A Revalorização das Operações Terrestres no Conflito Russo-Ucraniana: Atrito, Efetivos e Perspectivas para o Front
Eduardo Correia Leal
Introdução
O conflito russo-ucraniano atravessa, em 2026, uma fase marcada pela consolidação de uma guerra de atrito, na qual a capacidade de sustentar operações militares, repor efetivos e desgastar os recursos do adversário adquiriu importância crescente. Diferentemente dos primeiros meses do conflito, caracterizados por operações de maior mobilidade e tentativas de conquista rápida de importantes centros urbanos, a dinâmica atual apresenta maior fragmentação do campo de batalha, com o emprego intensivo de drones, mísseis, artilharia e operações terrestres de menor escala.
Nos últimos meses, a intensificação das operações aéreas passou a desempenhar papel relevante nessa dinâmica. Rússia e Ucrânia ampliaram a utilização de drones e mísseis contra alvos militares, logísticos e estratégicos, enquanto infraestruturas energéticas, portos e corredores de abastecimento passaram a ter papel mais evidente na condução do conflito. Para Moscou, esses ataques representam um instrumento de desgaste das capacidades militares e logísticas ucranianas, impondo custos ao esforço de guerra de Kiev e podendo criar condições mais favoráveis para suas operações no campo de batalha.
Porém, o componente terrestre russo vem apresentando ganhos territoriais limitados, apesar da continuidade das operações ofensivas, especialmente na região de Donetsk. A concentração de forças em setores como Pokrovsk, Dobropillya, Kostiantynivka e Lyman demonstra a permanência de objetivos territoriais relevantes, particularmente em torno do chamado Fortress Belt. Nesse contexto, a disponibilidade de efetivos torna-se uma variável fundamental para a capacidade russa de sustentar e ampliar suas operações terrestres. A busca por novos soldados, por meio do recrutamento interno, de combatentes estrangeiros e da participação de tropas norte-coreanas, pode ampliar as opções de Moscou diante das atuais limitações do front.
Diante desse cenário, este artigo busca analisar a possível intensificação das operações terrestres russas no contexto atual do teatro de operações do conflito russo-ucraniano, considerando sua relação com a lógica da Guerra de Atrito e com a disponibilidade de efetivos. Parte-se da hipótese de que o fortalecimento quantitativo das forças russas pode ampliar sua capacidade de pressionar setores considerados prioritários, como o Fortress Belt, e, simultaneamente, criar possibilidades de intensificação em outros eixos, como a região de Kharkiv. Dessa forma, a ampliação das operações terrestres poderia não apenas buscar ganhos territoriais, mas também contribuir para dispersar forças ucranianas e ampliar o desgaste de um adversário que enfrenta dificuldades de reposição de efetivos. O objetivo não é afirmar a inevitabilidade de uma nova grande ofensiva russa, mas analisar as possibilidades estratégicas que a atual conjuntura pode oferecer a Moscou nos próximos meses.
A intensificação da Guerra Aérea nos últimos meses
Nos últimos meses, o conflito tem vivenciado um estágio de operações militares mais focadas no âmbito aéreo, com ambos os lados realizando ataques e bombardeios em massa com mísseis balísticos e ondas de drones contra o outro. Segundo dados do projeto Russia Matters, de março a julho de 2026, a Rússia tem mantido um número de mais de 6.000 ataques com drones por mês, número que, desde setembro de 2022, só havia sido alcançado em julho de 2025. Em relação à utilização de ataques com mísseis balísticos, segundo dados do United24 Media, desde maio, a Rússia tem alcançado um número superior a 85 mísseis balísticos por mês. No mês de julho de 2026, por exemplo, a Rússia obteve sua marca de maior número de mísseis balísticos lançados, somando 127, e assim superando a marca de 121 mísseis lançados em fevereiro. Esses números evidenciam um aumento quantitativo na utilização de ataques aéreos em relação a fases anteriores do conflito.
Seguindo os números indicados pelo United24 Media, o número de mísseis balísticos usados por Moscou entre maio e julho de 2026 supera o número total de mísseis usados no ano de 2024 inteiro, que chegaram a cerca de 200 a 300 mísseis no ano, enquanto 86 foram usados em maio, 96 em junho e 127 em julho deste ano. Parte principal da razão desse aumento nos últimos meses deve-se ao alto nível de eficiência que a Rússia vem obtendo com seus mísseis balísticos em ataques aéreos. De janeiro a julho deste ano, de acordo com porcentagens do Center For Strategic Studies, considerando todos os mísseis usados pela Rússia, como balísticos e cruzeiros, a interceptação ucraniana tem ficado em uma porcentagem inferior a 30% de sucesso, taxas criticamente baixas para sistemas antiaéreos, sendo o mês de junho a única exceção, com 32% de taxa de sucesso.
