DO SOBRENATURAL AO HUMANO: A TRANSFORMAÇÃO DO MEDO NO TERROR CONTEMPORÂNEO
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Uriel Barroso
Quando pensamos em terror, é comum imaginar casas assombradas, demônios, criaturas monstruosas e forças sobrenaturais que desafiam a compreensão humana. Durante décadas, essas figuras ocuparam posição central no imaginário coletivo, representando aquilo que era desconhecido, inexplicável e, por isso mesmo, assustador. Entretanto, ao observar a produção cinematográfica recente, percebe-se uma transformação significativa na natureza do medo. O terror contemporâneo parece cada vez menos preocupado com fantasmas e cada vez mais interessado nas ameaças produzidas pelos próprios seres humanos.
Essa mudança não ocorre por acaso. O medo sempre foi um reflexo do contexto histórico e social de cada época. Em sociedades marcadas pela forte influência religiosa, o sobrenatural aparecia como explicação para aquilo que não podia ser compreendido racionalmente. Demônios, possessões e maldições representavam o temor diante de forças invisíveis e aparentemente incontroláveis. Atualmente, porém, os maiores receios da sociedade não estão relacionados ao desconhecido, mas a problemas extremamente concretos: violência, perseguição, manipulação psicológica, abuso de poder e fragilidade das relações humanas.
Nesse contexto, filmes como Obsessão (2025) têm explorado com frequência personagens que não dependem de qualquer elemento sobrenatural para causar inquietação. O perigo não surge de uma entidade maligna, mas de indivíduos comuns, inseridos no cotidiano, capazes de praticar atos de extrema violência ou desenvolver comportamentos obsessivos. O desconforto provocado por essas narrativas decorre justamente de sua proximidade com a realidade. Diferentemente dos monstros clássicos, essas ameaças existem fora das telas e fazem parte da experiência social contemporânea.
Mais do que entreter, o terror atual funciona como um espelho das ansiedades coletivas. Ele revela uma sociedade que passou a desconfiar menos do sobrenatural e mais das próprias pessoas. Em um cenário marcado pela hiperconectividade, pela exposição constante nas redes sociais e pelo aumento da percepção da violência cotidiana, o verdadeiro horror não está mais no que habita o desconhecido, mas no que pode ser encontrado dentro da própria sociedade.
O TERROR COMO REFLEXO DAS INQUIETAÇÕES SOCIAIS
A literatura e o cinema de terror sempre estiveram diretamente relacionados aos medos e inseguranças presentes em cada período histórico. As bruxas presentes no imaginário dos séculos XVI e XVII, conforme muito bem explicado por Silvia Federici (2017), não deveriam ser entendidas apenas como uma figura supersticiosa, mas sim como uma alegoria pois na realidade representavam a destruição de um estilo de vida comunitário e a violenta imposição do sistema capitalista sobre o corpo e a autonomia das mulheres. Nesse sentido, a denominada caça às bruxas no período citado não foi um surto isolado de fanatismo religioso, mas sim uma campanha deliberada e violenta que serviu a propósitos econômicos e sociais muito claros, que incluíam elementos como: a privatização de terras antes comunais, a divisão sexual do trabalho e a redução da autonomia feminina sobre o corpo (principalmente a partir da classificação como “magia” dos conhecimentos tradicionais vinculados à saúde e à reprodução).
Ao longo dos séculos outras figuras por vezes tidas como sobrenaturais ocuparam essa posição de “novo mal” da sociedade, ou seja, de algo que deveria ser expurgado, impedido, e muitas vezes apenas por apresentar uma atuação social ou um pensamento crítico com relação à estrutura de poder dominante. Assim, observamos o surgimento de estórias sobre figuras que se tornaram clássicas para o terror: os vampiros. No século XIX surgiu e se consolidou na Europa a literatura sobre essa criatura que despertou (e ainda desperta) curiosidade e emoções mistas entre a audiência de livros, filmes e séries. O vampiro deu vazão a profundas ansiedades sociais, sexuais e econômicas daquela época, tais como: a repressão e a transgressão sexual em um contexto marcado pela rígida moral vitoriana; e o receio do Império Britânico com relação à possibilidade de uma “invasão cultural” por povos que poderiam impedir sua “ação civilizatória”.
