O duelo dos corredores de gás africanos: um indicador das reestruturações geopolíticas euro-africanas
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Marco Alves
Rivalidade estratégica entre a Argélia e o Marrocos em torno do futuro energético do continente (2026-2040)
O relançamento do projeto do Gasoduto Trans-Saariano (TSGP siglo em Inglês) em 2026 marca um dos desenvolvimentos geoeconômicos mais significativos do continente africano desde o lançamento da Zona de Livre Comércio Continental Africana (ZLECAf). Por muito tempo considerado inviável devido aos desafios de segurança no Sahel, o projeto beneficia hoje de um contexto estratégico profundamente transformado: crise energética europeia decorrente da guerra na Ucrânia, reestruturação dos equilíbrios políticos no Sahel, afirmação de novas potências regionais e intensificação da competição global pelo acesso aos recursos energéticos.
Em contrapartida, o Gasoduto Nigéria-Marrocos (NMGP siglo em Inglês), impulsionado por Marrocos, representa uma visão alternativa da integração energética africana. Mais longo, mais caro, mas também mais inclusivo, ele se insere na estratégia marroquina de projeção para a África Ocidental e de consolidação de seu papel de ponte entre a Europa e a África.
O que está em jogo vai muito além da questão do transporte do gás nigeriano. Essas duas infraestruturas encarnam duas visões concorrentes da organização geoeconômica do continente africano, dois modelos de integração regional e duas concepções de liderança continental. Elas também se inscrevem na nova competição mundial pela garantia do abastecimento energético, em que a Europa busca reduzir sua dependência da Rússia, enquanto as potências emergentes multiplicam seus investimentos na África.
O vencedor dessa competição não controlará apenas um corredor energético. Ele poderá moldar de forma duradoura as relações de força entre o Magrebe, o Sahel e a Europa nas próximas décadas.
I. A Nigéria: o epicentro do gás na África
Qualquer análise dos projetos TSGP e NMGP deve começar por uma constatação fundamental: a Nigéria constitui hoje o principal reservatório de gás do continente africano.
De acordo com dados da Agência Internacional de Energia (AIE) e da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a Nigéria possui reservas comprovadas superiores a 200 trilhões de pés cúbicos, ou seja, cerca de 5,7 trilhões de metros cúbicos. Essas reservas são superiores às da Argélia e representam quase um terço dos recursos de gás conhecidos do continente.
No entanto, esse potencial permanece amplamente subaproveitado. O país continua a queimar uma parte significativa de seu gás associado à produção de petróleo e continua enfrentando deficiências crônicas de infraestrutura. O consumo doméstico cresce rapidamente devido ao crescimento demográfico e à urbanização, mas as capacidades de exportação permanecem insuficientes em relação ao potencial disponível.
Nesse contexto, os gasodutos surgem como uma alavanca estratégica de grande importância. Eles permitiriam não apenas valorizar mais os recursos nigerianos, mas também reforçar a influência geopolítica de Abuja no continente.
A Nigéria encontra-se, assim, numa posição comparável à de certos Estados do Golfo: rica em recursos, mas dependente de corredores de exportação cujo domínio constitui um desafio de poder.
II. Duas visões concorrentes da integração energética africana
O debate entre o TSGP e o NMGP não se limita a uma comparação técnica entre duas infraestruturas.
Na realidade, opõe duas concepções do desenvolvimento continental.
A abordagem argelina privilegia a lógica de um corredor estratégico direto. O TSGP visa estabelecer uma conexão rápida entre as reservas nigerianas e as infraestruturas europeias existentes. Essa visão se baseia na ideia de que a prioridade é atender à demanda internacional, ao mesmo tempo em que se reforça a interconexão entre o Sahel e o Norte da África.
A abordagem marroquina é diferente. O NMGP foi concebido como uma ferramenta de integração regional. Seu traçado deve atender a vários países da África Ocidental e contribuir para sua eletrificação, industrialização e desenvolvimento econômico. O projeto vai, assim, além da mera lógica de exportação para a Europa.
Essa diferença de filosofia explica em grande parte a natureza da competição atual.
III. A transformação geopolítica do Sahel: um fator decisivo
Durante quase duas décadas, o principal obstáculo ao TSGP foi a percepção do risco no Sahel.
As sucessivas crises no Mali, no Níger e no Burkina Faso convenceram muitos investidores internacionais de que o corredor trans-saheliano era demasiado arriscado.
