top of page

Narrativas Homofóbicas nas Redes Sociais

  • Foto do escritor: CERES
    CERES
  • há 29 minutos
  • 5 min de leitura

Gomes Dias


A Antropologia estuda a violência como um comportamento humano com significado social ou como um fenómeno historicamente construído no âmbito social, e não só como uma agressão natural, e que deve ser efectivamente compreendida a partir de análises específicas, tais como socioeconómicas, políticas, culturais e sociais. A violência estrutural promove uma espécie de estigma ou humilhação, que naturalizam a dominação entre indivíduos ou grupos sobre outros, mesmo que de forma simbólica.


De uma perspectiva sociológica, a identidade enquanto um conjunto relativamente estável de percepções sobre quem nós somos, em relação aos outros e aos sistemas sociais, também exercer sugestões no modo sobre como o ambiente agrupa os indivíduos, e como estes fazem-se  representar no mesmo ambiente, fazendo surgir novas interpretações ou visões (Giddens, 2005). Neste sentido, diferentes grupos utilizam essas plataformas para construir narrativas capazes de influenciar percepções, valores e comportamentos.


As redes sociais consolidaram-se como o principal espaço de circulação de discursos públicos na última década, com maior veemência desde o período do confinamento por conta da Covid-19. E este mesmo ambiente, que prometia ampliação de vozes e proximidade entre os indivíduos, também opera como “incubadora” de reprodução e intensificação de preconceitos. Neste contexto, plataformas como Facebook, X, TikTok e Instagram deixaram de ser apenas espaços de entretenimento, para se tornarem em ambientes de disputa simbólica, política e cultural.


Entre os diversos tipos de preconceito intensificados, destacam-se as narrativas homofóbicas, que utilizam essas plataformas digitais para difundir preconceitos, reforçar estereótipos e mobilizar comunidades em torno de discursos de exclusão, e migrando assim, do insulto pontual para formatos narrativos estruturados, nomeadamente memes, cortes de vídeos (popularmente conhecido por “reels”) e fios argumentativos que se apresentam sob a lógica de “debate” ou “opinião”, com o único intuito de deboche ou humilhação online.


Borrillo (2015) aponta a homofobia como um processo psicossocial de carácter estrutural, o que sugere que ela está presente nas relações sociais. Neste sentido, as redes sociais não estão, portanto, fora deste contexto. Pois podemos indicar também, a sua existência em fóruns online (quando partilhado conteúdos ou notícias), tais como o Facebook, Instagram, X e o TikTok. A desigualdade, o preconceito, a discriminação e a liberdade camuflam-se nos comentários realizados aos conteúdos partilhados, contribuindo para a criação de contrapostos e visões contrárias acerca dos assuntos vinculados aos conteúdos.


No sentido geral, a homofobia recusa, de forma semelhante, todos aqueles que não se conformam com o papel determinado para o seu sexo biológico. É uma construção ideológica que consiste na promoção constante de uma forma de sexualidade (hétero) em detrimento de outra (homo), a homofobia organiza uma hierarquização das sexualidades e, dessa postura, extrai consequências que têm camadas políticas.


Com base nestas premissas, assuntos como homossexualidade, homofobia e comunidade LGBTQIA+, quando partilhadas nas redes sociais e sob a forma de notícias, são interpretadas de um modo negativo e depreciativo, sendo ainda consideradas, como irrelevantes, dispensáveis, exageradas ou mero exibicionismo.


Pesquisas sobre moderação de conteúdo  apontam que narrativas anti- LGBTQIA+ geram taxas de engajamento até 2,3 vezes maiores que conteúdos neutros em algumas plataformas, fenómeno reforçado por algoritmos que priorizam tempo de tela e reação; ou seja, o discurso online de ódio, deixa de ser ruído e passa a ser optimizado, tornando ferramentas como os algoritmos (que privilegiam conteúdos que geram interacções elevadas), um dos maiores facilitadores de construção, de discursos homofóbicos ou de ódio a indivíduos homossexuais ou pertencentes à comunidade LGBTQIA+.  Consequentemente, conteúdos homofóbicos podem beneficiar dessa lógica, não porque as plataformas promovam directamente esse tipo de discurso, mas porque a arquitectura algorítmica privilegia elevados níves de envolvimento dos utilizadores.


