O que são os Panda Bonds e por que o Brasil quer emitir títulos na China
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João Pedro Nascimento
O Brasil deu o primeiro passo para emitir, pela primeira vez, títulos da dívida pública no mercado financeiro da China. Até hoje, as emissões brasileiras no exterior são concentradas principalmente em dólares e, mais recentemente, em euros. Agora, o governo pretende acessar diretamente o mercado de capitais chinês e captar recursos em yuan, a moeda da China.
Os Panda Bonds são, de forma simples, títulos de dívida emitidos por governos, bancos ou empresas estrangeiras dentro do mercado chinês e denominados em yuan. O conceito é semelhante aos chamados Yankee Bonds, emitidos nos Estados Unidos em dólar, ou aos Samurai Bonds, emitidos no Japão em iene. Na prática, o emissor vende títulos para investidores chineses, recebe os recursos em yuan e, durante o prazo da operação, paga juros periódicos e devolve o principal no vencimento. Atualmente, esse mercado é o segundo maior do mundo, atrás apenas do mercado americano.
Embora o tema tenha ganhado destaque apenas agora no Brasil, o mercado de Panda Bonds está longe de ser uma novidade. Segundo relatório da S&P China Ratings, o instrumento existe desde 2005 e entrou em uma fase de forte expansão nos últimos anos. Em 2024, as emissões atingiram um recorde de 194,8 bilhões de yuans, distribuídos em 110 operações realizadas por 44 emissores, enquanto apenas entre janeiro e julho de 2025 outros 71 emissores captaram 116 bilhões de yuans. Para a agência, esse crescimento demonstra que os Panda Bonds estão se consolidando como um importante canal internacional de financiamento dentro do mercado chinês. O relatório aponta que essa expansão foi impulsionada tanto pelos juros estruturalmente mais baixos da China quanto por uma série de reformas regulatórias implementadas pelo Banco Popular da China e pela National Association of Financial Market Institutional Investors (NAFMII), que simplificaram os processos de emissão, flexibilizaram o uso dos recursos captados e aproximaram o mercado chinês das práticas internacionais.
A primeira etapa desse processo foi concluída com a entrega da Carta de Apresentação da República às autoridades reguladoras chinesas. Esse documento não significa que o Brasil já emitiu os títulos, mas formaliza seu interesse e inicia o processo de aprovação. A partir de agora, o Tesouro Nacional precisará concluir análises jurídicas, regulatórias e operacionais, definir o volume da emissão, o prazo dos títulos, o banco coordenador da oferta e aguardar uma janela favorável no mercado para realizar a captação.
O principal atrativo dessa operação é financeiro. Enquanto títulos brasileiros emitidos recentemente em dólar pagaram juros superiores a 5% ao ano, emissões semelhantes no mercado chinês têm ocorrido entre aproximadamente 1,7% e 2,2% ao ano. Essa diferença pode reduzir significativamente o custo de financiamento do governo brasileiro. Além disso, como títulos soberanos costumam apresentar menor risco do que emissões corporativas, existe a expectativa de que o Brasil consiga condições ainda mais competitivas.
O relatório da S&P reforça essa vantagem ao mostrar que, desde 2022, a política monetária chinesa seguiu trajetória oposta à dos Estados Unidos e da Europa. Enquanto economias ocidentais elevaram os juros para conter a inflação, a China manteve uma política mais expansionista para estimular sua economia, permitindo que o custo de financiamento em yuan permanecesse significativamente inferior ao observado nos mercados em dólar. A agência destaca ainda que a relativa estabilidade da moeda chinesa reduziu os custos de hedge para diversos emissores internacionais, tornando os Panda Bonds ainda mais competitivos.
Outro objetivo importante é ampliar a base de investidores. Hoje, grande parte da dívida externa brasileira depende de investidores acostumados ao mercado em dólar ou euro. Com os Panda Bonds, o Brasil passa a acessar fundos de investimento, seguradoras, bancos e investidores institucionais chineses, diversificando suas fontes de financiamento. Essa estratégia também pode abrir caminho para empresas brasileiras emitirem seus próprios títulos na China, seguindo o exemplo da Suzano, que em 2024 se tornou a primeira empresa não financeira da América do Sul a captar recursos por meio de Panda Bonds.
A própria evolução do mercado reforça esse potencial. De acordo com a S&P, aumentou significativamente a participação de emissores estrangeiros nos últimos anos, incluindo governos, bancos multilaterais, instituições financeiras e grandes multinacionais como Mercedes-Benz, BMW, Volkswagen, BASF, Bayer e Suzano. Esse movimento indica que o mercado chinês deixou de atender predominantemente empresas ligadas à própria China e passou a atrair emissores globais em busca de diversificação e menores custos de financiamento.
