SERIA O HOMEM UM ANIMAL POLÍTICO?
- CERES

- 25 de jun.
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O presente artigo, sem a pretensão de ser uma exegese exaustiva, propõe uma breve reflexão acerca do interesse político do brasileiro, fundamentando-se na análise do interesse político do ser humano em geral. Para tanto, partiremos da premissa de Aristóteles em A Política: a de que o homem é um animal político por natureza. Em contraponto, utilizaremos a perspectiva de Thomas Hobbes em seu celebre título Leviatã, especificamente o conceito de Estado de Natureza, que contesta a sociabilidade inata aristotélica. Por fim, analisaremos o comportamento social e o real interesse político do cidadão brasileiro contemporâneo.
Em A Política, livro cujo título já denomina sua essência, Aristóteles afirma que o homem é um animal político, social. E o que nos difere de outros animais, também sociais, como as abelhas e as formigas, é que temos o Logos, discurso, a palavra. Dessa forma, o Filosofo pretende elevar o homem aos demais animais, uma vez que, por sermos dotados da palavra, podemos produzir discurso sobre o que é justo, útil, bom, prejudicial.
O Filosofo, em Ética a Nicômaco, ainda eleva mais o homem na necessidade do ser humano em interesse político, social. Aristóteles afirma que para a Eudaimonia, ou seja, a felicidade só é conquistada na pólis, na cidade, no envolvimento político, pois o homem não consegue ser plenamente virtuoso sozinho.
Na antiguidade alguém que vivia exclusivamente para seus interesses privados era chamado de idiotes (idios significa privado, próprio) ou seja, o “cidadão” que não participava da vida pública, era, de fato, um idiota. Para Aristóteles e seus contemporâneos, não participar da vida pública era uma renúncia à própria essência humana, já que o homem só se realiza plenamente no coletivo, pois, como supramencionado, o homem só pode ser feliz, vivendo uma vida política, pública.
Quem nunca ouviu “o homem é um animal político” em algum momento de sua vida? Mas seriamos mesmo seres dotados de interesse político em sua essência? Para sermos felizes precisamos mesmo viver uma vida pública?
Hobbes rompe com a tradição ao refutar o pensamento de Aristóteles, pilar da Escolástica medieval. No Leviatã, o Filósofo inglês dedica um capítulo à desconstrução da premissa de que somos seres naturalmente políticos, lançando as bases para uma compreensão moderna do Estado baseada no contrato, e não na natureza.
O homem, para este filosofo não é feito para a política, é acomodado e não liga para o social, além do mais, o homem acha desconfortável conviver em sociedade, não nasceu para o convívio social. Hobbes cita que, da natureza humana, existem três principais causas que geram disputa: competição, desconfiança e glória. Fazendo que com a vida do homem seja “solitária, pobre, embrutecida e curta”, dessa forma, como é sabido, o autor defende um estado de natureza humano não político, senão de guerra de todos contra todos.
No capítulo XVII, do referido livro, Hobbes refuta a ideia de que o homem é um animal político elencando 6 pontos contrários. Não os elencarei todos aqui, apenas alguns:
Diferente de Aristóteles, Hobbes vê no logos um problema: pois o homem usa da retórica para a manipulação, induzir ao erro, para fazer o mal parecer bem, semeando o caos. Também, se pode julgar o governo, ao passo que muitos se acham mais sábios que os governantes o que gera o desejo de reformas e consequentemente, desordem, algo que não existe no mundo animal.
Para refutar a analogia de Aristóteles sobre as abelhas e as formigas, o autor diz que os homens estão sempre em competições por honras e glórias e, por conseguinte, surgem entre os homens a inveja, o ódio e finalmente as guerras, e os animais não têm essa percepção de coisas.
Outro ponto a se mencionar é que para os animais mencionados pelo filosofo da antiguidade, não existe uma diferença entre bem comum e bem privado. Já o homem só encontra felicidade se comparando com outros homens, o que gera contenda, pois o prazer do homem está no que é eminente.
Não só Hobbes, mas outros contratualistas, a saber, por exemplo, John Locke e Rousseau, pensam o poder político como sendo algo artificial e não natural, ou seja, sem inclinações do homem à política, mas sim havendo uma necessidade de se constituir tal poder soberano.
As argumentações acima são puramente teóricas, então passemos a uma realidade, à nossa, do brasileiro.
Boris Fausto, em seus trabalhos sobre a história do Brasil, mostra que na República Velha, um presidente era eleito com 1,5%, 2%, 3% dos votos da população brasileira. Neste período, é sabido, muitos não podiam votar, o voto era elitizado, ou seja, no passado, o brasileiro não era um "animal político" porque era legalmente impedido de sê-lo. Na República Velha, com apenas cerca de 2% a 3% da população votando, a política era um jogo de cartas marcadas das elites, das oligarquias que ainda hoje tem ecos no congresso. Aqui, o brasileiro era um idiotes à força.
Mas e hoje? O voto é universal, livre para todos (de acordo com algumas regras constitucionais) porém é visto não como algo a ser exercido com paixão, com consciência, senão como um fardo, uma necessidade, logo, se o homem fosse naturalmente político, ele não veria o dia da eleição como um "feriado" ou um fardo, mas como o ápice de sua natureza. O desinteresse sugere que o brasileiro vê o Estado apenas como um contrato de conveniência: ele quer segurança e serviços, mas não quer o "desconforto" como diz Hobbes da participação ativa.
