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Detergente, a Nova Cloroquina da Extrema Direita Brasileira

  • Foto do escritor: CERES
    CERES
  • 12 de mai.
  • 4 min de leitura

Em plena campanha pré eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca nos Estados Unidos para uma reunião cercada de expectativa política e diplomática. A oposição, previsivelmente, apressou-se em atacar o encontro a portas fechadas com a gestão de Donald Trump, como se a diplomacia internacional se resumisse a transmissões ao vivo no Instagram ou debates de TikTok. O problema da extrema direita contemporânea é justamente este, confundir política externa com espetáculo, negociação estratégica com lacração digital.


O saldo da viagem, contudo, desmonta parte da narrativa histérica alimentada pelos setores mais radicalizados. Tanto Lula quanto Trump saíram publicamente satisfeitos com os avanços nas discussões sobre tarifas comerciais e outros temas sensíveis da agenda bilateral. Trump, inclusive, elogiou o líder brasileiro, algo que certamente provocou curto circuito em setores da militância bolsonarista que passaram anos vendendo a fantasia de que apenas eles possuíam algum tipo de alinhamento privilegiado com Washington.


Mas a agenda internacional de Lula não se resume aos Estados Unidos. Antes, esteve na Europa participando da cúpula de líderes progressistas. Semanas atrás, circulou pela Ásia em reuniões com importantes membros dos BRICS. Em meio ao caos político interno brasileiro, há uma realidade impossível de esconder, Lula continua sendo um líder carismático, influente e respeitado em boa parte do mundo. Com ele, o Brasil volta a ocupar espaço relevante na agenda internacional, recuperando protagonismo diplomático após anos de isolamento ideológico, negacionismo climático e constrangimentos institucionais.


Enquanto isso, no ambiente doméstico, a extrema direita brasileira parece cada vez mais mergulhada num pântano de personagens grotescos e narrativas delirantes. Influencers presos ou multados por espalhar desinformação, empresários envolvidos em fraudes, prefeitos investigados, pastores associados ao uso indevido de recursos públicos, figuras políticas incapazes de produzir qualquer debate sério sobre desenvolvimento nacional.


Agora, chegamos ao detergente.


Sim, detergente!


Durante a pandemia da Covid 19, o ex presidente Jair Bolsonaro contrariou abertamente os protocolos da Organização Mundial da Saúde ao fazer campanha pública em favor da cloroquina como suposto tratamento contra o vírus da Covid. O problema é que o medicamento jamais apresentou eficácia científica comprovada contra o coronavírus sendo indicado contra bactérias. Ainda assim, o bolsonarismo transformou a cloroquina em símbolo ideológico, ignorando evidências científicas, especialistas, instituições médicas e organismos internacionais. A ciência foi substituída pela militância, e a medicina, pela propaganda política.


Agora, anos depois, a história parece repetir-se de maneira ainda mais grotesca. Bolsonaristas passaram a atacar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária após a agência notificar uma importante fabricante de detergente por risco microbiológico identificado durante inspeções técnicas. Em vez de discutir os critérios sanitários ou os protocolos de segurança, setores radicais da extrema direita passaram a afirmar que a agência estaria perseguindo a empresa por conta de supostas doações à campanha de Bolsonaro. A lógica conspiratória permanece intacta, qualquer ação institucional que contrarie seus interesses imediatamente se transforma em perseguição política.


O detergente parece ter se transformado na nova cloroquina moral de uma militância que já normalizou o absurdo há muito tempo. E talvez nem devêssemos ficar tão surpreendidos. Afinal, estamos falando do mesmo ecossistema político que produziu cenas de pessoas defecando nas principais instituições democráticas do Brasil, destruindo patrimônio público, rezando para pneus em estradas, aguardando intervenção alienígena ou militar como quem espera um episódio de ficção científica de baixo orçamento.


Diante disso, tomar detergente talvez pareça até coerente dentro da lógica desse universo paralelo. Talvez acreditam que assim consigam limpar a própria glote, local por onde despejam diariamente discursos xenofóbicos, machistas, preconceituosos e profundamente autoritários.


A tragédia do Brasil contemporâneo não está apenas na radicalização política. Está na transformação da ignorância em identidade coletiva, da violência verbal em virtude moral e do ridículo em plataforma ideológica. O bolsonarismo mais radical deixou de ser apenas um movimento político, tornou-se um fenômeno cultural marcado pela estetização da brutalidade e pela glorificação da estupidez.


Enquanto Lula circula entre chefes de Estado, negocia interesses econômicos e reposiciona diplomaticamente o Brasil, parte da extrema direita segue ocupada em transformar sabão em instrumento revolucionário. Talvez seja essa a maior síntese do atual momento brasileiro, um país dividido entre a tentativa de reconstrução institucional e a militância permanente do delírio.


No fim, o detergente não limpa apenas pratos. Para alguns, aparentemente, também serve para lavar a pouca credibilidade que ainda resta.




Wesley Sá Teles Guerra é especialista em internacionalização, cooperação internacional e paradiplomacia, com sólida formação em instituições de referência internacional. É fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais, no Brasil, e atualmente atua como gestor do Fundo de Cooperação Triangular entre Europa, América Latina e África em Madrid.

Ao longo da sua trajetória académica e profissional, realizou estudos no Centre de Promoció Econòmica de Barcelona, em Negociações Internacionais; na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em Relações Internacionais e Ciência Política; na Universidade da Corunha (UDC), onde concluiu o Mestrado em Políticas Sociais e Migrações; no Massachusetts Institute of Business, com MBA em Marketing Internacional; na Universidade Carlemany, com Mestrado em Smart Cities; na Universidade Internacional da Andaluzia (UNIA), em Gestão de Fundos e Projetos Europeus; e é doutorando em Sociologia na Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED).

É autor das obras Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de sobrevivência das Relações Internacionais. Participa regularmente em fóruns internacionais sobre cidades inteligentes, governança global e paradiplomacia, tendo também atuado como comentador convidado na CBN Recife. Foi finalista do Prémio ABANCA de Investigação Académica e integra redes e plataformas internacionais como o CEDEPEM, o ECP, o Smart Cities Council e a REPIT, mantendo ativa participação em iniciativas internacionais nas áreas da cooperação, inovação e governança.

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