Mudança de postura e estratégia: A nova abordagem da China em relação a Taiwan
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Eduardo Correia Leal Maranhão
INTRODUÇÃO
Nas últimas semanas, ocorreu um encontro entre o Partido Comunista Chinês (PCC) e o Kuomintang (KMT), um dos principais partidos políticos de oposição de Taiwan. O encontro ocorreu em Pequim, envolvendo o presidente chinês Xi Jinping e a principal líder do KMT, Cheng Li-Wun, e teve como foco a retomada de diálogos entre Taiwan e a China. Em Taiwan, o KMT apresenta-se como um partido favorável à aproximação com a China. Essa postura é contrária à do atual partido político vigente de Taiwan, o Partido Progressista Democrático, que defende a adoção de uma política externa mais conjunta aos Estados Unidos e distante de Pequim.
O encontro marcou o fim de um período de 11 anos sem reuniões entre representantes políticos de Taiwan e da China, sendo o último realizado em 2015, em Singapura, entre o atual presidente chinês e a ex-presidente de Taiwan, Ma Ying-jeou, do KMT. Com isso, o encontro realizado em abril possui um valor simbólico, por marcar uma reaproximação entre representantes políticos taiwaneses e chineses, em meio a uma conjuntura internacional de tensões na Ásia. Além do nível simbólico, a reunião também apresentou consequências positivas nas relações entre as duas partes. A China anunciou uma iniciativa que promove medidas que visam à promoção de uma reaproximação com Taiwan, embora o presidente Xi Jinping mantenha a posição chinesa de não aceitação da independência taiwanesa e defesa da “reunificação” como objetivo final.
Dentre as principais medidas anunciadas, destacam-se a criação de um mecanismo regular para comunicação entre a China e o KMT; políticas para compartilhamento de água potável, gás e eletricidade; projetos para construção de pontes visando interligar a China à ilha; retomada de voos regulares para cidades taiwanesas; políticas de intercâmbio cultural e universitário; e facilitação da entrada de produtos agrícolas taiwaneses.
Também após o encontro, a líder do KMT declarou a importância de um compromisso entre o partido e o PCC para o fortalecimento da confiança política mútua e ampliação do comércio e intercâmbio cultural. Cheng Li-Wun também destacou a continuidade da posição contrária do partido à independência formal de Taiwan, aderindo ao Consenso de 1992, que prevê a existência de uma só China.
Assim, como fruto da reunião, há um retorno das relações entre China e Taiwan, que voltam a ser fortalecidas desde a entrada do Partido Progressista Democrático no poder, em 2016. A aproximação pode indicar uma mudança na postura chinesa frente à ilha e ocasionar possíveis consequências que se alinham aos interesses de Pequim.
A IMPORTÂNCIA DE TAIWAN
Desde 2016, quando cortou relações oficiais com Taiwan, a China tem aumentado a pressão política e militar sobre Taipei, adotando uma postura rígida que utiliza capacidades dissuasórias como instrumento de pressão sobre a ilha. Nos últimos anos, com o crescimento militar chinês, exercícios militares navais mais próximos à costa taiwanesa têm se tornado mais frequentes, demonstrando a posição chinesa em relação ao seu relacionamento com a ilha. Os exercícios militares realizados em 2022 e no final de 2025 podem ser interpretados como episódios que evidenciam a postura de Pequim nos últimos anos.
Segundo o cientista político norte-americano John Mearsheimer, potências buscam obter hegemonia regional, em razão de, na tese do autor, a hegemonia global não ser algo possível. Nessa perspectiva, a reivindicação sobre Taiwan implica à China um objetivo primário para o seu futuro, considerando a importância geopolítica que a ilha possui. Ao possuir estreitas relações com os Estados Unidos, na visão chinesa, Taiwan torna-se um ponto de resistência à hegemonia regional de Pequim, podendo ser uma área que abriga tropas militares americanas e que fortalece a indústria tecnológica de Washington, por ser um dos principais centros de fabricação de semicondutores, materiais essenciais para a criação de inteligências artificiais.
Como consequência, além de poder apresentar ameaças à China, em razão da proximidade geográfica e do relacionamento com Washington, Taiwan também fortalece os Estados Unidos, por fornecer semicondutores e manter ampla relação comercial, na qual os Estados Unidos aparecem como o segundo principal destino de exportações de Taipei, e ajudar a reforçar a presença marítima americana de contenção à China no Mar do Sul da China e na Ásia. Nesse contexto, Pequim entende a reivindicação da ilha como essencial para a manutenção de sua hegemonia regional.
Assim, de acordo com autores como Elbridge Colby, a China pode tentar tomar Taiwan como um passo decisivo para dominar a Ásia. Esse viés baseia-se na importância que a área possui e no comportamento que a China vem apresentando nos últimos anos, de maior ênfase na incorporação do território e na realização de exercícios militares, como antes mencionado.