Essa eficiência decorre principalmente em razão da forte dependência ucraniana em obter suporte externo para aquisição de defesas antiaéreas capazes de interceptar grandes quantidades de mísseis balísticos russos, como os Iskander-M, principal modelo fabricado por Moscou. O sistema de mísseis Patriot, fabricado pelos Estados Unidos, por exemplo, tem sido parte central da defesa antiaérea ucraniana contra projéteis balísticos nos últimos anos, por ser um dos poucos modelos capazes de interceptar mísseis balísticos. Porém, nos últimos meses, o fornecimento americano à Ucrânia apresentou grande diminuição, o que consequentemente possibilitou maior eficácia aos balísticos russos, gerando maior vulnerabilidade à defesa aérea ucraniana e possibilitando maior espaço para ataques por Moscou.
Nesse contexto, os ataques aéreos russos têm apresentado grande complexidade, por integrarem mutuamente grandes números de ataques com drones e mísseis balísticos simultaneamente. Como consequência, o âmbito operacional aéreo vem gerando forte valor ofensivo à campanha militar russa.
Do lado ucraniano, a utilização de ataques com drones também vem demonstrando aumentos quantitativos. No mês de agosto, por exemplo, entre os dias 17 e 18, segundo o Ministro da Defesa russo, cerca de 1.600 drones ucranianos foram interceptados pelos sistemas antiaéreos russos, assim como 10 bombas aéreas e dois foguetes do sistema de lançamento múltiplo HIMARS, de fabricação norte-americana. Outro aspecto de destaque que evidencia o aumento da utilização de drones pela Ucrânia apresenta-se no crescimento de sua produção interna. Em 2025, por exemplo, o exército ucraniano estabeleceu a meta de produzir cerca de 4,5 milhões de drones, evidenciando a importância do uso militar da tecnologia. Além disso, sua utilização operacional ofensiva também registrou aumentos significativos entre 2024 e 2026. A exemplo de comparação, segundo o analista Clément Molin, em agosto de 2024, a Ucrânia lançou cerca de 1.000 ataques com drones contra a Rússia. Em julho de 2025, esse número subiu para a marca de 3.000 ataques. Já em março de 2026, cerca de 7.000 ataques foram lançados por Kiev.
Assim, embora durante todo o conflito os ataques aéreos venham possuindo grande centralidade nas operações militares, nos últimos meses observam-se aumentos quantitativos e qualitativos de ambos os lados com maior intensidade, em razão do fortalecimento do valor tático atribuído à guerra aérea, principalmente pelo lado russo. Em um momento do conflito no qual o avanço de ganhos territoriais pela Rússia não vem demonstrando aumentos significativos, pelo sentido ofensivo, pode-se entender que o setor aéreo ganhou maior centralidade, por permitir que a Rússia causasse danos a estruturas estratégicas ucranianas, como redes de energia, portos e corredores logísticos, dificultando o esforço de guerra de Kiev enquanto, mutuamente, a pressiona.
Consequentemente, a centralidade do domínio aéreo para ambos os lados, mas especialmente para a Rússia, teve seu valor ampliado nos últimos meses. Seguindo uma estratégia de Guerra de Atrito, Moscou vem utilizando ataques aéreos para desgastar recursos ucranianos, causar danos à economia e a setores estratégicos e comprometer corredores logísticos. Por meio de ondas de ataques que mesclam mísseis e drones, a Rússia impõe a Kiev um gasto constante de recursos, elevando o custo de sua defesa enquanto explora sua atual vulnerabilidade aérea. Nesse sentido, além da destruição física de alvos, os ataques também concedem à Rússia a capacidade de impor custos cumulativos ao adversário, como sobre sistemas de defesa aérea, infraestrutura energética e redes logísticas. Ao mesmo tempo, ataques contra pontos logísticos, como os portos de Odesa, Chornomorsk e Pivdenne, no Mar Negro, têm se tornado mais frequentes, permitindo que Moscou interrompa parte do fluxo comercial de exportações ucranianas pela região e amplie a pressão econômica sobre Kiev. Dessa forma, o poder aéreo passa a desempenhar uma função central na estratégia russa de desgaste, ao combinar a degradação de capacidades militares com a pressão sobre a sustentação econômica e logística do esforço de guerra ucraniano.
