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Vidas precárias e violência internacional: a morte de crianças iranianas, libanesas e os enquadramentos da guerra contemporânea

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    CERES
  • 10 de jun.
  • 10 min de leitura

Flávia Abud Luz


As guerras de hoje em dia escancaram uma contradição que teima em existir no mundo: mesmo com um conjunto tratados e convenções que buscam proteger as pessoas em tempos de guerra — como as Convenções de Genebra e a Convenção sobre os Direitos da Criança —, a morte de civis ainda acontece frequentemente em ações militares. Ou seja, o fortalecimento das regras do direito internacional humanitário não tem conseguido evitar que os direitos humanos sejam constantemente desrespeitados.


Diante disso, as guerras atuais mostram um problema entre o que dizem convenções e tratados e o que os países e exércitos fazem na prática. De um lado, existe um número considerável de tratados e acordos que colocam a proteção de civis como prioridade, com regras como a diferenciação entre combatentes e não combatentes, a proporcionalidade e a necessidade militar. Do outro, os constantes ataques que matam pessoas que não estão lutando mostram as limitações dessas leis, principalmente quando confrontadas com os objetivos dos países, a desigualdade de poder e a ideia de segurança que guia muitas invasões.


Entre os civis mortos, a morte de crianças é algo muito sério, já que mostra que as leis internacionais não estão funcionando para proteger as pessoas e também revela como são frágeis as justificativas usadas para defender as ações militares de hoje — como as falas sobre “guerra cirúrgica”, “ataques precisos” ou “danos colaterais inevitáveis”.


Nesse sentido, as reflexões de Judith Butler sobre precariedade e enquadramento das vidas oferecem uma chave analítica importante para compreender como certos corpos — particularmente os de populações periféricas ou racializadas — tornam-se mais suscetíveis à violência e menos reconhecidos como vidas plenamente dignas de luto e proteção.


A intenção do presente texto é analisar a morte de crianças iranianas e libanesas em ataques militares, realizados respectivamente pelos Estados Unidos e Israel desde março de 2026, a partir da teoria da precariedade das vidas. Argumenta-se aqui que essas mortes revelam a existência de hierarquias globais de valor da vida humana, nas quais certos corpos são construídos discursivamente como menos enlutáveis e, portanto, mais vulneráveis à violência militar. Ao explorar essa dinâmica, busco contribuir para uma reflexão crítica sobre as relações entre guerra, poder e reconhecimento humano nas Relações Internacionais contemporâneas.


Mudanças na forma de fazer a Guerra, recorrência da violência e os debates nas Relações Internacionais


Os conflitos atuais são geralmente retratados como mais avançados tecnologicamente, exatos e controlados em comparação com as guerras de antigamente, que por sua vez eram marcadas pela extensa necessidade de atuação humana (das tropas) em solo. O progresso em armamentos teleguiados, aeronaves não tripuladas e sistemas de monitoramento de ponta fortaleceu a ideia de que as ações militares atuais conseguiriam diminuir consideravelmente as fatalidades entre os não combatentes. Apesar disso, essa esperança coexiste com a continuidade da agressão contra os cidadãos, mostrando uma divergência entre o que se diz e o que realmente acontece.


Nesse sentido, a tensão mais proeminente no campo das Relações Internacionais não diz respeito ao questionamento com relação à soberania estatal – elemento clássico das discussões de poder, sua distribuição e equilíbrio no sistema internacional – mas sim na maneira com que a gestão populacional, aspecto relacionado ao poder do Estado, tem ocorrido de maneira não usual, explico. A gestão da população compõe a função do Estado moderno, integrando-se às dimensões da autonomia, soberania e legitimidade, que no contexto dos atuais conflitos internacionais tem sofrido um certo abalo pois tal gestão vivencia interferências externas ao Estado e que tem sido determinante para a condução de uma dinâmica diferencial de gestão, aspecto este que faz necessário retomar as contribuições de Michel Foucault (2008) sobre a biopolítica.


Ao tratar o tema da biopolítica, Foucault (2008) discutiu que tal conceito demonstrava as formas de exercício do poder no Ocidente e em compasso encadeado com o conceito de governamentabilidade (basicamente a ideia de “arte de governar”, por meio de um conjunto de instituições, técnicas, saberes e estratégias voltados às populações que compõe um Estado) apresentava as diferentes formas pelas quais o comportamento das pessoas passa a ser organizado ou padronizado pelo Estado. A biopolítica diz respeito justamente às táticas, ao conhecimento e à lógica usados para guiar o comportamento, ou seja, não substitui outras formas de poder, mas se soma a elas, especialmente ao poder disciplinar. Assim, opera por meio dos chamados dispositivos de segurança, que são centrais no curso. Diferentemente da disciplina (que isola e normatiza) ou da soberania (que proíbe), os dispositivos de segurança trabalham com probabilidades e riscos; buscam regular processos ao invés de suprimi-los completamente; e aceitam certos níveis de fenômenos (como criminalidade ou doença) dentro de margens consideradas “normais”.