No entanto, desde 2023, ocorreu uma mudança significativa.
A ruptura progressiva entre vários Estados do Sahel e seus parceiros ocidentais tradicionais levou a uma profunda reconfiguração das alianças regionais. A criação da Aliança dos Estados do Sahel (AES), que reúne Mali, Níger e Burkina Faso, abriu uma nova fase geopolítica.
Para Argel, essa evolução representa uma oportunidade estratégica excepcional. A Argélia mantém há muito tempo uma política de vizinhança ativa com o Níger. Ao contrário de várias potências externas, ela não é vista como uma potência intervencionista. Além disso, conta com uma experiência reconhecida na gestão de áreas desérticas e de infraestruturas energéticas.
A aproximação entre Argel e Niamey insere-se, portanto, numa lógica mutuamente benéfica: o Níger busca investimentos estruturantes, enquanto a Argélia procura garantir a segurança de um corredor estratégico.
IV. A Europa após a ruptura com a Rússia: o nascimento de uma nova geografia energética
A guerra na Ucrânia constitui provavelmente o evento geopolítico que mais profundamente alterou as perspectivas dos dois projetos.
Antes de 2022, a Rússia fornecia cerca de 40% do gás consumido pela União Europeia. Essa dependência constituía um dos fundamentos da arquitetura energética europeia desde o fim da Guerra Fria.
A invasão da Ucrânia colocou brutalmente em questão esse modelo.
Entre 2022 e 2025, a União Europeia iniciou uma política de diversificação sem precedentes. O programa REPowerEU visa explicitamente reduzir a dependência dos hidrocarbonetos russos e multiplicar as fontes de abastecimento. Nessa estratégia, a África ocupa um lugar central.
A Argélia tornou-se o segundo fornecedor de gás da União Europeia, atrás apenas da Noruega, em certos segmentos do mercado mediterrâneo. As exportações argelinas para a Itália aumentaram significativamente desde 2022, reforçando o papel de Roma como plataforma energética europeia.
Essa dinâmica explica o crescente interesse da Itália pelo TSGP.
O governo italiano desenvolveu o Plano Mattei, apresentado como uma parceria estratégica com a África. Por trás dos discursos de cooperação, há também um objetivo muito concreto: tornar a Itália o principal centro energético do sul da Europa.
Para Roma, uma conexão do gás nigeriano à rede argelina ofereceria uma vantagem considerável. Ao contrário do projeto marroquino, ele poderia ser conectado de forma relativamente rápida às infraestruturas existentes.
No entanto, a Europa não é um ator homogêneo.
A Espanha mantém laços energéticos estreitos com Marrocos, enquanto várias instituições europeias consideram o NMGP como uma ferramenta de desenvolvimento regional compatível com os objetivos de cooperação euro-africana.
A competição entre os dois projetos reflete, portanto, também divergências de interesses no seio da própria União Europeia.
V. O gás como instrumento de poder: a rivalidade entre Argélia e Marrocos
Para compreender o alcance do duelo entre os dois gasodutos, é preciso situá-lo no contexto mais amplo das relações entre a Argélia e Marrocos. Há várias décadas, os dois países vêm adotando estratégias concorrentes de influência regional.
O fechamento da fronteira terrestre desde 1994, as tensões em torno do Saara Ocidental e as divergências diplomáticas transformaram progressivamente sua relação em uma rivalidade sistêmica.
Nesse contexto, a energia tornou-se uma ferramenta de projeção de poder.
Para o Marrocos, o NMGP representa o desfecho de sua estratégia africana lançada no início dos anos 2000. Rabat reforçou consideravelmente sua presença bancária, financeira, industrial e diplomática na África Ocidental. O gasoduto constitui uma extensão natural dessa política. O projeto permitiria ao Marrocos consolidar seu papel de plataforma logística, energética e financeira entre a Europa e a África Subsaariana.
Para a Argélia, os desafios são diferentes.
Primeiro exportador de gás do continente durante várias décadas, Argel vê no TSGP uma oportunidade de preservar seu status em um cenário energético global em transformação.
A transição energética global poderia reduzir progressivamente a demanda por hidrocarbonetos a longo prazo. Assim, garantir rapidamente novos volumes de trânsito torna-se uma prioridade estratégica.
