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A guerra sem fim no Oriente Médio e a ameaça de uma nova crise global de insegurança alimentar

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    CERES
  • há 9 horas
  • 5 min de leitura

 

Luis Augusto Medeiros Rutledge

Geopolítica Energética

 

A continuidade da guerra no Oriente Médio deixou de constituir apenas uma crise regional. Seus efeitos alcançam os mercados internacionais de petróleo, gás natural, fertilizantes, alimentos, transporte marítimo e seguros, afetando diretamente a capacidade de milhões de famílias de adquirir uma alimentação mínima. O conflito demonstra que, em uma economia global profundamente interdependente, guerras travadas em regiões estratégicas podem transformar-se rapidamente em crises humanitárias muito além das fronteiras dos países envolvidos.

 

A crise evidencia uma realidade fundamental: a segurança alimentar mundial depende não apenas da quantidade de alimentos produzidos, mas também da estabilidade política, do funcionamento dos corredores logísticos, do acesso a energia, da disponibilidade de fertilizantes, da capacidade fiscal dos governos e da renda das famílias. Quando esses elementos são simultaneamente atingidos, o resultado não é somente inflação, mas a exclusão de milhões de pessoas do mercado de alimentos.

 

A dimensão internacional do conflito decorre, em primeiro lugar, da importância estratégica do Oriente Médio para o abastecimento energético. A região concentra grandes produtores e exportadores de petróleo e gás natural e abriga corredores marítimos indispensáveis ao comércio internacional, particularmente o Estreito de Ormuz, o Mar Vermelho, o Canal de Suez e o Estreito de Bade el-Mandeb.

As interrupções nos principais corredores marítimos e energéticos internacionais evidenciam a elevada vulnerabilidade da economia global a choques geopolíticos. A restrição, ainda que temporária, do fluxo de petróleo, gás natural, fertilizantes e produtos agrícolas pode reduzir a disponibilidade desses insumos, ampliar os prêmios de risco e elevar os custos de frete, seguro, financiamento e produção.

Para este ano, o Banco Mundial projeta alta de 24% nos preços globais de energia, de 31% nos fertilizantes e de 16% no conjunto das commodities, enquanto a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) estima que os preços dos bens comercializados internacionalmente tenham avançado aproximadamente 3,6% no primeiro trimestre e cerca de 5% no segundo trimestre, em grande medida devido ao encarecimento da energia, do transporte e de insumos estratégicos.

O sinal de alerta está ligado. As cadeias globais de commodities energéticas e alimentares enfrentam perturbações interligadas, que se propagam dos mercados de petróleo e gás para a produção de fertilizantes, para os custos agrícolas e, posteriormente, para os preços dos alimentos. Embora o Índice de Preços dos Alimentos da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) tenha registrado 130,3 pontos em junho de 2026, com leve recuo mensal de 0,3%, permaneceu 1,7% acima do nível observado no mesmo período do ano anterior, demonstrando que os efeitos inflacionários e logísticos continuam presentes e podem se intensificar diante de novas interrupções nas rotas comerciais estratégicas.

O problema não se limita à eventual redução física das exportações. Mesmo quando navios continuam circulando, a percepção de risco provoca alterações de rotas, contratação de seguros mais caros, exigência de maior remuneração pelos transportadores e aumento do custo de capital. Vivenciamos dificuldades para manter os fluxos de ajuda humanitária diante das perturbações logísticas e da necessidade de organizar uma das mais complexas respostas emergenciais de nossa história recente.

O custo do transporte marítimo tem impacto direto sobre os alimentos. Cereais, óleos vegetais, fertilizantes, combustíveis e outros produtos básicos são transportados em grandes volumes e apresentam elevada sensibilidade ao custo logístico. Quando o combustível marítimo encarece, os fretes aumentam. Quando as embarcações precisam percorrer rotas mais longas para evitar zonas de conflito, ampliam-se o consumo de combustível, o tempo de viagem e os custos de estoque.

Assim, a guerra introduz uma espécie de imposto geopolítico sobre todas as mercadorias transportadas. Esse custo adicional é incorporado aos preços internacionais e, posteriormente, transmitido aos consumidores, com intensidade maior nos países de baixa renda.


Petróleo, fertilizantes e produção de alimentos nunca estiveram tão interligados. A relação entre petróleo e segurança alimentar é estrutural. O petróleo influencia os custos de máquinas agrícolas, irrigação, transporte rodoviário, armazenagem, refrigeração, processamento e distribuição. O gás natural, por sua vez, constitui uma das principais matérias-primas para a produção de amônia e fertilizantes nitrogenados.


