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A geopolítica da transição energética e a relação de poder

Atualizado: 26 de set. de 2023

Luis Augusto Medeiros Rutledge

Analista de Geopolítica Energética


A energia desempenha um papel central como um recurso estratégico no desenvolvimento socioeconômico do mundo atual. Sob esta perspectiva, se torna essencial uma visão geopolítica das relações de poder de alguns Estados diante da transição energética, onde a matriz global ainda se encontra extremamente dependente de petróleo.


Ao utilizarmos como modelo a União Europeia, observamos lideranças políticas com visões distintas quanto às estratégias para uma futura segurança energética dentro do continente europeu. De certa forma, a inserção de novos vetores energéticos demanda de instituições europeias e de governos, ações políticas acompanhadas de forte suporte técnico para implementação de novas infraestruturas nacionais ou transnacionais que permitam o processo de transição energética e novos ambientes onde cidadãos estarão inseridos.


A geopolítica e a relação de poder se fazem presentes neste novo cenário uma fez que a realização de uma transição energética competitiva a partir de ações políticas e novas propostas de leis envolvem alterar a competitividade da indústria, regular a inserção e tributação de fontes de energias renováveis e, também, alinhar as diretrizes dos países-membros com o Pacto Ecológico Europeu. E, hoje, apesar da insegurança energética europeia, convivemos com países produtores de energia, em sua maioria petróleo, e com regulamentações e cadeia de valor já consolidadas ao longo do tempo.


Todavia, no âmbito dos grandes blocos econômicos, a União Europeia, em resposta às perturbações do mercado energético mundial, está liderando a terceira revolução industrial com seu plano REPowerEu, que tem como foco principal a produção de energias menos poluentes. O plano da Comissão Europeia foi criado numa resposta à crescente insegurança energética vivida pelos europeus no último ano. O estudo de caso da União Europeia nos faz analisar a força dos atores da transição energética numa economia governada por laços entre políticos e majors do petróleo, que se iniciaram na primeira década do século XIX.


Países que fazem uso da energia como ferramenta geopolítica devem ser analisados com pensamento crítico quanto aos seus discursos políticos sobre as metas de descarbonização através de energias renováveis. Devemos entender que as principais economias do mundo estão de alguma forma vinculadas ao petróleo. E, muitas soberanias foram construídas a partir de riquezas minerais. Quando não são países produtores, são países dependentes de óleo e gás natural. O setor de petróleo é a prova viva de que a relação de poder e a geopolítica energética possuem uma dinâmica peculiar. E, o exemplo mais claro em nossa história recente é a União Europeia.


A guerra da Ucrânia, fora as questões bélicas e das relações étnicas históricas entre russos e ucranianos, deixou implicitamente um caminho para a mudança do eixo da geopolítica energética. Poucos estiveram atentos às movimentações de peças do tabuleiro geopolítico. A partir daquele momento a transição energética virou pano de fundo para uma disputa de poder, onde o vencedor ganharia o mercado energético europeu.


A saída da Rússia do mercado europeu permitiu uma maior influência norte-americana no deteriorado cenário energético europeu. Em 2022, as exportações recordes de gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos foram responsáveis por 50% dos suprimentos de gás da Europa. E, em contrapartida, o fornecimento russo aos europeus caiu pela metade. A mudança fez a União Europeia extremamente dependente do gás natural liquefeito das plantas norte-americanas e longe de uma sonhada segurança energética. A relação de poder que fez Putin acreditar que a ferramenta gás natural seria o fiel da balança quanto ao apoio europeu à Ucrania caiu por terra.


Ao mesmo tempo, o país que sempre questionou a ruim dependência energética fóssil dos europeus junto aos russos, agora domina o mercado global de gás natural. E, a geopolítica nos apresenta um cenário de 2023 onde a política energética europeia e a norte-americana caminham alinhadas.


E a transição energética? E o REPower? Um estudo dos atores envolvidos com o setor de energia da União Europeia deveria conter elementos concretos de uma transição energética sustentável. A análise geopolítica das mudanças iniciais nas relações de poder no processo europeu não apresenta novos cenários energéticos imediatos. Hidrogênio verde e outras fontes renováveis levarão certo tempo para sua implantação sólida e deverão gerar energia numa matriz europeia com grande participação do gás natural. O planejamento de descarbonização da Comissão Europeia caminha, no entanto, a indústria europeia, principalmente a econômica alemã, precisam da alimentação de gás natural.


Não podemos deixar de fora das decisões geopolíticas outro importante elemento, as petroleiras. Hoje, sem dúvida, o modelo de negócios dos principais players de óleo e gás natural está sobre forte pressão. As metas de redução de carbono são mais rigorosas a cada dia e a sociedade, antes num mundo distante do discurso energético, está cada vez mais presente. Por outro lado, ao cair o fluxo do gás russo pela malha de gasodutos europeus, diversas reuniões diplomáticas se iniciaram e novos acordos comerciais foram firmados entre europeus e produtores de óleo e gás do Oriente Médio e África. Sem citar, os Estados Unidos, parceiro da Europa na transição energética, de Moscou para o Texas.


Referências


Angélique Palle, Bringing geopolitics to energy transition research, Energy Research & Social Science, 81 (2021).


P.S. Ciccantell, Alternatives to Energy Imperialism; Energy and Rising Economies, Journal of Energy History/Revue d’Histoire de L’Énergie (2020).



*Luis Augusto Medeiros Rutledge é engenheiro de petróleo e pesquisador da UFRJ. Analista de Geopolítica Energética, Membro Consultor do Observatório do Mundo Islâmico de Portugal e Membro do CERES - Centro de Estudos das Relações Internacionais. Possui MBA Executivo em Economia do Petróleo e Gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Especialização em Relações Internacionais pelo Ibmec. Atua como colunista e comentarista de geopolítica energética do site Mente Mundo Relações Internacionais. Colaborador de colunas de petróleo, gás e energia em diversos sites da área. Contato: rutledge@eq.ufrj.br

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