Mais do que simples entretenimento, o gênero terror funciona como um mecanismo de representação simbólica das angústias coletivas, transformando em narrativas ficcionais aquilo que determinada sociedade percebe como ameaça. Nesse sentido, os monstros não devem ser compreendidos apenas como figuras fantásticas, mas como manifestações culturais de temores socialmente construídos.
Segundo Freud (1919), em seu conceito de "estranho" (Das Unheimliche), o horror surge quando algo simultaneamente familiar e desconhecido rompe a normalidade da experiência cotidiana. O medo, portanto, não está necessariamente ligado ao sobrenatural, mas à sensação de que aquilo que parecia seguro pode tornar-se ameaçador. Tal perspectiva contribui para compreender por que as narrativas de terror se transformam ao longo do tempo, acompanhando as mudanças sociais e culturais.
Durante séculos, as produções do gênero exploraram figuras associadas ao sobrenatural, como fantasmas, demônios e maldições. Essas representações refletiam sociedades profundamente influenciadas pela religião e pela crença em forças transcendentes capazes de interferir diretamente na vida humana. Conforme observa Carroll (1990), os monstros do horror costumam incorporar aquilo que uma cultura considera anormal, impuro ou ameaçador, funcionando como símbolos dos receios predominantes em determinado contexto histórico.
Entretanto, a modernidade trouxe transformações significativas para a percepção social do medo. O avanço científico reduziu parte das explicações sobrenaturais para fenômenos anteriormente considerados misteriosos, ao mesmo tempo em que novas formas de insegurança passaram a ocupar posição central na vida cotidiana. Questões relacionadas à violência, ao isolamento social, à fragilidade dos vínculos humanos e à instabilidade das instituições passaram a constituir fontes concretas de ansiedade coletiva.
Dessa forma, o terror contemporâneo demonstra que os medos de uma sociedade não desaparecem, mas se reconfiguram. Os monstros mudam porque os contextos históricos mudam. Se em outros períodos o desconhecido sobrenatural representava a principal ameaça, atualmente o horror encontra inspiração em problemas reais, revelando uma crescente preocupação com os riscos produzidos pela própria organização social.
A CRISE DAS INSTITUIÇÕES E A SOLIDÃO DO INDIVÍDUO CONTEMPORÂNEO
As transformações observadas no terror contemporâneo podem ser compreendidas a partir das mudanças ocorridas na própria organização da vida social. Se durante longos períodos as instituições tradicionais, como a família, a religião, a comunidade e o Estado, desempenharam papel fundamental na construção de segurança e pertencimento, a contemporaneidade é marcada por um crescente sentimento de incerteza em relação à capacidade dessas estruturas de proteger os indivíduos diante dos riscos sociais.
Para Bauman (2001), a chamada "modernidade líquida" caracteriza-se pela fragilidade dos vínculos humanos e pela constante instabilidade das relações sociais. Diferentemente das sociedades anteriores, nas quais as identidades e os laços comunitários apresentavam maior permanência, a vida contemporânea é marcada pela volatilidade das conexões, pela individualização e pela insegurança. Nesse contexto, os indivíduos passam a experimentar um sentimento permanente de vulnerabilidade, uma vez que as estruturas tradicionalmente associadas à proteção coletiva tornam-se cada vez menos estáveis.
De maneira semelhante, Beck (2011) argumenta que a sociedade contemporânea passou a ser organizada em torno da gestão de riscos produzidos pela própria modernidade. Os perigos já não estão necessariamente relacionados a ameaças externas ou sobrenaturais, mas às consequências das ações humanas, das transformações tecnológicas e das complexas relações sociais que caracterizam o mundo globalizado. O medo deixa de estar associado ao desconhecido e passa a emergir de ameaças concretas presentes no cotidiano.
Essa percepção também pode ser observada na análise de Giddens (1991), para quem a modernidade promove uma reconfiguração dos sistemas de confiança. À medida que as instituições enfrentam crises de legitimidade e credibilidade, cresce a sensação de insegurança diante de situações que anteriormente seriam mediadas por estruturas consideradas confiáveis. O indivíduo contemporâneo encontra-se cada vez mais responsável pela própria proteção em um cenário marcado pela imprevisibilidade.
