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Como a ASEAN responde à nova Ordem Mundial

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    CERES
  • há 20 minutos
  • 5 min de leitura

Neste mês de julho, nas Filipinas, ocorreu a reunião de Ministros das Relações Exteriores da ASEAN, justamente em um momento em que o bloco está sendo pressionado simultaneamente pela rivalidade entre Estados Unidos e China, pela aproximação da Rússia com a região, pelos impactos econômicos da guerra envolvendo o Irã e pelas tensões no Mar do Sul da China. Em vez de escolher um lado, o bloco está buscando fortalecer sua própria arquitetura institucional e ampliar sua capacidade de coordenar a região.


Nesse sentido, a preocupação com a fragmentação geoeconômica aparece repetidamente em seus discursos e o comunicado conjunto. Os ministros reconhecem que, apesar do crescimento de 4,9% em 2025 e da expectativa de expansão de 4,6% em 2026, o conflito no Oriente Médio, o aumento das tarifas comerciais, a fragmentação das cadeias globais de produção e a deterioração do ambiente internacional representam riscos concretos para a estabilidade econômica do Sudeste Asiático. O documento cita explicitamente possíveis interrupções em rotas críticas de energia, aumento dos preços dos alimentos, pressões inflacionárias e impactos sobre o comércio regional, defendendo uma resposta coordenada entre os Estados-membros para preservar a resiliência econômica do bloco.


Essa preocupação ajuda a explicar por que a ASEAN acelerou praticamente todas as suas agendas estruturantes ao mesmo tempo. O comunicado celebra a atualização do acordo de livre comércio com a China (ACFTA 3.0), o avanço das negociações com o Canadá, a revisão do acordo comercial com a Índia, a modernização do tratado com a Coreia do Sul, o fortalecimento da RCEP e a aproximação econômica com o Conselho de Cooperação do Golfo. Essa estratégia procura reduzir vulnerabilidades diante de um sistema internacional cada vez mais polarizado, preservando o acesso a mercados, investimentos e cadeias produtivas. O desenvolvimento de padrões regionais para identidade digital, pagamentos eletrônicos, inteligência artificial e cibersegurança, além da criação da primeira infraestrutura compartilhada de computação de alto desempenho para IA e da futura rede ASEAN AI SAFE, demonstram que o bloco pretende construir capacidades próprias em áreas consideradas estratégicas, diminuindo a dependência tecnológica externa.


Na área energética, enquanto a guerra envolvendo o Irã colocava em risco importantes rotas marítimas de abastecimento, a ASEAN reforçou seu compromisso com a ASEAN Power Grid e com novos mecanismos regionais de segurança energética e resposta a eventuais interrupções no fornecimento de petróleo e gás. Iniciativas de mitigação de riscos geopolíticos.


Entre Washington, Pequim e Moscou


Manila se transformou em um dos principais centros da diplomacia do Indo-Pacífico, recebendo representantes das maiores potências em um contexto marcado pela crescente rivalidade entre Estados Unidos e China. A presença simultânea do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, do chanceler chinês Wang Yi e do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, evidenciou que a disputa por influência no Sudeste Asiático permanece intensa e tende a se aprofundar nos próximos anos.


A postura norte-americana durante a reunião reforçou esse cenário. Washington voltou a defender a liberdade de navegação, o respeito ao direito internacional e à Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), além de reiterar seu compromisso com um Indo-Pacífico livre e aberto. Embora esses princípios sejam compartilhados pela ASEAN, o bloco tem evitado transformar sua agenda em um instrumento da competição estratégica entre as grandes potências. O comunicado ministerial reafirma repetidamente a centralidade da ASEAN, o respeito ao consenso e a busca por uma ordem regional baseada em regras, preservando espaço para o diálogo tanto com os Estados Unidos quanto com a China.


Essa cautela também precisa ser compreendida à luz da presidência filipina. Manila assumiu a condução da ASEAN em um momento particularmente delicado. No plano externo, continua enfrentando tensões frequentes com Pequim no Mar do Sul da China e aprofundando sua cooperação em defesa com os Estados Unidos. No plano doméstico, a política filipina atravessa um período de elevada polarização institucional, tornando ainda mais desafiadora a tarefa de liderar uma organização cuja principal característica continua sendo a construção de consensos entre países com interesses estratégicos muitas vezes divergentes.


