Rivalidade Saudita-Emiradense. Uma fratura estratégica no coração do campo ocidental
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Observação : este artigo foi concebido antes do ínicio dos ataques contra o Irão*
*Escrito em Português de Portugal
Introdução
Enquanto a atenção internacional permanece concentrada nos conflitos abertos do Oriente Médio — especialmente a guerra em Gaza, as tensões entre Israel e o Irã e a instabilidade persistente no Levante — uma transformação estrutural mais silenciosa está em curso no sistema regional: o surgimento de uma rivalidade estratégica entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes.
Durante décadas, os dois países foram percebidos como pilares complementares do bloco sunita pró-ocidental no Golfo. Contudo, nos últimos anos, essa relação evoluiu gradualmente de uma aliança estratégica para uma competição geopolítica discreta, mas crescente, centrada no controle de rotas comerciais, portos estratégicos e zonas de influência política no Oriente Médio e no Corno de África.
Essa rivalidade não assume a forma de um confronto militar direto. Ela manifesta-se principalmente por meio de guerras por procuração, competição geoeconómica e estratégias divergentes de projeção de poder, particularmente no Iémen, no Sudão e no Chifre da Africa.
O fenômeno insere-se num contexto geopolítico mais amplo caracterizado por três dinâmicas estruturais: a redução do envolvimento militar direto dos Estados Unidos na região, o desgaste relativo do eixo de resistência liderado pelo Irã e a crescente autonomia estratégica das potências do Golfo.
I. As bases históricas da parceria saudita-emiradense
Uma convergência moldada pela Revolução Iraniana
A cooperação estratégica entre Riade e Abu Dhabi consolidou-se no contexto de profunda transformação regional desencadeada pela Iranian Revolution. A emergência de um regime revolucionário xiita em Teerã foi percebida pelas monarquias do Golfo como uma ameaça existencial à estabilidade política da região.
Em resposta, seis Estados árabes da península arábica criaram em 1981 o Gulf Cooperation Council (CCG), um mecanismo de coordenação política, econômica e de segurança apoiado pelos Estados Unidos.
O objetivo principal era duplo:
· Garantir a sobrevivência dos regimes monárquicos
· Coordenar a defesa coletiva diante da ameaça iraniana.
Desde então, a cooperação militar e política entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos tornou-se um dos pilares da arquitetura de segurança do Golfo.
A convergência estratégica entre MBS e MBZ
A aproximação entre os dois países foi reforçada durante a década de 2010 pela relação pessoal entre o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman e o presidente emiradense Mohammed bin Zayed Al Nahyan.
Durante esse período, Abu Dhabi desempenhou um papel importante na difusão de um modelo político caracterizado por:
· centralização do poder
· modernização econômica acelerada
· repressão de movimentos islamistas políticos.
Essa convergência manifestou-se claramente na intervenção militar conjunta no Iémen iniciada em 2015 contra o movimento houthi apoiado pelo Irã.
Naquele momento, Riade e Abu Dhabi apareciam como os pilares de uma coalizão regional apoiada logisticamente pelos Estados Unidos.
II. Um ambiente estratégico profundamente reconfigurado
A redução do envolvimento militar americano
Desde o final da década de 2000, a política externa dos Estados Unidos tem demonstrado uma tendência crescente de redução do envolvimento militar direto no Oriente Médio.
Essa evolução tornou-se evidente durante as administrações de Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden.
A prioridade estratégica de Washington deslocou-se gradualmente para a competição sistêmica com a China, levando a uma delegação crescente das responsabilidades de segurança regional aos parceiros locais.
Esse movimento produziu um efeito paradoxal : ao mesmo tempo que aumenta a autonomia estratégica das potências regionais, também intensifica a competição entre elas.
O desgaste do eixo de resistência
Paralelamente, o chamado “eixo da resistência” liderado pelo Irã — que inclui atores como o Hezbollah, o Hamas e o regime de Bashar al-Assad — sofreu um desgaste significativo ao longo da última década.
A guerra civil síria devastou o Estado sírio, enquanto as organizações militantes aliadas de Teerã sofreram perdas militares importantes e enfrentam crescentes pressões econômicas e políticas.
Embora o eixo continue relevante, seu enfraquecimento relativo criou um vácuo estratégico regional, incentivando as potências do Golfo a expandirem suas próprias zonas de influência.
III. Da cooperação à competição estratégica
Duas visões divergentes da liderança regional
A transformação da relação saudita-emiradense decorre em grande parte de diferenças estruturais entre os dois países.