Narrativas digitais correspondem aos conjuntos de histórias, interpretações e enquadramentos que organizam a compreensão dos acontecimentos na esfera pública. Segundo Fisher (1984), os seres humanos interpretam o mundo através de narrativas, avaliando a sua coerência e credibilidade. Nas redes sociais, essas narrativas tornam-se altamente fragmentadas e emocionalizadas, pois, conteúdos curtos, imagens, memes e vídeos possuem elevada capacidade de mobilização afectiva, facilitando a rápida disseminação de mensagens preconceituosas.


Um exemplo recente bastante popular sobre homofobia digital, ocorreu durante os Jogos  Olímpicos de Paris 2024, envolvendo a pugilista argelina Imane Khelif. Após a sua vitória frente à italiana Angela Carini, difundiram-se rapidamente publicações que questionavam a sua identidade sexual e de género, apresentando-a falsamente como um homem ou uma atleta transgénero. Através de hastag, memes, reels e comentários, essas narrativas propagaram-se em plataformas como X, Facebook e TikTok, alimentando discursos de ódio dirigidos não apenas à atleta, mas também à comunidade LGBTQIA+.


Esta relação entre indivíduo, rede social, homofobia, homossexualidade e comunidade LGBTQIA+ cresce de acordo com a quantidade de conteúdos partilhados e não suscita conformidade ou equilíbrio, havendo, sobretudo, interpretações negativas e círculos comuns de oposição, que ligados a outro tipo de questões, são frequentes quando se publica ou partilha algo relacionado com as mesmas temáticas. A disseminação destas narrativas produz consequências significativas; elas promovem a normalização do preconceito no espaço digital, elas afectam directamente a saúde mental das vítimas, aumentando situações de ansiedade, isolamento social e depressão.


O combate a estas narrativas exige estratégias multidimensionais que envolvam educação para os media, literacia digital, transparência algorítmica, políticas eficazes de moderação e promoção dos direitos humanos. Do ponto de vista das Ciências da Comunicação, compreender estes processos é essencial para analisar as transformações da esfera pública contemporânea e os desafios colocados à democracia digital.



 

 

Gomes Dias: Formado em Comunicação Social, pela Universidade Agostinho Neto (UAN). Tem pesquisa académica em torno das redes sociais, com ênfase no processo de ensino e aprendizagem; e Inteligência Artificial. É Director Institucional da Juventude Unida dos Países de Língua Portuguesa (JUPLP). É também membro associado júnior da Associação Angolana dos Profissionais de Comunicação Institucional (AAPCI).  Pesquisador e membro do Conselho de Pesquisa do CERES.

Redes sociais:


Referência Bibliográfica

Fialho, J. (janeiro/junho de 2017). A Construção da Identidade Social e Profissional através da ação das redes de sociabilidade laboral. Revista Argumentos Montes Claros, v.14, n.1, pp.138-162.

Giddens, A. (2005). Sociologia. Porto alegre: Editora Artmed.

Borrillo, D. (2015). Homofobia – História e crítica de um preconceito. Minas Gerais: Autêntica Editora.

Castells, M., & Cardoso, G. (2005). A Sociedade em Rede. Do Conhecimento à Acção Política. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda.

Costa, R. (2012). Homossexualidade: um conceito preso ao tempo. Bagoas - Estudos gays: gêneros e sexualidades, v. 1, n. 01.

Oliveira, A., & Machado, M. (21 de setembro de 2019). Mídias Digitais e Reações Negativas Às Campanhas Publicitárias LGBT. Consumer Behavior Review, v.3, pp. 14-23.

Dantas, M., & Neto, A. (março/abril de 2015). O discurso homofóbico nas redes sociais da internete: uma análise no Facebook "Rio sem Homofobia - Grupo Público". Grupo de Estudos do Tempo Presente, pp. 27-41.

Fisher, W. (1984). Narration as a Human Communication Paradigm. Communication Monographs.

Comentários


NOSSOS HORÁRIOS

Segunda a Sábado, das 09:00 às 19h.

VOLTE SEMPRE!

NOSSOS SERVIÇOS

Siga nossas redes sociais!

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • Instagram

O CERES é uma plataforma para a democratização das Relações Internacionais onde você é sempre bem-vindo!

- Artigos

- Estudos de Mercado

- Pesquisas

- Consultoria em Relações Internacionais

- Benchmarking

- Palestras e cursos

- Publicações

© 2021 Centro de Estudos das Relações Internacionais | CERESRI - Imagens By Canvas.com - Free Version

bottom of page