A Guerra terrestre nos últimos meses
Como anteriormente comentado, nos últimos meses, o âmbito operacional terrestre do conflito pelo lado russo tem apresentado poucos ganhos territoriais a Moscou. Segundo dados do Institute for the Study of War, obtidos através de gráficos do projeto Russia Matters, nos últimos meses, desde janeiro de 2026, os avanços territoriais da ocupação russa têm se mantido estaticamente na casa das 45 mil milhas quadradas (número que se mantém desde outubro de 2025), descendo das iniciais 45,762 de janeiro para 45,666 em julho.
Desde junho, grande parte do esforço operacional russo vem tendo principal foco na região conhecida como “Fortress Belt” de Donetsk, que corresponde à principal e última linha defensiva ucraniana no Donbass, incorporando grandes centros urbanos como Kostiantynivka, Druzhkivka, Kramatorsk e Sloviansk. Desde o início do conflito, embora tenha realizado grandes operações militares partindo do norte e oeste rumo a Kiev, por exemplo, o principal esforço ocupacional russo alocou-se ao leste ucraniano, em especial à região do Donbass e áreas litorais ao redor da Crimeia, o que justifica a ênfase na região.
No plano operacional, pela ótica militar das tropas russas, conseguir romper e conquistar o Fortress Belt significa expandir seu controle sobre a região do Donbass, assegurando áreas em Donetsk e outras regiões no interior já conquistadas, por dificultar possíveis contra-ataques e investidas ucranianas sobre esses territórios. Atualmente, segundo estatísticas do Deep State, cerca de 73,54% da extensão territorial de Donetsk está sob ocupação russa. Então, o domínio das regiões destacadas poderia oferecer um aumento dessa porcentagem, de modo que a Rússia poderia tentar parear a porcentagem do seu controle sobre Donetsk com os 99,62% de Luhansk, província que, juntamente a Donetsk, compõe a região do Donbass. Além disso, se obtiverem sucesso em dominar as áreas do Fortress Belt, as tropas russas podem estabelecer novos pontos de controle, possibilitando-lhes expandir suas opções de ataque e penetração territorial para outros pontos, como para o sul da região de Kharkiv, pressionando a Ucrânia enquanto eleva seus ganhos territoriais.
A atual pressão militar sobre Kostiantynivka e avanços nas áreas de Pokrovsk e Dobropillya evidenciam o enfoque operacional russo sobre Donetsk. Segundo o ISW, tropas russas avançaram cerca de 46 quilômetros quadrados no setor operacional de Pokrovsk e quase 35 km quadrados na área de Dobropillya. Esses avanços, ainda que pequenos, podem ser interpretados como parte de uma estratégia para pressionar Kostiantynivka, visando cortar rotas e forçar retração ucraniana. Além disso, as operações militares em Lyman também evidenciam o plano operacional russo de pressionar pontos do Fortress Belt através de posições distintas. A Rússia vem intensificando tentativas de penetração terrestre em Lyman, bem como a alocação de tropas ao seu redor. Segundo o ISW, isso pode ser parte de uma preparação para uma ofensiva mais poderosa na região.
A partir de Pokrovsk e Dobropillya, as tropas russas podem conseguir pressionar Kostiantynivka, que já enfrenta forte pressão militar russa. Os avanços obtidos em ambas as regiões podem ser interpretados como parte do lado tático do sul do plano operacional de dominar o Fortress Belt, enquanto as tentativas e operações em Lyman, por exemplo, evidenciam o lado norte do plano, pela sua proximidade com Sloviansk e Kramatorsk. Assim, as operações militares russas nesses pontos podem ser interpretadas como parte do seu esforço em “desmontar” e ocupar as partes do Fortress Belt.
