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Teoria e Prática nas Relações Internacionais: pares em constante transformação


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A filosofia política sempre enfrentou uma questão central: pensar o governo ideal para a sociedade. Na busca por um modelo político de organização da vida social, os pensadores clássicos enveredaram por ricas reflexões acerca de princípios fundamentais sobre liberdade, autoridade e legitimidade. A maior parte deles ocupou-se, porém, das coletividades sociais voltadas para dentro, sendo quase unânime para a teoria política clássica a concepção de que os conceitos em questão não se aplicavam ao mundo externo.

O surgimento da Modernidade transformaria o pensamento no Ocidente ao apontar o homem como o sujeito do conhecimento. Renegando a origem divina e natural dos fenômenos físicos e sociais, viu-se o filósofo desafiado: todo conhecimento devia ser comprovado racionalmente. Isto significa que, sem a muleta da metafísica, os pensadores devem entender e explicar a realidade como um “sistema de causalidades racionais rigorosas que podem ser conhecidas e transformadas pelo homem[1].

Da racionalização do conhecimento, surgiu a Ciência Política, compreendida como “estudo dos fenômenos políticos conduzido com a metodologia das ciências empíricas e utilizando todas as técnicas de pesquisa próprias da ciência do comportamento[2].

Todavia, nem a Filosofia Política, como teorização do Estado, nem a Ciência Política, como conceitualização da política, conseguiram alcançar a realidade do sistema interestatal em sua abrangência.  À medida que o estatuto jurídico da soberania estatal e a competição capitalista entre as nações consolidavam-se como marcas da Era Moderna, e as relações entre Estados expandiam do casulo diplomático para as esferas civis, crescia a necessidade de se construir arcabouço teórico próprio para explicar e, eventualmente, solucionar os problemas internacionais.

Surpreendidos pela barbárie da Primeira Guerra Mundial, que muitos acreditavam superada pelo Iluminismo, intelectuais e estadistas mobilizaram-se, em seus respectivos campos, para transpor conceitos, ideias e leis da Filosofia e da Ciência Política à realidade internacional. Partindo de uma visão kantiana, propuseram a solução para a recorrência da guerra: fortalecer os princípios republicanos nas sociedades domésticas e regular as relações entre Estados através de instituições internacionais por meio de cooperação e normas.

À perspectiva idealista opunham-se os chamados hobbesianos. Acreditando que os Estados possuem natureza humana, ou seja, ambiciosa e agressiva, os realistas viam na paz apenas o intervalo da guerra.  Ao contrário das sociedades nacionais, que haviam hierarquizado o poder interno a fim de superar o estado de natureza desordenado, o sistema internacional era caracterizado pela anarquia e tinha, portanto, a guerra como padrão. Daquele que veio a ser o primeiro debate na disciplina de Relações Internacionais emergiu vencedor o Realismo Clássico, cuja compreensão da realidade se faz pela política de poder.

Muitos anos depois, Robert Cox[3] diria que toda teoria é normativa, no sentido de que não propõe, de forma neutra, a solução para um problema: o teórico induz a percepção da realidade. Nas Relações Internacionais, este atua como construtor de fatos e ideias, mantendo ou alterando as variáveis que determinam as dinâmicas de poder. Tal visão crítica, apresentada nos anos 80 do século passado, sustentava-se na explícita ligação entre as teorias racionalistas e a prática política das potências durante a Guerra Fria.

Àquela altura, a ordem global caminhava para um período de transformações teutônicas: em poucos anos, o fim da bipolaridade romperia os limites dos debates na disciplina, permitindo o alargamento da agenda e dos instrumentos teóricos para abarcar questões como direitos humanos, meio ambiente, segurança alimentar, desigualdade de gêneros e tantos outros, antes circunscritos ao campo nacional. Fronteiras sociais e políticas se expandiram e, com elas, os desafios teóricos de se pensar modelos ideais para uma sociedade globalizada, na qual o Estado-nação não é, impreterivelmente, o ator central.

Ao universo de escolas como Realismo, Escola Inglesa, Neoliberalismo, e mesmo ao materialismo dialético do Marxismo, somaram-se perspectivas construtivistas, críticas, pós-estruturalistas e pós-modernistas. Estudar teoria de Relações Internacionais é permitir-se entender dilemas contemporâneos por uma lente mais ampla do que propicia o senso comum e a vã filosofia midiática de nossos tempos.


[1] CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000, p.57.

[2] BOBBIO, N. Teoria Geral da Política. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000, p.67.

[3] COX, R. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory. Millennium: Journal of International Studies, 1981, 10(2): 126-55. p.128






SReis

Solange Reis Ferreira

Doutora em Ciência Política (Unicamp), professora de RI, pesquisadora do INCT-INEU e coordenadora do Observatório Político dos Estados Unidos. Especialista em Energia, Política Externa da Alemanha e dos Estados Unidos.

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