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Após quase 40 anos de conflito, uma ilha do Pacífico vai tornar-se independente

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    CERES
  • há 1 hora
  • 5 min de leitura

Qual é este país que se prepara para ser o 196.º Estado do mundo? Eis a história da ilha de Bougainville.


Bougainville está localizada no sudoeste do Oceano Pacífico, a cerca de 1.500 km da Austrália e 2.000 km da Nova Caledônia. É um território com cerca de 300.000 habitantes, atualmente ligado à Papua-Nova Guiné. Até setembro de 2027, Bougainville se separará desse país e conquistará sua independência, tornando-se o estado mais jovem do planeta. A criação de um estado é um fato raro o suficiente para ser mencionado. A última vez que isso aconteceu foi em 2011, quando o Sudão do Sul se separou do Sudão.


Para entender por que hoje esse território quer se emancipar da Papua-Nova Guiné, é preciso primeiro voltar à sua história.


Se o nome dessa ilha evoca algo ou simplesmente parece francês, é justamente porque esse território foi descoberto por um navegador francês.


Entre 1766 e 1769, Louis Antoine de Bougainville liderou a primeira viagem francesa ao redor do mundo por mar, ordenada pelo rei Luís XV. O objetivo declarado dessa expedição era explorar o Oceano Pacífico, descobrir as terras austrais, mas também novos territórios para colonizar. Durante sua viagem, Bougainville explorou vários arquipélagos e, em 30 de junho de 1768, entre as Ilhas Salomão e Papua-Nova Guiné, “descobriu” essa terra à qual mais tarde daria seu nome, a Ilha Bougainville.


Após essa “descoberta”, a França não estabeleceu colônias no local. Mas isso não significava que as populações locais pudessem viver tranquilas e livremente, pois elas continuavam enfrentando exércitos estrangeiros. Bougainville foi colonizada pela primeira vez em 1884 pelo Império Colonial Alemão.


Mas quando a Alemanha perdeu a Primeira Guerra Mundial, os países vencedores decidiram privá-la dessas colônias. A ilha do Pacífico passou então para a tutela da Austrália em 1919 e foi ocupada pelas forças japonesas entre 1942 e 1943, durante a Segunda Guerra Mundial. Ela voltou alguns anos depois à soberania australiana, antes de ser finalmente anexada à força à Papua-Nova Guiné, quando esse território, também colônia australiana, conquistou sua independência em 1975.


Desde então, a história de Bougainville não se acalmou, pois, sua luta pela independência se tornou um verdadeiro banho de sangue por causa de uma mina.


Na verdade, em Bougainville, a população é pobre, muito pobre mesmo, já que a maioria dos habitantes da ilha vive abaixo do limiar da pobreza de 2 euros por dia. No entanto, seu solo é rico em recursos naturais e abriga o que foi, na época de sua exploração, a maior mina de cobre do mundo, a mina Panguna, em atividade de 1972 a 1989.


Essa mina, onde também se encontra muito ouro, é literalmente o nervo da guerra. Na década de 70, a Papua-Nova Guiné era acionista de 20% dessa mina explorada pela Rio Tinto, uma empresa mineira australiana. Para contextualizar, foram os lucros gerados pelas exportações dos recursos naturais extraídos que permitiram à Papua conquistar sua independência em 1975. A mina de Panguna podia gerar mais de um bilhão de receitas fiscais nacionais por ano e representava cerca de um quarto do PIB, daí a importância de manter Bougainville em seu território.


Mas tudo mudou em 1988, quando a população se rebelou contra a empresa que explorava o jazigo. É importante saber que menos de 1% dos lucros eram reinvestidos em Bougainville e os danos ambientais causados pela atividade mineira suscitaram veementes protestos. As reivindicações relativas a esta mina provocaram os primeiros confrontos entre o exército governamental, por um lado, e os rebeldes separatistas da ARB, o exército revolucionário de Bougainville, por outro. A ira espalhou-se então como fogo pelo resto da ilha, que considerava que a Papua estava a roubar os seus recursos.


