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Da rivalidade à cooperação: Japão e Coreia do Sul na nova ordem regional

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  • há 4 horas
  • 6 min de leitura

João Pedro Nascimento


As relações entre Japão e Coreia do Sul passaram, desde 2025, por um processo de significativa reconfiguração, marcado pela consolidação de uma agenda de cooperação em meio à permanência de antigas disputas históricas e territoriais. Diferentemente dos ciclos anteriores, caracterizados por sucessivas crises diplomáticas relacionadas à memória da ocupação japonesa, às controvérsias sobre compensações de guerra e à disputa pelas ilhas Dokdo/Takeshima, os governos atuais estão buscando compartimentalizar essas divergências e impedir que elas dominem toda a agenda bilateral.


A chegada de Lee Jae Myung à presidência sul-coreana inicialmente gerou preocupação em Tóquio, sobretudo devido ao histórico de críticas do líder progressista à política japonesa adotada por governos anteriores. De forma semelhante, a ascensão de Sanae Takaichi ao cargo de primeira-ministra japonesa levantou dúvidas em Seul, em razão de sua posição nacionalista e de sua proximidade ideológica com o legado de Shinzo Abe. Entretanto, ambos os governos rapidamente demonstraram uma postura pragmática, orientada pelos interesses estratégicos nacionais e pela deterioração do ambiente internacional.


Assim, consolidou-se um processo de normalização política baseado não na resolução dos conflitos históricos, mas na criação de mecanismos capazes de impedir que esses conflitos inviabilizem a cooperação em áreas consideradas prioritárias. Essa mudança representa uma importante transformação qualitativa nas relações bilaterais, uma vez que o relacionamento passa a ser guiado por assuntos associados à segurança regional, à competição tecnológica e à estabilidade econômica.


A principal força motriz desse processo é o agravamento do ambiente de segurança no Leste Asiático. A continuidade do programa nuclear e balístico norte-coreano, o fortalecimento da parceria estratégica entre Rússia e Coreia do Norte, a crescente assertividade chinesa no Indo-Pacífico e as incertezas sobre o grau de comprometimento futuro dos Estados Unidos com seus aliados regionais criaram incentivos para uma aproximação sem precedentes entre Tóquio e Seul. Nesse cenário, a cooperação trilateral entre Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos passou a ocupar posição central na arquitetura regional de dissuasão. Os documentos conjuntos produzidos pelos três países destacam o compromisso com o fortalecimento da defesa coletiva, da coordenação estratégica e da capacidade de resposta diante das ameaças provenientes da Coreia do Norte, incluindo seus programas nuclear e de mísseis, atividades cibernéticas e mecanismos de evasão de sanções internacionais.


Como consequência, observa-se um processo crescente de institucionalização da cooperação em defesa. Reuniões regulares entre ministros da Defesa, exercícios militares conjuntos, grupos permanentes de trabalho, consultas estratégicas e o compromisso de realização de encontros anuais demonstram que a cooperação passa a assumir caráter permanente. Essa institucionalização reduz a dependência das preferências individuais dos líderes políticos e fortalece a previsibilidade das relações bilaterais.


Paralelamente, a agenda de segurança expandiu-se para além das questões estritamente militares. A crescente importância da segurança cibernética, da proteção de infraestruturas críticas, da inteligência artificial, da governança digital e da resiliência tecnológica demonstra uma ampliação do conceito tradicional de segurança nacional. Tanto Japão quanto Coreia do Sul reconhecem que sua competitividade econômica e sua segurança estratégica dependem da proteção de cadeias produtivas altamente sofisticadas e da preservação de sua liderança tecnológica.


Por isso, emerge a noção de segurança econômica como um dos principais pilares da aproximação bilateral. Ambos os países possuem economias altamente industrializadas, dependentes da importação de energia e profundamente inseridas nas cadeias globais de valor, tornando-se particularmente vulneráveis a choques geopolíticos. A interrupção parcial do fluxo energético proveniente do Oriente Médio, especialmente diante das tensões envolvendo o Estreito de Ormuz, reforçou a necessidade de mecanismos conjuntos de cooperação energética e de coordenação industrial. A cooperação passou a abranger áreas como diversificação de fornecedores, fortalecimento das cadeias de suprimentos de minerais críticos, desenvolvimento conjunto de tecnologias emergentes, inteligência artificial, semicondutores, segurança industrial e coordenação de políticas comerciais.


Sob a perspectiva sul-coreana, essa estratégia oferece uma importante vantagem política interna. Ao enquadrar a aproximação com o Japão como uma resposta pragmática aos desafios da competição tecnológica global e das transformações geoeconômicas, o governo reduz o custo político associado às memórias históricas da colonização japonesa. Assim, a cooperação é apresentada como uma necessidade decorrente dos interesses nacionais e das mudanças no ambiente internacional.


