, ora considerado uma praga, de fato reflete bem essa relação entre a sociedade e aqueles que detém o poder e os recursos. Ao final nenhum outro mamífero está tão adaptado a raça humana quanto o rato.

Presente em todos os países, independente do sistema econômico ou político, do clima, do relevo, da cultura ou da religião… Existem mais ratos por metro quadrado que habitantes nas cidades, sendo sem dúvida uma espécie que em muito se parece ao ser humano quando pensamos na sua relação com os recursos e na sua proliferação e distribuição pelo planeta.

Com essa analogia, o autor Edney Firmo Abrantes, advogado, politólogo, professor e doutor em comunicação, além de co-fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais, começa sua nova obra “Narrativa dos Ratos: A Epopeia da tomada do poder”.

Já conhecido pelo seu livro “Construção e Desconstrução imagética dos políticos, nas campanhas eleitorais” `publicado pela mesma editora Lumen et Virtus. O professor Edney Firmino Abrantes, nos apresenta uma nova obra caracterizada pelas diversas analogias, repasso histórico e simbologias de fácil reconhecimento.

Uma forma didática de conhecer as dinâmicas de poder e sua relação com a sociedade, construída mediante uma narrativa que se expressa mediante parábolas ou associações e paralelismos, onde os protagonistas da história são os ratos e sua contribuição e participação da história humana.

Sem dúvidas a escolha por este animal, chama a atenção do leitor, já que foge da visão romântica, alimentada por diversas filosofias, que associa ao ser humano à sociedades cooperativas tais como as formigas ou as abelhas, onde a divisão de classes parece ser de ordem natural e que existe um objetivo em comum que infunde valores e mantém uma determinada ordem.

No seu livro, O autor usa a própria história dos roedores para revisar os acontecimentos da história desde a Idade Média e a peste negra, em uma viagem que nos leva aos tempos modernos, dotando de características humanas a empreitada dos roedores. O que remete sem dúvidas aos processos de colonialismo e pós-colonialismo tão discutidos nas áreas de ciências sociais e humanas.

Sua relação com cada país e suas nações e como estes acabam organizando um levante contra o ser humano, da mesma forma que outras obras tais como a Revolução dos Bichos (George Orwell) ou O planeta dos Macacos (Pierre Boulle), reclassifica as lutas sociais e por recursos, desassociando a figura do rato da nossa concepção e semântica e lhe atribuindo muita vezes o papel de protagonista dos relatos picarescos presentes na literatura latina. Fazendo com que o leitor esteja muitas vezes a favor dos roedores em lugar dos seus congêneres.

Essa provocação justamente é a que atribui um caráter excepcional a obra já que se usa de construções e desconstruções que todos possuímos e nos transferem a um ponto de vista diferente, algo que muitos poucos livros conseguem nos tempos atuais de polarização política e pós-verdades.

Os ratos, aos quais associamos as nossas mazelas urbanas e a visão que temos deles, são de fato fruto da nossa própria ação humana, da mesma forma que os dominantes inferiorizam as classes mais baixas, levando ao leitor a uma profunda reflexão de forma quase inconsciente.

E no auge da obra, já não sabemos diferenciar quem é a praga, os roedores ou os humanos, dentro de um cenário onde a limitação de recursos e coexistência são a amalgama do futuro.

Os conhecimentos na área de comunicação do autor, que é doutor nessa matéria, são perceptíveis ao longo da obra, assim mesmo a historiografia utilizada muitas vezes nos remete a sua localização geográfica e própria concepção da sociedade e do mundo, sem fazer demasiadas dilações sobre as diferenças entre determinadas bases culturais que de fato pesam na própria disposição da sociedade, dos recursos e na sua evolução, o que poderia impactar nos planos de alguns roedores.

Porém é justamente essa visão formada desde a periferia global que proporciona maior solidez ao texto, já que por experiência empírica do autor, o paternalismo existente em países do norte global não está presente na obra, de modo que a transformação pode se originar em diferentes pontos.

O uso de autores clássicos e famosos expoentes da ficção, convida mais a uma reflexão que ao julgamento da obra, ainda assim a mesma poderia, e deve de fato se encaixar em um contexto futurista, quanto a visão do próprio caminho a ser tomado pela humanidade em tempos de grandes paradigmas e transformações, e que as mudanças podem depender de pequenas ações ou reflexões, ou de levantes instrumentalizados…

Essa percepção gerada mediante o uso de fábulas sem dúvidas foi uma importante ferramenta que não somente produziu reflexões na sociedade humana ao longo de sua história, mas que também universalizou a discussão e reflexão social… Ao final… Poucos entendem obras complexas dos teóricos da Política, Economia ou Filosofia, mas todo mundo entende, como funciona os ratos…

Sobre o Autor:

Edney Firmino Abrantes é advogado, politólogo e doutorado em Comunicação pela UMESP. Co-fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais, autor do livro “Construção e Desconstrução imagética dos políticos, nas campanhas eleitorais” e professor visitante da ECA/USP.

Referências:

Abrantes, Edney Firmino – Narrativa dos Ratos: A epopeia da tomada do poder, Editora: Lumen et Virtus. São Paulo, 2020.

Orwell, George – A Revolução dos Bichos. Editora. Cia das Letras, São Paulo.2018.

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