Essa competição, portanto, não se refere apenas a receitas futuras. Ela diz respeito também à capacidade de cada país de definir a arquitetura energética do Norte da África no século XXI.
VI. Os cenários prospectivos para 2040
A evolução dos dois projetos dependerá de várias variáveis críticas.
- O primeiro fator é a segurança.
Uma melhoria sustentável da estabilidade no Níger reforçaria consideravelmente as perspectivas do TSGP. Por outro lado, uma deterioração prolongada da segurança poderia atrasar o projeto por vários anos.
- O segundo fator é financeiro.
Os montantes necessários são consideráveis. Os investidores internacionais terão de escolher entre um projeto mais curto, mas exposto a riscos de segurança, e um projeto mais caro, mas politicamente mais diversificado.
- O terceiro fator é energético.
A demanda europeia poderia evoluir mais rapidamente do que o previsto sob o efeito da transição energética. Se o consumo de gás diminuir fortemente após 2035, a rentabilidade dos dois projetos poderia ser afetada.
Por outro lado, uma transição mais lenta reforçaria sua relevância econômica.
- um quarto cenário merece ser considerado: o da coexistência.
A África deverá ver sua população ultrapassar 2,5 bilhões de habitantes até 2050, de acordo com as projeções dasNações Unidas. As necessidades energéticas do continente poderiam mais do que dobrar no mesmo período.
Nessa perspectiva, os dois gasodutos poderiam, afinal, atender a mercados diferentes e tornar-se complementares, em vez de concorrentes.
Conclusão
O duelo entre o Gasoduto Trans-Saariano e o Gasoduto Nigéria-Marrocos constitui um dos grandes temas geopolíticos africanos da década. Ele revela a transformação simultânea de vários espaços estratégicos: o Magrebe, o Sahel, a África Ocidental e a Europa mediterrânea.
A Argélia dispõe hoje de vantagens significativas em termos de distância, infraestruturas existentes e rapidez potencial de implementação. O Marrocos, por sua vez, beneficia de uma abordagem mais inclusiva, mais voltada para a integração regional e a diversificação de riscos.
No fundo, a questão central talvez não seja saber qual projeto prevalecerá, mas qual visão da integração africana se imporá: a dos grandes corredores continentais que ligam diretamente os recursos aos mercados internacionais, ou a das redes regionais multipolares destinadas a estruturar o desenvolvimento econômico africano.
A resposta a essa questão contribuirá para moldar a geografia econômica do continente nas próximas décadas. Ela determinará também o lugar da África na nova ordem energética mundial que vem surgindo desde o rompimento dos equilíbrios herdados do pós-Guerra Fria.
BIBLIOGRAFIA
- IEA (2023–2025), Africa Energy Outlook
- OPEC (2024), World Oil and Gas Outlook
- Commission européenne (2022–2024), REPowerEU Plan
- World Bank (2023), Africa’s Pulse & Sahel Economic Reports
- International Crisis Group ICG (2023–2025), Sahel Security Reports
- Voytyuk, O. (2023) “New Gas Pipelines as an Element of Geopolitical Competition of Algeria and Morocco in Africa”African Journal of Economics, Politics and Social Studies, 2(1), 21–44.
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- Le Monde (2024) “Entre l’Algérie et le Maroc, une guerre des gazoducs”
- Reuters (2025) “Morocco issues expression of interest for LNG terminal”
- Institut français des relations internationales (IFRI) IFRI Energy Papers (2023–2025)

Marco Alves
Mestre em Ciências Políticas pela Universidade de Paris Oeste Nanterre, em Direito Internacional e Europeu pela Universidade Grenoble Alpes e em Relações e Negocios Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais de Paris(ILERI).
Atuou em 30 países, dos quais o Brasil onde trabalhou durante 10 anos, inclusive para o Governo do Estado de Pernambuco como especialista em desenvolvimento.
Trabalhou para ONGs no continente Africano como especialista em retomada econômica em zonas pós conflito.
Hoje é diretor de uma consultoria internacional especializada em ciências e engenharia social com intervenção no Burquina Faso, Costa do Marfim, Mali e Niger.
Correspondente para a França e a Europa para a radio CBN Recife.
Presidente da Assembleia do IFSRA (Institute for Social Research in Africa)
Empreendedor social, palestrante e mentor pela organização internacional Make Sense
Consultor em inteligência estratégica e gestão de riscos para o setor empresarial.





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