Apesar desses avanços, persistem importantes limitações estruturais. A disputa pela soberania das ilhas Dokdo/Takeshima permanece um dos principais focos de atrito entre os dois países. O governo sul-coreano continua reagindo oficialmente às reivindicações japonesas, protestando contra documentos oficiais, museus territoriais e declarações políticas que reafirmam a posição de Tóquio sobre o arquipélago. Da mesma forma, divergências relacionadas à memória histórica, aos livros didáticos e às visitas de autoridades japonesas ao Santuário Yasukuni continuam gerando desconfiança em Seul. No entanto, a principal mudança observada desde 2025 reside na capacidade crescente de administrá-las sem provocar rupturas diplomáticas de grande escala.


Também persistem diferenças estratégicas relevantes entre os dois países. Para a Coreia do Sul, a estabilidade da Península Coreana continua sendo prioridade existencial, fazendo com que Seul preserve maior abertura ao diálogo com Pyongyang e demonstre interesse em mecanismos de cooperação regional que incluam a China. O Japão, por sua vez, adota postura mais rígida em relação à desnuclearização norte-coreana e privilegia o fortalecimento do eixo estratégico formado por Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul como principal instrumento de estabilidade regional.


Essa assimetria torna-se particularmente evidente na questão norte-coreana. Enquanto Tóquio enfatiza a desnuclearização completa e a resolução imediata do problema dos cidadãos japoneses sequestrados pelo regime norte-coreano, Seul tende a combinar mecanismos de dissuasão com a defesa de iniciativas diplomáticas voltadas à construção de uma paz permanente na península. Trata-se de uma diferença estrutural que decorre das distintas posições geográficas e dos diferentes cálculos estratégicos de cada país.


Outro elemento que favorece a aproximação bilateral é a transformação gradual das percepções públicas. As novas gerações japonesas e sul-coreanas demonstram níveis significativamente mais elevados de aceitação mútua, influenciadas pela expansão do intercâmbio cultural, pela popularidade global do K-pop, dos dramas coreanos e da cultura pop japonesa. Essa mudança social reduz parte das barreiras políticas tradicionalmente associadas ao relacionamento bilateral e cria um ambiente doméstico mais favorável à cooperação.


A crescente institucionalização dos contatos diplomáticos, militares e econômicos representa outro fator de estabilidade. Reuniões frequentes entre chanceleres, ministros da Defesa, autoridades econômicas e grupos técnicos criam mecanismos permanentes de coordenação que diminuem o risco de retrocessos abruptos diante de crises pontuais ou mudanças de governo. A continuidade desses canais demonstra que a cooperação começa a adquirir características institucionais próprias, tornando-se menos dependente das conjunturas políticas domésticas.


Em termos geopolíticos, a aproximação entre Japão e Coreia do Sul insere-se em um processo mais amplo de reorganização da arquitetura de segurança do Indo-Pacífico. A convergência entre as duas maiores democracias industrializadas do Nordeste Asiático fortalece a estratégia regional liderada pelos Estados Unidos de contenção das ameaças provenientes da Coreia do Norte e de equilíbrio diante da crescente projeção de poder da China. Ao mesmo tempo, amplia a capacidade dos dois países de responder conjuntamente a desafios transnacionais relacionados à energia, às cadeias globais de suprimentos, à competição tecnológica e à segurança cibernética.


Em síntese, as relações entre Japão e Coreia do Sul desde 2025 podem ser compreendidas como um processo de convergência pragmática. As divergências históricas e territoriais permanecem sem solução e continuam constituindo importantes fontes de tensão política. Entretanto, elas deixaram de impedir a expansão da cooperação em áreas consideradas essenciais para a segurança e para a competitividade econômica de ambos os países. A parceria bilateral torna-se, assim, mais resiliente e institucionalizada, sustentada por interesses convergentes em defesa, segurança econômica, inovação tecnológica e estabilidade regional, ainda que permaneça marcada por ambiguidades estruturais e por limitações decorrentes do legado histórico e das diferentes prioridades geopolíticas de Tóquio e Seul.


Referências

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NIQUET, Valérie. Japan-ROK relations since 2025: toward a sustainable strategic convergence? | Korea Security and Diplomacy Program | Foundation for Strategic Research | FRS. FRS. Disponível em: <https://www.frstrategie.org/en/programs/korea-security-and-diplomacy-program/japan-rok-relations-2025-toward-sustainable-strategic-convergence-2026>.

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TYSON, Ann Scott. This unlikely friendship could herald new era of South Korea-Japan cooperation. The Christian Science Monitor. Disponível em: <https://www.csmonitor.com/World/Asia-Pacific/2026/0522/This-unlikely-friendship-could-herald-new-era-of-South-Korea-Japan-cooperation>.


João Pedro Nascimento, Bacharel em Relações Internacionais, com pós-graduação em Políticas Públicas. Com experiência em internacionalização de negócios, expansão para mercados externos, negociações internacionais e gestão estratégica de parcerias. É consultor em política externa e economia internacional, além de sócio de um escritório de assessoria financeira, conectando empresas e investidores a oportunidades globais por meio de análise de cenários, avaliação de riscos e estruturação estratégica. Fundador do RI Talks, espaço independente de análise e debate sobre o cenário nacional e internacional.

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