Quando petróleo e gás se tornam mais caros, praticamente todas as etapas da cadeia alimentar são pressionadas. Os agricultores precisam pagar mais pelo combustível dos tratores e colheitadeiras, pelos fertilizantes, pelo transporte das sementes e pelo escoamento da produção. A indústria enfrenta despesas maiores para processar, refrigerar e embalar os alimentos. Os distribuidores e varejistas também repassam parte de seus custos aos preços finais.

A alta dos fertilizantes pode produzir efeitos ainda mais prolongados. Diante de preços elevados ou escassez de insumos, pequenos produtores reduzem a quantidade aplicada nas lavouras, substituem culturas ou deixam parte da terra sem plantio. A consequência pode ser uma redução da produtividade nas safras seguintes, prolongando a crise mesmo depois de eventual estabilização dos mercados de energia.

O conflito iniciado na região do Golfo produziu um choque relevante sobre os sistemas agroalimentares globais, combinando pressões sobre energia, fertilizantes, logística e comércio. Portanto, a crise não pode ser analisada apenas pelo preço presente dos alimentos. Deve-se considerar também seu potencial de comprometer a capacidade produtiva futura.

A situação torna-se particularmente grave para países que importam simultaneamente petróleo, fertilizantes e alimentos. Essas economias sofrem um choque triplo: precisam gastar mais para produzir internamente, pagar mais pelas importações e utilizar maior quantidade de moeda estrangeira para financiar suas necessidades básicas.

Os preços globais dos alimentos atingiram seu nível mais alto no semestre deste ano quando comparada com o mesmo período em 2025. A razão para isso é o aumento dos custos de energia devido à guerra no Irã. Até agora, os aumentos de preços foram atenuados por um abundante fornecimento de grãos. Mas até quando?

No entanto, se o conflito na região do Golfo se estender sem prazo de validade e os custos de produção permanecerem altos, os agricultores poderão plantar menos ou migrar para culturas menos intensivas em fertilizantes. Essas decisões impactarão os lucros futuros e moldarão o suprimento global de alimentos e preços das commodities para o restante deste ano e para todo o próximo.

Observando os dados concretos da FAO, recentemente divulgados, os preços globais dos alimentos negociados, subiu 2,4% em comparação ao valor revisado de fevereiro. Isso é um por cento acima do nível do ano anterior, mas ainda pouco abaixo de 20% abaixo do pico de março de 2022, após o início da guerra na Ucrânia. Os preços do açúcar subiram particularmente acentuadamente, subindo 7,2% até o nível mais alto desde outubro de 2025, assim como os óleos vegetais, que subiram 5,1%. Isso refletiu a alta dos preços do petróleo bruto e as expectativas de uma demanda mais forte por investimentos em petróleo e biocombustíveis.

Devido aos preços altos dos fertilizantes, a situação de grãos, milho, soja e arroz é particularmente crítica. Como soja e milho também são usados como ração para animais, preços da carne acompanharão movimento similar aos fertilizantes de forma exponencial.

Os preços mais altos dos fertilizantes em todo o mundo são um fator significativo no controle da economia global. Sua influência passa diretamente pelo aumento imediato dos custos de produção agrícola e a crescente dependência de fertilizantes importados que ampliam a vulnerabilidade econômica de países nos quais a produção agropecuária representa um dos principais pilares da economia.  

Particularmente problemático é o aumento simultâneo do preço do gás natural, petróleo, transporte e financiamento. Nesse caso, os amortecedores se reforçam mutuamente. Mesmo que os preços internacionais dos fertilizantes caiam novamente no curto prazo, as consequências podem persistir nas próximas colheitas e nos preços nacionais ao consumidor.

Concluindo, a observação econômica mais importante não é apenas: Qual é o preço atual do fertilizante? Antes, o fator decisivo é se os agricultores conseguem financiar o fertilizante a tempo e em quantidades suficientes. É justamente nesse momento que um choque de preços de commodities se torna um risco para a segurança alimentar.

 

 

Luis Augusto Medeiros Rutledge é engenheiro de petróleo e analista de geopolítica energética. Possui MBA Executivo em Economia do Petróleo e Gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduação em Relações Internacionais e Diplomacia pelo IBMEC. É membro consultor do Observatório do Mundo Islâmico, em Portugal, pesquisador da UFRJ e autor de diversos artigos sobre energia, geopolítica e mercados internacionais.

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