Desse modo, em relação aos ganhos territoriais nos últimos meses, pode-se analisar que a campanha terrestre russa vem enfrentando uma fase de culminação, conceito usado no campo dos Estudos Estratégicos para referir-se a uma situação na qual tropas militares começam a ter dificuldades em obter maiores ganhos territoriais durante um determinado estágio de uma operação militar. Porém, ao analisar algumas das principais concentrações operacionais e batalhas nos últimos meses, especialmente no verão, pode-se concluir que, embora as forças russas não venham obtendo grandes aumentos ocupacionais, suas tropas vêm conseguindo expandir seus esforços acerca de Donetsk, bem como executar estratégias que podem contribuir para um objetivo operacional de aumentar seu controle na área, podendo, em caso de sucesso, possivelmente contribuir para novas investidas militares em outras regiões.
Novos soldados e uma possível intensificação de operações terrestres
Diante do contexto do âmbito terrestre e aéreo do teatro de operações nos últimos meses, torna-se possível analisar que a Rússia pode intensificar a realização de operações terrestres e investidas ofensivas, visando aumentar sua força em pontos de combate nos quais já vem demonstrando esforços, como em áreas de Donetsk, mas também possivelmente visando fortalecer ou abrir um novo front de batalha em outra região.
Além do âmbito estratégico, o envio de soldados norte-coreanos por Pyongyang, alinhado a uma possível intensificação do processo de recrutamento interno e de mercenários estrangeiros pela Rússia, pode ser um forte indicador de que Moscou deve intensificar suas operações terrestres nos próximos meses, bem como utilizar desses meios para fortalecer suas forças militares.
Segundo Zelensky e fontes de inteligência ucraniana, cerca de 50.000 soldados norte-coreanos poderão estar na Rússia até novembro, para ocupar funções nas regiões russas de Kursk, Bryansk e Belgorod, assim liberando tropas russas para atuar na frente de combate na Ucrânia, enquanto a Rússia mantém seus territórios protegidos. Dessa forma, a Rússia pode acrescentar material humano a fronts específicos enquanto protege seus territórios internos da fronteira com soldados qualificados e profissionalizados de Pyongyang.
Em relação a uma possível intensificação no processo de recrutamento interno, fontes estatais ucranianas como a Direção Principal de Informações e o Serviço de Informações Externas da Ucrânia relataram que Moscou deve preparar uma mobilização de 600.000 soldados adicionais em 2026 e 2027, sendo 300.000 nesse ano e 300.000 durante 2027. Segundo as fontes mencionadas, a Rússia aumentou seus critérios de elegibilidade para o recrutamento militar, agora possibilitando uma extensão da chamada de pessoas com condenações penais, além de criar um sistema de notificações eletrônicas que delimitam restrições a pessoas inscritas no recrutamento. Com isso, a Rússia pode aumentar o seu fluxo de recrutamento, possibilitando uma extensão de números humanos em uma conjuntura na qual o número de perdas em combate mantém-se alto, principalmente nas chamadas “death zones” dos campos de batalha.
Além disso, o número de mercenários estrangeiros recrutados por Moscou pode ser um ponto de destaque a crescer nos próximos meses. Desde o início do conflito, segundo a Defense Intelligence of Ukraine (DIU), cerca de 27.000 estrangeiros de diversos países do mundo foram recrutados pela Rússia, o que demonstra a utilização de uma rede de recrutamento internacional por Moscou. Para esse ano, segundo fontes da DIU, a Rússia planeja recrutar cerca de 18.500 mercenários estrangeiros para integrarem suas forças militares. Essa meta demonstra um aumento considerável em relação aos últimos anos e apresenta uma forma da Rússia conseguir continuar a expandir o seu contingente. Para os próximos meses, essa meta pode possivelmente apresentar crescimento, caso seja criada uma conjuntura na qual Moscou precise reforçar seu número de soldados para operações específicas sem causar altos danos ao seu contingente nacional.
Nesse sentido, o aumento do número de soldados disponíveis para a Rússia nos próximos meses deve favorecer uma conjuntura operacional na qual a Rússia esteja intensificando operações terrestres em diferentes posições do teatro de operações. Além disso, esse aumento pode ser benéfico a Moscou por possivelmente pressionar Kiev a também precisar aumentar seu contingente, em um momento em que a escassez humana vem sendo um desafio ao governo de Zelensky. Em 2025, por exemplo, a idade média dos soldados ucranianos era estimada em aproximadamente 45 anos, evidenciando o envelhecimento de parte significativa das forças empregadas no front e levando Kiev a adotar iniciativas específicas para atrair combatentes mais jovens. Em agosto de 2026, a situação permanecia crítica, com autoridades ucranianas reconhecendo a existência de uma importante escassez de efetivos para sustentar suas operações militares. Nesse contexto, as dificuldades de recrutamento e reposição de soldados podem ampliar os efeitos de uma estratégia de Guerra de Atrito, uma vez que a necessidade de distribuir efetivos limitados entre diferentes setores do front reduz a capacidade ucraniana de concentrar forças e responder simultaneamente a múltiplas pressões russas.