É nesse contexto que as novas diretrizes do TAC ganham importância. O mecanismo amplia as possibilidades de cooperação entre a ASEAN e países que aderiram ao tratado, mas ainda não possuem uma parceria formal com o bloco. Arábia Saudita, Catar, Irã, Argentina, Bangladesh, Egito, Sérvia, Ucrânia e outros signatários passam a dispor de um canal institucional para apresentar projetos alinhados às prioridades estabelecidas pela própria ASEAN, respeitando os princípios do tratado. As iniciativas permanecem voluntárias, dependem da aprovação dos órgãos da ASEAN e não alteram o status político desses países perante a organização, preservando a autonomia decisória do bloco.


Em um cenário de fragmentação geopolítica e econômica, a ASEAN procura ampliar sua capacidade de articulação internacional sem comprometer o equilíbrio que sustenta sua diplomacia. Ao abrir espaço para projetos específicos com países de diferentes regiões, muitos deles envolvidos em disputas ou posicionamentos distintos na ordem internacional, o bloco reforça sua vocação como plataforma de diálogo e cooperação, reduzindo a necessidade de enquadrar seus parceiros em categorias rígidas de alinhamento político.


Para o Brasil, esse movimento merece atenção especial. Embora ainda não seja um parceiro formal da ASEAN, o país é signatário do Tratado de Amizade e Cooperação, condição que passa a oferecer novas possibilidades de aproximação institucional. Na prática, Brasília poderá propor projetos em áreas de interesse mútuo sem depender da negociação de uma parceria estratégica abrangente, processo normalmente mais longo e complexo. Setores como bioenergia, agricultura tropical, segurança alimentar, infraestrutura, transformação digital, minerais críticos, transição energética e cooperação científica apresentam elevado potencial de convergência com as prioridades definidas pela ASEAN para a próxima década. Em um momento em que o governo brasileiro busca diversificar seus parceiros econômicos, ampliar sua presença no Indo-Pacífico e fortalecer sua inserção junto ao Sul Global, o novo mecanismo oferece uma oportunidade concreta para aprofundar relações com uma região que deverá concentrar parte significativa do crescimento econômico mundial nas próximas décadas. As diretrizes ampliam as opções diplomáticas disponíveis para países interessados em construir uma agenda de cooperação de longo prazo com a ASEAN, preservando a flexibilidade que caracteriza a política externa do bloco.

 

ReferênciasASEAN. ASEAN | ONE VISION ONE IDENTITY ONE COMMUNITY. ASEAN. Disponível em: <https://asean.org/>.

 

ASEAN PHILIPPINES 2026. Guidelines on the Modalities for Engagement of ASEAN with High Contracting Parties under the Treaty of Amity and Cooperation in Southeast Asia, 2026. Disponível em: <https://asean2026.gov.ph/post/view/?title=guidelines-on-the-modalities-for-engagement-of-asean-with-high-contracting-parties-under-the-treaty-of-amity-and-cooperation-in-southeast-asia>.

 

ASEAN PHILIPPINES 2026. Joint Communique of the 59th ASEAN Foreign Ministers’ Meeting, 2026. Disponível em: <https://asean2026.gov.ph/post/view/?title=joint-communique-of-the-59th-asean-foreign-ministers-meeting>.

 

NASCIMENTO, João Pedro. Filipinas à beira da ruptura? RI Talks, 2026. Disponível em: <https://www.ritalks.com/post/filipinas-à-beira-da-ruptura>.

 

U.S. DEPARTMENT OF STATE. Secretary of State Marco Rubio at the ASEAN Post-Ministerial Conference with the United States. United States Department of State, 2026. Disponível em: <https://www.state.gov/releases/office-of-the-spokesperson/2026/07/secretary-of-state-marco-rubio-at-the-asean-post-ministerial-conference-with-the-united-states>.

U.S. MISSION TO ASEAN. Secretary of State Marco Rubio Remarks to the Press. U.S. Mission to ASEAN, 2026. Disponível em: <https://asean.usmission.gov/secretary-of-state-marco-rubio-remarks-to-the-press/>.


João Pedro do Nascimento

Bacharel em Relações Internacionais, com pós-graduação em Políticas Públicas. Atua como editor-chefe de um site especializado em análises internacionais e tem experiência em tradução, mediação de negócios e cooperação internacional. Fluente em inglês e espanhol, já colaborou com empresas e organizações em contextos multilíngues e multiculturais.

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