No contexto dos conflitos contemporâneos, essa lógica de gestão populacional se articula com práticas que expõem determinados grupos a níveis mais elevados de vulnerabilidade: aqui a noção vaga de “danos colaterais” é muito importante no discurso público que visa “justificar” moralmente algo que não deveria, nominalmente a morte de civis.


Quando se fala em mortes de civis como consequências normais da guerra, isso ajuda a tirar a política da esfera da violência, ou seja, busca mostrar que qualquer ação tida como violenta não condiz com a ação central que visa ser justificada, como por exemplo a incursão em um Estado sob a alegação de prevenção com relação a um perigo iminente. Nesse sentido a moralidade retorna como parte de um discurso “legítimo” de uso de força e a partir daí ocorre uma normalização das referidas mortes.


Ao refletir criticamente sobre a guerra, seus efeitos e a construção social do luto a filósofa Judith Butler (2015) destacou que como vemos a guerra é crucial para decidir quais vidas são importantes o suficiente para serem lembradas e choradas, e quais não são, estabelecendo assim uma espécie de hierarquia para o luto. A dinâmica apontada por Bulter vai ao encontro de reflexões do filósofo camaronês Achille Mbembe, que ao refletir sobre a realidade vivenciada pela população palestina cunhou o conceito de necropolítica – ou a política de morte – para retratar como algumas mortes geram intensa comoção e mobilização política, enquanto outras permanecem invisíveis ou são rapidamente absorvidas por narrativas estratégicas.


A partir da justaposição das ideias de Frantz Fanon (em sua obra Condenados da Terra, originalmente publicado em 1961 acerca da luta anticolonial e da violência relacionada ao processo) bem como do conceito de biopolítica de Foucault, que Mbembe destacou como a necropolítica influencia a valorização da vida humana no sistema internacional, ou seja, o autor foi capaz de apresentar como ocorre a composição de forças que permite a um Estado contemporâneo exercer “o poder e a capacidade de ditar quem pode viver e quem pode morrer (Mbembe, 2018, p.5)”.


A violência observada nos recentes conflitos não pode ser compreendida apenas como um instrumento de política externa, mas como parte de um regime mais amplo de produção de desigualdades na distribuição da vida e da morte. Assim, evidencia-se que a função de gestão da população, antes delegada ao Estado, vivencia interferências externas à sua própria ação e são justamente tais interferências que têm alterado a condução da gestão, reforçando uma dinâmica diferencial de gestão. No atual conflito dos Estados Unidos com o Irã podemos verificar a falta de preocupação da condução norte-americana em infligir dor e morte à população civil iraniana como um todo, mas em particular junto àqueles que necessitam de maior proteção do Estado persa: as crianças.


A precaridade no centro dos enquadramentos de guerra


            O primeiro elemento da retórica de Judith Bulter que pode ser destacado para auxiliar em nossa reflexão crítica aqui sobre a violência e o valor atribuído à vida de determinadas populações nacionais em contexto de conflito é a noção de precaridade.


Em Vida Precária – os poderes do luto e da violência (2019) a filósofa Judith Bulter discute que a relação entre a precaridade, a violência, e a guerra não ocorre ao acaso, ou seja, ela é fruto de uma interação intencional entre a noção de precaridade (em um sentido ontológico) e precaridade induzida (em um sentido político, prático).  Em seu sentido ontológico, a precaridade pode ser compreendida a partir da ideia de que a vida humana é naturalmente vulnerável e precisa de apoio social e político para existir. Porém, é importante destacar que essa fragilidade não atinge todas as populações de forma igual, ou seja, determinados indivíduos se tornam mais vulneráveis dependendo de fatores como as desigualdades econômicas, fatores sociopolíticos e geopolíticos também.


            Por sua vez, em seu sentido político a precaridade induzida está mais relacionada à forma com que a vulnerabilidade é distribuída de maneira desigual, ou seja, alguns grupos sociais enfrentam situações mais difíceis do que outros por causa de escolhas políticas, econômicas e sociais que não são necessariamente feitas por eles. Assim, dependendo do contexto certas populações (geralmente aquelas consideradas mais vulneráveis, como imigrantes, mulheres, crianças) possuem menos proteção por parte do Estado; sofrem diversas formas de violência (física, psicológica e até mesmo sexual), e têm suas vidas parcialmente “lidas” como relevantes.


            É a partir do conceito de frames (enquadramentos) que Bulter (2015) discute que a forma como falamos, cobrimos ou analisamos os conflitos contemporâneos que define a percepção pública do conflito. Aqui somos, enquanto sociedade, responsáveis por elaborar e manter a estrutura discursiva que sustenta e/ou define quais vidas são tidas como “humanas plenas” e passíveis de luto, ou seja, são os enquadramentos ou discursos que determinam quem pode ser considerado “vítima ou vilão”. 


            Aqui cabe destacar que a distinção entre “vidas enlutáveis e não enlutáveis” se torna central no argumento da autora. As vidas enlutáveis em geral são aquelas cuja perda é reconhecida como significativa, gerando forte comoção e mobilização social. Já as vidas não enlutáveis são aquelas cuja morte não produz ruptura moral relevante, ou seja, a perda das mesmas frequentemente é naturalizada ou invisibilizada.