Nesse contexto, o terror contemporâneo abandona progressivamente a figura do monstro sobrenatural como principal fonte de horror. Em seu lugar, surgem narrativas centradas em perseguições, manipulação psicológica, violência interpessoal e comportamentos obsessivos. O medo decorre da percepção de que o perigo pode surgir de pessoas comuns, inseridas no cotidiano, ou seja, o agressor não habita uma dimensão sobrenatural; ele frequenta os mesmos espaços sociais (trabalho, escola, academia), estabelece relações afetivas e compartilha a aparência da normalidade.
Tal mudança revela uma transformação significativa na construção cultural do medo. O terror passa a concentrar-se e a problematizar as fragilidades produzidas pela própria sociedade em seu interior. Aqui observa-se a percepção de que a violência, a manipulação e o abandono podem ocorrer mesmo em ambientes anteriormente considerados seguros; refletindo uma crise de confiança não apenas nas instituições, mas também nas próprias relações humanas.
O SER HUMANO COMO NOVO MONSTRO: OBSESSÃO, VIOLÊNCIA E VULNERABILIDADE NO TERROR CONTEMPORÂNEO
A crise de confiança nas instituições e o aumento da percepção dos riscos sociais produziram impactos significativos na construção das narrativas de terror contemporâneas. Essa transformação pode ser compreendida a partir da concepção de que o medo é um fenômeno socialmente construído. Conforme afirma Bauman (2008), as sociedades contemporâneas são marcadas por um estado permanente de insegurança, no qual os indivíduos convivem diariamente com a percepção de riscos difíceis de prever ou controlar. Nesse cenário, a figura do agressor humano torna-se particularmente perturbadora, pois rompe a expectativa de segurança associada aos vínculos sociais cotidianos, sejam em relações de amizade e românticas.
A obsessão surge, nesse contexto, como uma das representações mais significativas do medo contemporâneo. Diferentemente dos monstros clássicos, cuja ameaça geralmente era identificável e delimitada, o indivíduo obsessivo opera dentro das próprias relações sociais e afetivas. Seu perigo reside justamente na proximidade. A violência deixa de ser uma força externa que invade a vida dos personagens e passa a desenvolver-se no interior de relações construídas sobre confiança, afeto e intimidade.
Essa mudança pode ser interpretada à luz do conceito freudiano do estranho (unheimlich). Para Freud (1919), o horror manifesta-se quando algo familiar torna-se inquietante, produzindo uma sensação de desconforto diante daquilo que deveria ser conhecido e seguro. O indivíduo obsessivo representa precisamente essa ruptura: alguém inicialmente percebido como comum transforma-se em fonte de ameaça. O medo não surge da diferença, mas da familiaridade.
Além disso, a centralidade da obsessão nas narrativas contemporâneas dialoga com características específicas da sociedade digital. As redes sociais ampliaram significativamente a exposição da vida privada, reduziram barreiras entre indivíduos e facilitaram práticas de vigilância, monitoramento e perseguição. A possibilidade de acompanhar rotinas, localizar pessoas e acessar informações pessoais contribui para a construção de novas formas de ansiedade social. Nesse contexto, o terror encontra terreno fértil para explorar o medo da invasão da intimidade e da perda de controle sobre a própria vida.
Questões como violência de gênero, perseguição, assédio, manipulação emocional e relacionamentos abusivos passaram a ocupar espaço central nas discussões públicas, tornando-se fontes concretas de inquietação coletiva. Dessa forma, o terror contemporâneo revela uma mudança profunda na forma como a sociedade compreende o perigo. O medo já não está concentrado no desconhecido ou no inexplicável, mas naquilo que pode ser encontrado nas relações mais comuns do cotidiano; o verdadeiro monstro não habita castelos abandonados ou dimensões sobrenaturais; ele surge da capacidade humana de controlar, manipular, perseguir e violentar o outro. Ao substituir criaturas fantásticas por ameaças humanas, o terror contemporâneo não apenas acompanha as transformações sociais, mas expõe as fragilidades e inseguranças que caracterizam a experiência da vida moderna.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise do terror contemporâneo demonstra que as transformações observadas no gênero não podem ser compreendidas apenas como mudanças estéticas ou narrativas. Elas refletem alterações profundas na forma como a sociedade percebe o perigo, a segurança e as relações humanas. Conforme discutido ao longo deste trabalho, o terror sempre funcionou como um espelho das inquietações coletivas, adaptando seus monstros às ansiedades predominantes de cada período histórico.