Os primeiros sinais de independentismo tornam-se cada vez mais evidentes e é então que eclode uma guerra civil que só terminará 10 anos depois. Trata-se simplesmente do conflito mais sangrento na Oceania desde a Segunda Guerra Mundial. Entre 15 000 e 20 000 pessoas perderam a vida. Três anos após o fim da guerra, um acordo de paz foi assinado entre Papua-Nova Guiné e os separatistas em 2001, prevendo a criação da região autônoma de Bougainville, bem como a realização, antes de 2020, de um referendo sobre a independência da ilha.


Essa votação foi finalmente organizada em 2019 e a taxa de participação ultrapassou 87%. O resultado foi inequívoco. À pergunta “Bougainville deve obter maior autonomia ou independência?”, 98% dos eleitores se pronunciaram a favor da soberania da ilha. Ismael Toroama, presidente do governo autônomo de Bougainville, e o governo da Papua-Nova Guiné chegaram então a um acordo em 2021 sobre um calendário que culminaria numa declaração de independência até 2027.


Quatro anos depois, em 5 de dezembro de 2025, o primeiro-ministro da Papua-Nova Guiné, James Marapé, anunciou que o processo de independência de Bougainville entrava na sua fase final. O parlamento da Papua-Nova Guiné deve agora debater o resultado do referendo até junho de 2026. Teoricamente, a independência e os resultados do referendo devem primeiro ser ratificados pelo Parlamento, ou seja, devem ser aprovados pelos deputados antes que Bougainville possa se tornar oficialmente um país independente.


Esta votação poderá criar um precedente e, atualmente, os independentistas temem que os deputados da Papua-Nova Guiné se recusem a ratificar o referendo por receio de encorajar outros territórios a imitar Bougainville. Seja qual for a sua decisão, Ismael Toroama já deixou claro que, com ou sem o acordo da Papua-Nova Guiné, a ilha de Bougainville será independente até 1.º de setembro de 2027, o mais tardar.


Ainda hoje, Bougainville obtém 90% de suas receitas do governo da Papua-Nova Guiné, o que torna sua situação econômica muito frágil. É por isso que as autoridades locais, assim como a população, contam muito com uma possível reabertura da mina de Panguna para garantir sua autonomia financeira. Estima-se que a mina de Panguna ainda contenha mais de 5 milhões de toneladas de cobre e 19 milhões de onças de ouro, ou seja, cerca de 590 toneladas (ou 12 milhões e 370 toneladas, dependendo das fontes), o que representaria cerca de 100 bilhões de euros ao preço atual de mercado.


O problema é que, desde a guerra, ela está totalmente abandonada e, é necessário reconstruir toda a infraestrutura, o que representa uma obra avaliada em vários bilhões de dólares. É uma reabilitação que a ilha não tem meios para pagar e é por isso que as autoridades locais estão a considerar confiar os trabalhos e a exploração da mina a uma multinacional estrangeira, correndo o risco de voltar a cair sob uma certa forma de domínio externo.


Como no passado, a China propôs em 2019 um bilhão de dólares para modernizar as infraestruturas, o que foi categoricamente recusado pela Papua-Nova Guiné na época. O presidente de Bougainville, por sua vez, está pensando em recorrer a Donald Trump. Mas, por enquanto, o executivo americano não mostrou sinais reais de interesse.


Marco Alves

Mestre em Ciências Políticas pela Universidade de Paris Oeste Nanterre, em Direito Internacional e Europeu pela Universidade Grenoble Alpes e em Relações e Negocios Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais de Paris(ILERI).

Atuou em 30 países, dos quais o Brasil onde trabalhou durante 10 anos, inclusive para o Governo do Estado de Pernambuco como especialista em desenvolvimento.

Trabalhou para ONGs no continente Africano como especialista em retomada econômica em zonas pós conflito.

Hoje é diretor de uma consultoria internacional especializada em ciências e engenharia social com intervenção no Burquina Faso, Costa do Marfim, Mali e Niger.

Correspondente para a França e a Europa para a radio CBN Recife.

Presidente da Assembleia do IFSRA (Institute for Social Research in Africa) 

Empreendedor social, palestrante e mentor pela organização internacional Make Sense

Consultor em inteligência estratégica e gestão de riscos para o setor empresarial. 

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