A Arábia Saudita, potência demográfica e religiosa central do mundo sunita, privilegia uma estratégia de estabilização regional destinada a criar condições favoráveis à implementação de seu ambicioso programa de transformação econômica, a Vision 2030.
Já os Emirados Árabes Unidos desenvolveram uma estratégia distinta baseada na projeção de poder geoeconómico. Abu Dhabi procura consolidar uma rede de infraestruturas portuárias, zonas logísticas e bases militares ao longo das principais rotas marítimas que ligam o Oceano Índico ao Mediterrâneo.
Essa estratégia é frequentemente descrita por analistas como uma forma de talassocracia logística.
O Iêmen como laboratório da rivalidade
A divergência tornou-se particularmente visível no conflito do Iêmen.
Enquanto Riade apoia o Conselho Presidencial que representa o governo internacionalmente reconhecido, Abu Dhabi fornece apoio político e militar ao Movimento do Sul, movimento separatista que pretende restaurar a antiga República Democrática Popular do Iêmen.
O sul do país concentra a maioria das reservas de hidrocarbonetos e controla o acesso estratégico ao Golfo de Aden e o Oceano Índico, tornando-se um ponto crucial da competição regional.
IV. Portos, estreitos e rotas marítimas
A estratégia emiradense no Chifre da África
A projeção estratégica dos Emirados estende-se no Chifre da Africa, particularmente à Somaliland. A empresa portuária DP World desenvolveu importantes infraestruturas logísticas no porto de Berbera. Esse projeto insere-se numa estratégia mais ampla de controle indireto das rotas marítimas que atravessam o estreito de Bab el-Mandeb, por onde transitam cerca de 10 a 12% do comércio marítimo mundial.
Em resposta, a Arábia Saudita tem reforçado suas relações com o governo federal da Somalia, que se opõe a qualquer reconhecimento da Somalilândia.
O Sudão como teatro de guerra por procuração
A guerra civil no Sudão tornou-se outro palco de competição indireta.
Os Emirados são frequentemente acusados de apoiar as Forças de Suporte Rápido, enquanto a Arábia Saudita mantém relações mais estreitas com as Forças Armadas Sudanenses. O país possui cerca de 800 km de costa no Mar Vermelho, incluindo o porto estratégico de Porto Sudão, essencial para o comércio regional e para o acesso ao interior africano.
V. Implicações estratégicas
Fragmentação política regional
A competição entre Riade e Abu Dhabi tende a favorecer a fragmentação dos espaços estatais frágeis, incentivando o fortalecimento de atores armados locais.
Essa dinâmica aumenta os riscos de ressurgimento de organizações jihadistas como Al-Qaeda na Península Arábica.
Militarização crescente da região
A incerteza sobre o compromisso de segurança americano e a intensificação das rivalidades regionais podem levar a uma nova corrida armamentista no Golfo.
Nesse contexto, o aprofundamento das relações estratégicas entre a Arábia Saudita e o Paquistão — única potência nuclear do mundo muçulmano — é frequentemente interpretado como um possível mecanismo de dissuasão indireta.
Conclusão
A rivalidade emergente entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos representa uma das transformações mais significativas do sistema regional do Oriente Médio na última década.
À medida que o antagonismo tradicional entre o Irã e o bloco ocidental perde parte de sua centralidade estratégica, uma nova competição intra-aliada está emergindo pelo controle de portos, rotas marítimas e zonas de influência política.
Essa dinâmica sinaliza uma evolução mais ampla da ordem regional: a passagem de um sistema dominado por rivalidades ideológicas e sectárias para um sistema cada vez mais estruturado por lógicas de poder geoeconómico e competição imperial entre potências médias.
As consequências humanas e políticas dessa transformação já são visíveis no Iêmen, no Sudão e no Chifre da Africa — regiões onde os equilíbrios de poder continuam altamente voláteis.
Um pouco de prospectiva....
Cenários geopolíticos para 2030
Rivalidade saudita-emiradense e reconfiguração do Oriente Médio
Cenário 1 – Rivalidade controlada e divisão funcional de influência
Neste cenário, a competição entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos permanece real, mas é gerida de forma pragmática, sem escalada direta. Ambos os países reconhecem que uma confrontação aberta enfraqueceria o bloco do Golfo e criaria oportunidades estratégicas para potências externas.