Por que intensificar as operações terrestres?
Em razão do atual contexto operacional do conflito e de seus meses anteriores, a intensificação de operações terrestres pode possuir um valor estratégico benéfico a Moscou. Como anteriormente mencionado, o fortalecimento de investidas em locais que vêm possuindo centralidade no teatro de operações, como no Fortress Belt de Donetsk e regiões próximas, pode gerar ganhos estratégicos à Rússia, como assegurar a região do Donbass e melhorar condições para possíveis investidas militares em outras regiões. Com isso, com a chegada de novos reforços, Moscou poderia utilizar de mais e novos soldados para intensificar sua pressão militar na área, em pontos como Pokrovsk, Dobropillya, Kostiantynivka, Lyman, Sloviansk e Kramatorsk.
Assegurar o Donbass, bem como suas posições ao leste, é tido como prioridade operacional russa no conflito. Com isso, a intensificação de operações terrestres pode ser identificada como principal meio para conclusão desse objetivo, que vem sendo o principal centro do teatro de operações.
Além disso, focar em novas frentes de batalha, seja intensificando uma ou começando uma nova, pode ser benéfico para uma estratégia de desgaste de recursos, oriunda da Guerra de Atrito promovida por Moscou. Por exemplo, caso decidisse intensificar sua campanha militar ao norte, em fronts como os ao norte de Samy e nordeste de Kharkiv, a Rússia poderia fazer com que a Ucrânia deslocasse tropas para esses pontos, o que poderia, como consequência, enfraquecer posições de defesa e diminuir ataques contraofensivos. Em agosto, segundo dados do Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), Kharkiv foi a segunda região ucraniana com o maior número de combates, apenas atrás de Donetsk. Grande parte do esforço russo na área concentra-se majoritariamente no extremo norte, perto da fronteira russa. Segundo o ISW, o interesse russo reside principalmente em criar uma zona-tampão próxima a sua fronteira, que pudesse dificultar ataques ucranianos ao seu território, como em direção a Belgorod. Em adição, a parte leste da região também vem sendo teatro de combates, em razão de sua posição geográfica próxima ao Donbass, o que a torna estratégica para ambos os lados, por possivelmente possibilitar operações de defesa e ataque entre os lados.
Nesse contexto, em caso de uma intensificação tática nos fronts de Kharkiv, a Rússia poderia forçar a Ucrânia a fazer uma possível realocação de tropas e gastos de recursos, que poderiam enfraquecer suas defesas e contraofensivas em outras regiões, favorecendo o ataque terrestre russo em áreas como Donetsk, ao Fortress Belt. Ao mesmo tempo, a Rússia poderia assegurar seus objetivos de afastar tropas ucranianas da proximidade de sua fronteira, evitando ofensivas, enquanto também pode tentar aumentar seus ganhos territoriais em Kharkiv, no norte e ao leste, que possui maior proximidade com a região do Donbass.
Assim, uma intensificação de operações e investidas terrestres na atual conjuntura do conflito poderia ser benéfica a Moscou, por ajudar a Rússia a fortalecer sua pressão militar em áreas tidas como prioridade operacional. Isso ocorreria em uma conjuntura do teatro de operações na qual estratégias oriundas da Guerra de Atrito vêm sendo adotadas pelas forças russas para desgastar o esforço de guerra ucraniano, que, além de suprimentos tecnológicos, também vem enfrentando escassez de soldados para o front.
Portanto, em um estágio operacional do conflito no qual Moscou vem tentando enfraquecer as capacidades defensivas ucranianas, e que os ganhos territoriais resultantes de operações terrestres não vêm apresentando crescimento, por meio do fortalecimento quantitativo de suas forças, a intensificação de operações terrestres em fronts estratégicos poderia ser benéfica à Rússia, por melhorar suas chances de obter sucesso em seus objetivos estratégicos, como o controle do Donbass.