MUDANÇA DE POSTURA?
Embora desde 2016 tenha adotado uma postura mais confrontacional, com a recente volta da aproximação com o KMT e a adoção de medidas cooperativas, a China pode estar utilizando uma nova postura para aproximar-se da ilha e perseguir os seus objetivos. Agir com ênfase diplomática, ao invés da militar, segue sendo um princípio da política externa chinesa, que entende a demanda econômica e política que os conflitos exigem. Seguindo esse princípio, a China tem evitado presença em conflitos, priorizando seu crescimento econômico e comercial como forma de expandir sua influência e poder no sistema internacional.
O aumento do seu prestígio diplomático e de sua capacidade econômica renderam força e oportunidades a Pequim, que utilizou esses ganhos para criar instrumentos de política externa que maximizaram ambos os setores políticos e comerciais do país, como a Belt and Road Initiative (BRI) e a participação em fóruns multilaterais como o BRICS. Dessa forma, ações militares diretas vêm sendo evitadas pela China, por serem atos contrários aos princípios, realizações e interesses construídos pela diplomacia chinesa ao longo dos anos.
Assim, embora a situação com Taiwan tenha sido conduzida com maior ênfase militar por Pequim, por não se tratar de uma situação ordinária, caso haja margem para uma atuação mais diplomática com a ilha, visando à reunificação, pelo histórico e identidade diplomática chinesa, a China deve optar por evitar ações que envolvam o uso da força, o que implicaria na adoção de uma postura mais próxima a Taiwan, como demonstrado com a reunião entre o KMT e o presidente chinês Xi Jinping, e na adoção de medidas cooperativas com a ilha, ato esse que não ocorria desde o mandato da ex-presidente taiwanesa Ma Ying-jeou, de 2008 a 2016.
Desse modo, a reunião e a criação de medidas cooperativas podem indicar uma mudança de postura chinesa frente a Taiwan, que pode optar por adotar abordagens que visem à cooperação, buscando conseguir penetração política e comercial, aproximando a ilha da China e afastando-a dos Estados Unidos, sem procurar utilizar o uso da força, embora o mesmo não seja descartado em último caso.
POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS INTERNAS
Em Taiwan, internamente, caso a volta da aproximação com a China seja interpretada positivamente pela população, o KMT poderá ganhar força para a próxima eleição presidencial nacional, que será disputada em 2028. Embora o Partido Democrático Progressista tenha obtido maioria nas últimas eleições presidenciais, realizadas em 2016, 2020 e 2024, mudanças e acontecimentos externos podem influenciar uma possível mudança em 2028.
As ações dos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump, alinhadas à imposição de tarifas de 20% no último ano, causaram danos às indústrias taiwanesas, gerando dúvidas referentes ao nível de proximidade e confiança que Taipei deveria buscar com Washington em parte da população. Somado a essa desconfiança, há uma melhora na imagem política do KMT com a entrada da atual líder Cheng Li-Wun, que, juntamente à adoção de medidas cooperativas adotadas pela China após reunião com a líder do KMT, pode levar a um enfraquecimento do atual partido vigente, que, na última eleição, embora tenha vencido, sofreu com uma baixa em seu apoio popular, descendo dos 57% de votos em 2020 para 40% em 2024.
Nos próximos meses, ocorrerão as eleições locais em Taiwan, para definição de prefeitos, governadores, vereadores, entre outros cargos. Essas eleições poderão ser cruciais para a eleição de 2028, por poderem indicar a possibilidade de um aumento na força do KMT, que, em caso de conseguir vitórias, pode fortalecer-se mais para as eleições presidenciais de 2028.
Em um cenário de volta do KMT ao poder, as relações com a China tenderiam a apresentar considerável aprofundamento, em nível político, cultural, comercial e possivelmente militar, sendo, assim, benéficas a Pequim, que aumentaria sua influência na área, ao mesmo tempo que diminuiria a dos Estados Unidos.
INTERESSES DA CHINA
Para Pequim, a aproximação com Taiwan ocasionaria múltiplos benefícios, resultando em uma melhora em sua consolidação regional no leste asiático. O âmbito comercial seria um dos beneficiados pela aproximação, porém não apenas pela melhora no comércio, pois o principal ganho obtido pela China seria político.
Segundo o autor Albert O. Hirschman, relações econômicas internacionais nunca são perfeitamente simétricas, pois, em sua visão, um dos lados da relação comercial costuma depender mais do outro, o que gera assimetria referente à dependência e à importância do comércio para um dos lados. Dessa forma, de acordo com Hirschman, relações comerciais podem ser deliberadamente construídas e escolhidas por elites estatais, que visam moldar relações econômicas de forma a tornar seus parceiros mais comercialmente dependentes do que eles próprios.