Talvez pelo mal-uso do Logos, o qual para Hobbes é um problema, e hoje mais que nunca o é, pois a desculpa de muitos brasileiros ao desinteresse político é a polarização, o discurso inflamado, de ódio, as fakes News, o que torna o cenário político caótico e assim exaurindo o eleitor e fazendo-o preferir se isolar longe da política uma vez que o ambiente político se tornou tão degradado que o cidadão prefere se tornar um idiotes (focar no privado) para fugir do "desconforto" social que Hobbes descreveu.
Nas últimas eleições, mais precisamente as de 2014, 2018 e 2022, percebe-se claramente o descaso de milhões de brasileiros com as eleições: em média 25% da população não votou num dos candidatos a presidente. se fizermos outro tipo de análise, os presidentes desse país, nesse período, não foram eleitos pela maioria da população votante. Embora o vencedor seja eleito com "mais de 50% dos votos válidos", quando olhamos para todos os cidadãos que poderiam votar, quase 62% da população apta não votou no candidato eleito em 2022, por exemplo, uma democracia que não representa a maioria.
Ano (2º Turno) | Eleitores Aptos | Não Votaram (Abst. + Brancos + Nulos) | Votos no Vencedor |
2022 | 156,4 milhões | 38,1 milhões (24,4%) | 60,3 milhões |
2018 | 147,3 milhões | 42,1 milhões (28,5%) | 57,7 milhões |
2014 | 142,8 milhões | 37,2 milhões (26,1%) | 54,5 milhões |
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral. Estatísticas do Eleitorado: Resultados. Brasília, Disponível em: https://www.tse.jus.br. Acesso em: 13 maio 2026.
O desinteresse do brasileiro pela política ainda se faz mais concreta quando observado dados sobre os votos para o legislativo. Segundo dados, poucos meses após a eleição, mais de 60% dos eleitores brasileiros não se lembram em qual deputado federal ou estadual votaram. No caso de senadores, o índice de lembrança é um pouco maior, mas ainda baixo.
Além do mais, a “escolha” em determinados candidatos, transparecidos em voto de “protesto”, como em candidatos analfabetos políticos, semianalfabetos, palhaços, atores pornôs, e muitas outras aberrações, evidenciam o descaso com algo tão sério quanto escolher seus representantes para o congresso.
Em pesquisas de percepção pública como as do DataSenado mostram que a falta de conhecimento não é apenas sobre "quem" são os políticos, mas sobre "como" o sistema político funciona: a maioria dos brasileiros tem dificuldade em distinguir as funções específicas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Grande parte da população não sabe como uma lei é criada ou o que o Legislativo faz além de "fiscalizar" (o que muitos confundem com o papel do Judiciário).
Esses dados retira o brasileiro da esfera aristotélica da cidadania ativa e o aproxima da condição de súdito hobbesiano, que delega o poder em troca de uma estabilidade distante, mas que não habita, de fato, a vida pública. Ou seja, não há como acreditarmos que o homem é um animal político.
“Quem não gosta de política é governado por quem gosta” essa frase ecoa em muitos imaginários, porém, há de se discordar dela também. Os próprios políticos não gostam de política, não como Aristóteles propunha, pois, a maioria dos que se elegem não estão lá pensando num bem público, na comunidade, na sociedade, no interesse comum, mas no privado, em seus interesses, em status e poder um “animal político idiota” o qual se insere na esfera pública pensando no seu privado.
Exercemos nossos direitos políticos não com amor ou com uma vocação, mas como uma forma de sermos deixado em paz em nosso canto, dentro de nossas casas, condomínios, isolados do mundo real.
REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. A Política. Tradução de Nestor Silveira Chaves. São Paulo: Edipro, 2019.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Edson Bini. Bauru, SP: Edipro, 2014.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Estatísticas do Eleitorado: Resultados das Eleições 2022. Brasília, DF: TSE, 2022. Disponível em: https://www.tse.jus.br. Acesso em: 13 maio 2026.
BRASIL. Senado Federal. DataSenado. Falta conhecimento do eleitor sobre o sistema político, aponta DataSenado. Brasília, DF: Senado Federal, 2022. Disponível em: https://www12.senado.leg.br. Acesso em: 13 maio 2026.
DATAFOLHA. Mais de 60% dos eleitores não se lembram do voto para deputado e senador. São Paulo: Grupo Folha, 2022. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2022. Acesso em: 13 maio 2026.
ESTADÃO. Datafolha: Congresso é desaprovado por 35% dos brasileiros. São Paulo, 2025. Disponível em: https://www.estadao.com.br. Acesso em: 13 maio 2026.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 12. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004. (Adicionei esta, pois você a citou no texto).
HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. Tradução de Rosina de Moraes. São Paulo: Martin Claret, 2014. (Série Ouro).

Genildo Pereira Galvão
Graduado em Relações Internacionais pelo Centro Universitário IESB. Cursou um semestre do seu curso na Universidad Autónoma de Guadalajara, México. Conquistou essa oportunidade em um programa de bolsas do Programa Santander Universidades, no qual ficou entre os 9 selecionados do processo seletivo de 2017. Iniciou uma Licenciatura em História, em 2021, que trancou para iniciar uma em Filosofia que segue cursando. Trabalhou no Ministério da Educação como Analista Jurídico Júnior pela THS Tecnologia.





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