Se em outros momentos o sobrenatural ocupava posição central na construção do medo, a contemporaneidade é marcada pela crescente preocupação com ameaças produzidas pelos próprios indivíduos e pelas fragilidades das instituições sociais. As contribuições de Freud (1919), Bauman (2001), Giddens (1991) e Beck (2011) permitem compreender que o medo atual está menos associado ao desconhecido e mais relacionado à vulnerabilidade, à insegurança e à instabilidade das relações humanas.
Nesse contexto, o filme Obsessão (2025) revela-se um exemplo significativo das transformações recentes do gênero. A obra não depende da presença de entidades sobrenaturais, maldições ou forças inexplicáveis para construir sua atmosfera de horror. O desconforto do espectador surge justamente da possibilidade de reconhecer na narrativa comportamentos que existem fora da ficção. A obsessão, a invasão da intimidade, o controle sobre o outro e a incapacidade de interromper ciclos de violência psicológica constituem elementos que encontram paralelos concretos na realidade social contemporânea.
Sob essa perspectiva, o filme evidencia aquilo que Freud (1919) definiu como o estranho (unheimlich): o medo produzido quando algo aparentemente familiar torna-se ameaçador. O horror não está no desconhecido, mas na transformação de relações cotidianas em espaços de insegurança. Da mesma forma, a narrativa dialoga com a percepção de Bauman (2001) acerca da fragilidade dos vínculos humanos na modernidade líquida, em que relações marcadas pela instabilidade podem converter-se em fontes de ansiedade e sofrimento.
Mais do que apresentar uma história de terror, Obsessão simboliza uma mudança mais ampla na construção cultural do medo. O filme demonstra que os monstros contemporâneos não precisam habitar mundos sobrenaturais para provocar inquietação. Eles surgem das próprias relações humanas, das estruturas sociais fragilizadas e da percepção de que a violência pode estar presente nos espaços considerados mais seguros.
Conclui-se, portanto, que o terror contemporâneo representa uma importante ferramenta de interpretação da sociedade atual. Ao substituir progressivamente o medo do sobrenatural pelo medo da ação humana, o gênero revela não apenas novas formas de horror, mas também as tensões, inseguranças e crises de confiança que caracterizam o mundo contemporâneo. Nesse sentido, obras como Obsessão demonstram que o verdadeiro terror do século XXI não está no impossível, mas naquilo que é perfeitamente possível.
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2011.
CARROLL, Noël. The Philosophy of Horror: Or, Paradoxes of the Heart. New York: Routledge, 1990.
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Rio de Janeiro: Editora Elefante, 2017.
FREUD, Sigmund. O estranho (Das Unheimliche). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XVII.
GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
OBSESSÃO. Direção: Curry Barker. Estados Unidos: Focus Features; Universal Pictures, 2025. Filme.

Uriel Barroso
Especialista em Relações Internacionais, com formação jurídica em andamento e vivência acadêmica internacional na França. Atua na interseção entre cultura, comércio e diplomacia, com foco em estratégias multilíngues e negociações interculturais. Desenvolveu projetos voltados à mediação, arbitragem, meio ambiente e acolhimento acadêmico, além de ministrar aulas particulares, com ênfase em métodos imersivos e personalizados. Possui experiência em análise geopolítica, tradução técnica e construção de conteúdos acadêmicos, além de domínio em ferramentas digitais e organização de equipes. Colaborou com instituições em ambientes multiculturais na América do Sul e Europa, conectando teoria e prática com visão crítica e interdisciplinar. Participou de ações acadêmicas e sociais voltadas à inclusão, educação e desenvolvimento sustentável. Une habilidades técnicas e humanas com excelência comunicativa e pensamento estratégico.





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