A iniciativa também se insere em um contexto mais amplo de aproximação financeira entre Brasil e China. Nos últimos anos, os dois países ampliaram mecanismos de cooperação, como acordos para liquidação direta entre real e yuan, expansão do swap cambial entre os bancos centrais, estudos para integração dos mercados financeiros e maior participação de bancos chineses no financiamento de projetos brasileiros. Paralelamente, o governo brasileiro busca atrair investimentos chineses para áreas consideradas estratégicas, como infraestrutura, transição energética, inteligência artificial, mercado de carbono, fertilizantes sustentáveis e minerais críticos, por meio do programa Eco Invest Brasil.
O momento também ocorre em meio ao cenário de tensões comerciais entre China e Estados Unidos. O aumento das disputas tarifárias e da rivalidade geopolítica incentiva diversos países a diversificarem seus parceiros financeiros e comerciais. Nesse contexto, busca-se reduzir a concentração das fontes de financiamento em um único centro financeiro.
Essa estratégia dialoga com um movimento internacional mais amplo de fortalecimento do yuan. Embora o dólar continue sendo, com ampla margem, a principal moeda utilizada nas reservas internacionais, no comércio global e nos mercados financeiros, a China tem buscado aumentar o uso internacional de sua moeda por meio de acordos de swap cambial, sistemas próprios de pagamentos internacionais, expansão do comércio em moedas locais e crescimento do mercado de Panda Bonds. O relatório da S&P observa que essa estratégia também é sustentada pela crescente integração do mercado financeiro chinês aos principais índices globais de renda fixa, aumentando sua liquidez e tornando os ativos denominados em yuan mais atrativos para investidores internacionais. Quanto mais governos e empresas captam recursos em yuan ou realizam comércio utilizando a moeda chinesa, maior tende a ser sua relevância internacional.
Apesar disso, a iniciativa não representa uma substituição do dólar. O mercado financeiro americano continua sendo o maior, mais líquido e mais profundo do mundo, e a moeda americana permanece dominante nas finanças globais. O objetivo brasileiro é diversificar riscos e ampliar opções de financiamento, e não trocar uma dependência por outra. O próprio Plano Anual de Financiamento do Tesouro prevê emissões em diferentes moedas, como já ocorreu recentemente com títulos em euro.
A emissão também apresenta desafios. Como a dívida será denominada em yuan, o Brasil ficará exposto à variação cambial entre a moeda chinesa e o real. Além disso, o mercado chinês possui regras regulatórias próprias, maior participação estatal e menor familiaridade para muitos investidores internacionais. O sucesso da operação dependerá das condições de mercado no momento da emissão e da confiança dos investidores na economia brasileira.
No conjunto, a análise da S&P sugere que o crescimento acelerado desse mercado faz parte de um projeto mais amplo da China para consolidar seu mercado doméstico de capitais como uma importante fonte global de financiamento e ampliar, gradualmente, o papel internacional do yuan. Ao mesmo tempo, evidencia uma tendência observada em diversos países que é buscar alternativas ao financiamento exclusivamente baseado no dólar, sem que isso signifique, ao menos no curto prazo, uma substituição da moeda americana como principal referência das finanças globais.
Referências
Agência Brasil. “Panda Bonds: Brasil Prepara Emissão De Títulos Em Yuan Na China.” Money Times, 26 June 2026, https://www.moneytimes.com.br/panda-bonds-brasil-prepara-emissao-de-titulos-em-yuan-na-china-fets/.
Bank of China. “Panda Bonds.” Bank of China, 2026, https://www.boc.cn/english/enterprises/cb2/cbf/202601/t20260106_25639231.html.
Barbosa, Marina. “Panda-Bonds: Títulos De Renda Fixa Do Brasil Serão Negociados Na China.” Investidor10, 22 June 2026, https://investidor10.com.br/noticias/panda-bonds-titulos-de-renda-fixa-do-brasil-serao-negociados-na-china-121024/.
S&P Global. Panda Bond Issuance Overview. 2025.
Xinhua. “(Multimídia) Brasil Entrega Carta De Intenção Para Emissão De Títulos Soberanos Na China, Ampliando O Desenvolvimento De Títulos Panda.” Xinhua Português, 2026, https://portuguese.news.cn/20260629/16b559c6951e40a788a5e9702c9709c0/c.html.

João Pedro Nascimento, Bacharel em Relações Internacionais, com pós-graduação em Políticas Públicas. Com experiência em internacionalização de negócios, expansão para mercados externos, negociações internacionais e gestão estratégica de parcerias. É consultor em política externa e economia internacional, além de sócio de um escritório de assessoria financeira, conectando empresas e investidores a oportunidades globais por meio de análise de cenários, avaliação de riscos e estruturação estratégica. Fundador do RI Talks, espaço independente de análise e debate sobre o cenário nacional e internacional.





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