Assim, seguindo essa visão, caso haja uma continuidade na aproximação entre China e Taiwan no âmbito comercial para um nível acima do já existente nos últimos anos, Pequim poderia buscar aumentar a assimetria comercial com Taipei, ao mesmo tempo que fortaleceria a interdependência complexa com a ilha. Embora já haja bom volume de comércio entre as partes, na qual, segundo dados do Observatory of Economic Complexity, a China correspondeu à maior exportadora e importadora de Taiwan no ano de 2024, em caso de aproximação política, o comércio no Estreito de Taiwan poderia sofrer aumentos significativos entre ambos os lados.
Como consequência, a demanda comercial mútua aumentaria, ao mesmo tempo que ambos os mercados poderiam abrir-se mais um para o outro, a exemplo do setor agrícola, como já deve ocorrer após o anúncio de uma das medidas a serem implementadas por Pequim, que prevê a facilitação da entrada de produtos agrícolas taiwaneses.
Assim, o ganho para Pequim não seria apenas comercial, pois, com o aumento no volume e nas áreas comerciais, também haveria um aumento na assimetria das relações, que ocasionaria ganhos políticos para a China, oriundos da dependência e do crescimento de sua relevância econômica para Taiwan. Dessa forma, a assimetria comercial transformar-se- em um instrumento de política externa, com capacidade para gerar ganhos à China sem a utilização do uso da força como primeira instância.
No âmbito geopolítico, com a aproximação, além de um provável distanciamento de Taipei em relação a Washington, também poderia haver uma ampliação da margem estratégica da China no Estreito de Taiwan. O fortalecimento de relações políticas com Taiwan tenderia, de forma gradual, a diminuir o papel dos Estados Unidos nas dinâmicas de segurança regional, ao mesmo tempo que poderia gerar maior liberdade de atuação marítima à China, que, de forma constante, vem ampliando sua capacidade naval ao redor do seu entorno asiático.
CONCLUSÃO
Assim, com o encontro realizado entre o presidente chinês Xi Jinping e a líder do KMT, bem como com a adoção de medidas cooperativas direcionadas a Taiwan, a China pode estar sinalizando uma mudança de sua postura em relação à abordagem utilizada com Taiwan. Em vez de priorizar exclusivamente instrumentos coercitivos dissuasórios, Pequim pode começar a enfatizar a aproximação econômica e política como ferramentas para perseguir seus objetivos, sendo, de forma primária, para ganhar influência interna, aproximando-se ao mesmo tempo que distancia Taipei da esfera norte-americana, e, de forma secundária, para facilitar a reunificação com a ilha de maneira mais natural, por meios diplomáticos, ao invés do uso da força.
Portanto, a reunião realizada entre a liderança do KMT e o governo chinês em abril possui capacidade de ocasionar consequências profundas nas relações no Estreito de Taiwan, ao marcar o retorno do diálogo e da cooperação entre Pequim e Taipei, que possivelmente podem sofrer aprofundamento nos próximos anos, o que geraria modificações nas dinâmicas geopolíticas asiáticas.
REFERÊNCIAS:
FREEDMAN, Joshua. https://www.fpri.org/article/2025/12/the-present-and-future-of-the-kmt-in-taiwan/. Foreign Policy Research Institute, 18 dez. 2025. Acesso em: 22 abril. 2026
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SACKS, David. https://www-cfr-org.translate.goog/backgrounders/china-taiwan-relations-tension-us-policy-trump?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc&_x_tr_hist=true. Council on Foreign Relations, 13 mar. 2026. Acesso em: 22 abril. 2026
Opera Mundi. https://operamundi.uol.com.br/asia/china-anuncia-dez-medidas-para-promover-reaproximacao-com-taiwan/. 13 abril. 2026. Acesso em: 22 abril. 2026
MEARSHEIMER, John. The tragedy of great power politics. New York: W. W. Norton, 2001
COLBY, Elbridge. The strategy of denial: American defense in an age of great power politics. New Heaven: Yale University Press, 2021.
ONUF, Nicholas. World of our making: rules and rule in social theory and international relations. London: Routledge, 2013.

Eduardo Correia Leal Maranhão
Graduando em Relações Internacionais pela Universidade La Salle (RJ), com interesse em política externa, geopolítica e segurança internacional. Atua como pesquisador da região Europa no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC) da Escola de Guerra Naval e realizou estágio voluntário no Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil, com apoio a treinamentos de peacekeepers da ONU. Foi medalhista de bronze na Olimpíada Brasileira de Geopolítica, promovida pela Seleta Educação, e obteve desempenho de alta performance na Odisseia Brasileira de Diplomacia e Relações Internacionais, promovida pelo Grupo Ubique Júnior.
Link LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/eduardo-correia-857851353





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