Conclusão
Diante dessa conjuntura apresentada, observa-se que o conflito russo-ucraniano atravessa uma fase na qual a dimensão aérea adquiriu elevado valor operacional, especialmente como instrumento de desgaste das capacidades militares, logísticas e econômicas ucranianas. O aumento da utilização de drones e mísseis, combinado aos ataques contra infraestruturas estratégicas e corredores logísticos, permitiu à Rússia ampliar a pressão sobre o esforço de guerra de Kiev mesmo diante da limitada evolução de seus ganhos territoriais. Entretanto, a maior centralidade dos meios aéreos não significa a perda de relevância das operações terrestres. Ao contrário, a dificuldade de transformar o desgaste produzido pelos ataques aéreos em conquistas territoriais sustentáveis mantém o poder terrestre como elemento indispensável para a conclusão dos objetivos estratégicos russos.
Nesse sentido, a atual dinâmica do front terrestre, especialmente no Donbass, demonstra uma possível revalorização das operações terrestres russas. A concentração de esforços sobre o Fortress Belt, acompanhada das operações em setores como Pokrovsk, Dobropillya, Kostiantynivka e Lyman, indica a manutenção da busca por ganhos territoriais e pelo enfraquecimento das principais linhas defensivas ucranianas. Embora os avanços registrados permaneçam limitados, a continuidade da pressão nesses setores pode criar condições para futuras operações de maior intensidade. Assim, diante da atual fase do conflito, o poder aéreo pode contribuir para criar condições mais favoráveis à atuação das forças terrestres.
A capacidade de realizar essa intensificação, entretanto, permanece condicionada à disponibilidade de efetivos. A busca russa por ampliar seu contingente por meio do recrutamento interno, de combatentes estrangeiros e da participação norte-coreana demonstra a importância crescente da geração de força para a continuidade de suas operações. A disponibilidade de novos soldados poderia permitir a Moscou sustentar maior pressão sobre setores já prioritários e, simultaneamente, considerar a intensificação de eixos secundários. Nesse cenário, a participação norte-coreana adquire relevância não apenas pelo número de militares envolvidos, mas pela possibilidade de liberar efetivos russos empregados na proteção de áreas fronteiriças e em outras funções, ampliando a margem de manobra de Moscou para sua campanha na Ucrânia.
Essa possibilidade também se relaciona diretamente à lógica da Guerra de Atrito. A eventual intensificação de operações em regiões como Kharkiv poderia possuir valor estratégico mesmo sem resultar imediatamente em grandes conquistas territoriais. Ao obrigar a Ucrânia a distribuir tropas, reservas, sistemas de defesa e recursos entre diferentes setores, Moscou poderia dificultar a concentração de forças nos principais eixos do Donbass. Dessa forma, a abertura ou intensificação de novos eixos não precisaria necessariamente ter como finalidade principal a conquista territorial, podendo também funcionar como instrumento de dispersão das forças ucranianas, ampliando o desgaste sobre uma Ucrânia que enfrenta dificuldades de reposição de efetivos.
Portanto, a conjuntura analisada sugere uma evolução da guerra terrestre russa nos próximos meses, na qual a Rússia demonstra querer aumentar sua capacidade de gerar e sustentar forças suficientes para explorar vulnerabilidades ucranianas. A ampliação do contingente russo pode criar oportunidades para intensificar operações no Fortress Belt ou exercer pressão simultânea em outros setores. Dessa maneira, não se pode afirmar que uma nova fase de grandes ofensivas terrestres seja inevitável, mas existem elementos que permitem considerar sua intensificação como uma possibilidade estratégica relevante para o lado russo.
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Eduardo Correia Leal Maranhão
Graduando em Relações Internacionais pela Universidade La Salle (RJ), com interesse em política externa, geopolítica e segurança internacional. Atua como pesquisador da região Europa no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) da Escola de Guerra Naval e realizou estágio voluntário no Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil, com apoio a treinamentos de peacekeepers da ONU. Realizou o curso de extensão em Segurança Internacional e Defesa, promovido pela Escola Superior de Guerra (ESG), na linha de pesquisa 1: Segurança Internacional e Geopolítica. Participa de projeto de extensão focado na elaboração de pautas de paradiplomacia para o estado do Rio de Janeiro. Foi medalhista de bronze na Olimpíada Brasileira de Geopolítica, promovida pela Seleta Educação, e obteve desempenho de alta performance na Odisseia Brasileira de Diplomacia e Relações Internacionais, promovida pelo Grupo Ubique Júnior.
Link LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/eduardo-correia-857851353






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