Crianças iranianas, libanesas e a política da invisibilidade


Entre os civis mortos nos recentes conflitos contemporâneos um destaque relevante deve ser feito com relação à morte de crianças, visto que a continua perpetuação de tal prática demonstra que as leis internacionais não estão funcionando para proteger as pessoas e também revela como são frágeis as justificativas usadas para defender as ações militares de hoje — como as falas sobre “guerra cirúrgica”, “ataques precisos” ou “danos colaterais inevitáveis”.


Embora em termos normativos as crianças costumam ser associadas à inocência e à vulnerabilidade e foco quando se trata de proteção, de acordo com o direito internacional, observamos que na prática, essa pretensa proteção universal não se reflete sempre em ações políticas concretas.


Quando crianças perdem a vida em ataques militares, é muito comum que suas mortes sejam esquecidas em meio a discussões sobre segurança e estabilidade regional ou internacional. O referido processo só ocorre pois o foco muda de lugar: ao invés de se lamentar a perda de vidas humanas, as pessoas começam a falar sobre os motivos pelos quais os ataques foram necessários.


Ao analisarmos o massacre na escola de Minab (Irã) e o bombardeio contínuo contra civis no sul do Líbano a precaridade induzida descrita por Bulter (2019) deixa de ser um conceito abstrato e torna-se uma política de Estado endossada pelo silêncio das instituições internacionais. Aqui a forma a forma com que Irã e Líbano são apresentados como uma ameaça cria uma espécie de percepção geral que permite que a morte de civis, incluindo crianças, seja vista como algo menos importante. 


A omissão da comunidade internacional opera como um filtro seletivo: ela reconhece a dor (inclusive diversos meios de comunicação utilizam imagens do ocorrido para “retratar” o dia a dia dos conflitos) mas nega a essas crianças o estatuto de “vida protegida”, explico. Quando a morte de centenas de meninas em meio ao ambiente escolar é tratada como um erro de inteligência e não como um crime de guerra (que exigiria um tratamento específico com relação à responsabilização) o que ocorre é um processo de afirmação da premissa de Bulter (2019) e Mbembe (2018) de que certas populações têm sua vida gerida de maneira que sua existência ou morte fazem parte do processo e suas perdas não deixam sequer um rastro no luto oficial do Ocidente.


E é nesse contexto que algo mais grave ressoa: a omissão é (e precisa ser entendida) uma decisão política, ou seja, não se ocorre por um vácuo de ação mas sim pela intenção de seguir de acordo com uma espécie de ontologia social presente no sistema internacional que pré-determina quem merece proteção.


 Embora em ambos os casos aqui discutidos (as recentes mortes de crianças no Irã e no Líbano) a gestão de tal população vulnerável por parte do Estado apresente suas falhas, é a ação externa a ele que determina, em última instância a vida e/ou a morte. Tal processo só é “possível” por conta das fragilidades relacionadas à soberania estatal e a naturalização de que a morte e a precaridade fazem parte do cenário social e político do Oriente Médio como um todo, pensamento que só reforça a crítica de Mbembe (2018) sobre a existência de zonas de exceção pelo mundo em que a morte e a vida caminham lado a lado e as desigualdades social, política e econômica se propagam enquanto em outras áreas a vida é valorizada e protegida.


Conforme Bulter (2015) discute, de um lado observamos que a indiferença coletiva se estrutura e expande ao longo do tempo e de acordo com interesses políticos e econômicos; enquanto que de outro certas populações são deixadas no esquecimento.


Referências Bibliográficas

BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto?. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

BUTLER, Judith. Vida precária: os poderes do luto e da violência. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

FOUCALT, Michel. Segurança, território e população: curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. 3ªed. São Paulo: N-1 Edições, 2018.


Flávia Abud Luz

Professora de Relações Internacionais. Doutora em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Esp. em Política e Relações Internacionais pela FESPSP e Bacharel em Relações Internacionais pela FAAP. Áreas de interesse: Teorias pós-coloniais, Relações Sociais de Gênero, Direitos Humanos e Movimentos de Mulheres, Conflitos Internacionais, Política e Religião, especialmente temas relacionados ao Oriente Médio (sub-áreas Levante e Golfo Pérsico); política doméstica libanesa.  Autora dos livros " Feminismo Islâmico, Movimentos Sociais e a Reconstrução dos Direitos das Mulheres no Marrocos (Editora Appris, 2025)" e "A apropriação dos conceitos de martírio e jihad pelo Hezbollah e a questão da violência como resistência (Editora Appris, 2020)". Atualmente desenvolve pesquisa acerca das relações entre gênero, religião e Relações Internacionais. Integrante dos grupos de pesquisa Ylê-Educare: Educação e Questões Étnico-Raciais (PPGE/Uninove); Gina - Grupo de Pesquisa em Gênero, Raça e Interseccionalidades; Direito à Educação, Direitos Humanos e Políticas Públicas (UNIAN/SP); Grupo de Estudos e Pesquisa em Movimentos, Interseccionalidade e Políticas Educacionais na América Latina - GEMINAL (Univas/MG). É filiada à Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI).

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