A Arábia Saudita consolida-se como potência continental e política do mundo árabe, concentrando-se na estabilização do Levante e na implementação da sua estratégia de transformação econômica Vision 2030. Os Emirados, por sua vez, aprofundam o seu papel como potência logística e marítima, expandindo redes portuárias e zonas de influência no Mar Vermelho, no Oceano Índico e no Chifre da África.
Neste contexto, teatros de rivalidade como o Iêmen ou o Sudão permanecem fragmentados, mas sem evoluir para guerras regionais de maior escala. O estreito de Bab el-Mandeb torna-se um espaço de competição econômica e militar limitada, mas relativamente estável.
Esse cenário corresponderia a uma forma de multipolaridade regional estabilizada, na qual as potências do Golfo assumem maior autonomia estratégica enquanto os Estados Unidos mantêm um papel de árbitro distante.
Probabilidade estimada: média a alta.
Cenário 2 – Escalada de competição e fragmentação regional
Neste segundo cenário, a rivalidade evolui para uma competição aberta por zonas de influência, transformando vários conflitos locais em verdadeiras guerras por procuração.
A divisão entre Riade e Abu Dhabi aprofunda-se particularmente no Iêmen, onde o sul separatista apoiado pelos Emirados consolida uma entidade política autónoma, enquanto o norte permanece sob influência saudita e iraniana.
No Sudão, a guerra civil prolonga-se com o apoio externo às diferentes facções, agravando a fragmentação do Estado. Paralelamente, a competição portuária intensifica-se ao longo do Mar Vermelho e do Chifre da África, envolvendo territórios estratégicos como a Somaliland.
A ausência de uma presença estabilizadora forte dos Estados Unidos permite que outras potências externas ampliem a sua presença, nomeadamente a China e a Russia.
O resultado seria uma regionalização das rivalidades globais, com o Mar Vermelho transformando-se num espaço estratégico disputado por múltiplos atores.
Probabilidade estimada: média.
Cenário 3 – Reconvergência estratégica do Golfo
Neste cenário, choques externos levam Riade e Abu Dhabi a reconstituir uma aliança estratégica mais sólida.
Uma escalada regional envolvendo o Iran ou uma crise energética global poderia levar as monarquias do Golfo a reforçar a cooperação militar e política no âmbito do Gulf Cooperation Council.
Essa reconvergência seria acompanhada por uma coordenação mais estreita das políticas de segurança marítima no Golfo de Aden e no Mar Vermelho, assim como por iniciativas conjuntas de estabilização no Iêmen e no Sudão.
Nesse cenário, o Golfo emergiria como um polo regional mais coeso, capaz de atuar coletivamente em questões de segurança energética, comércio marítimo e investimento internacional.
Contudo, essa reconvergência provavelmente não eliminaria completamente a competição estrutural entre os dois países, que continuaria a manifestar-se no plano econômico e tecnológico.
Probabilidade estimada: baixa a média, mas dependente de choques geopolíticos externos.
Síntese estratégica
Até 2030, a rivalidade entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos poderá evoluir em três direções principais: competição controlada, escalada regional ou reconvergência estratégica.
Entre esses cenários, o mais plausível é uma competição administrada, caracterizada por rivalidade geoeconómica e influência indireta em regiões periféricas do sistema do Oriente Médio, particularmente no Mar Vermelho e no Chifre da África.
Essa evolução sugere que o sistema regional do Oriente Médio está gradualmente a transformar-se num espaço multipolar dominado por potências médias, onde alianças são mais fluidas e a competição se estrutura cada vez mais em torno de rotas comerciais, portos estratégicos e investimentos logísticos.

Marco Alves
Mestre em Ciências Políticas pela Universidade de Paris Oeste Nanterre, em Direito Internacional e Europeu pela Universidade Grenoble Alpes e em Relações e Negocios Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais de Paris(ILERI).
Atuou em 30 países, dos quais o Brasil onde trabalhou durante 10 anos, inclusive para o Governo do Estado de Pernambuco como especialista em desenvolvimento.
Trabalhou para ONGs no continente Africano como especialista em retomada econômica em zonas pós conflito.
Hoje é diretor de uma consultoria internacional especializada em ciências e engenharia social com intervenção no Burquina Faso, Costa do Marfim, Mali e Niger.
Correspondente para a França e a Europa para a radio CBN Recife.
Presidente da Assembleia do IFSRA (Institute for Social Research in Africa)
Empreendedor social, palestrante e mentor pela organização internacional Make Sense
Consultor em inteligência estratégica e gestão de riscos para o setor empresarial.
Referências:
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GCC Secretariat, The Charter of the Cooperation Council, 1981.
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