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O Papel da Literacia Mediática e o Framing Noticioso, no Conflito EUA-Irão*

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    CERES
  • há 25 minutos
  • 5 min de leitura

Gomes Dias

*Na língua portuguesa a grafía Irão e Irã são aceitas, sendo Irão a mais usada no português lusitano e africano.


Falar sobre literacia mediática é falar sobre a capacidade de os indivíduos conseguirem aceder, analisar e avaliar criticamente as mensagens dos media, de forma a poderem tomar decisões informadas sobre o que consomem, o que criam e o que partilham.


A cobertura mediática de conflitos internacionais não informa apenas, ela também molda percepções e pode reforçar narrativas estratégicas, exigindo um nível elevado de literacia mediática. É neste contexto que a literacia mediática se torna uma competência essencial, permitindo ao público interpretar criticamente discursos, identificar enquadramentos e resistir à manipulação informativa.


O maior dilema do “quarto poder”, é que, a circulação de informação em contextos de conflito internacional raramente é neutra. Em circunstâncias de tensão geopolítica, como o caso envolvendo os EUA e o Irão, a informação torna-se instrumento de poder, e ausência de literacia mediática transforma o público em consumidor passivo de agenda política.

A relação entre esses dois países é historicamente marcada por desconfiança, hostilidade e disputas estratégicas, intensificadas após a Revolução Iraniana de 1979. Desde então, episódios de sanções económicas, confrontos indirectos e tensões nucleares têm sido amplamente mediatizados.


No entanto, a forma como esses eventos são narrados, revela que a informação não circula em estado puro ou genuíno. Pois, ela é filtrada por interesses, enquadramentos e escolhas editoriais. Termos como “ameaça”, “segurança” ou “retaliação” não são neutros, eles carregam implicações políticas e emocionais.


Nos meios ocidentais, o Irão é frequentemente associado à instabilidade ou risco nuclear, enquanto que, em canais alinhados com Teerão, os EUA são retratados como agentes de ingerência e dominação. Além disso, a selecção de fontes governamentais, militares ou especialistas, influencia directamente a interpretação dos acontecimentos. O que não é dito, muitas vezes, é tão relevante quanto o que é comunicado.


 Em uma abordagem mais centrada na dinâmica militar, como a da BBC News Brasil, no artigo publicado em 16/03/2026, observou-se um foco na sequência de ataques, respostas e justificativas estratégicas. A linguagem apresentava as acções de forma técnica, recorrendo a termos como “ofensiva”, “retaliação”, ou “segurança”, que, embora aparentem neutralidade, carregam implicações semânticas relevantes. Ao descrever acções militares como respostas necessárias ou medidas defensivas, constrói-se uma narrativa que pode sugerir legitimidade implícita. O enquadramento enfatiza a dinâmica operacional do conflito, mas oferece pouca contextualização política ou económica.


Entretanto, uma segunda linha de cobertura observada, noticiada pela CNN Portugal(CNN Portugal/IOL,2026), descreveu o conflito no Estreito de Ormuz, em “armadilha geopolítica”, sugerindo que o Irão estaria a atrair os EUA, para um jogo estratégico de alta complexidade.


 Esta escolha de linguagem(uma metáfora militar) move a  narrativa do plano factual para o simbólico, criando um enredo que enfatiza astúcia e reacção  emocional em detrimento de explicações baseadas em dados concretos como tráfego marítimo ou impactos económicos. Nesta linha de cobertura, o Irão é apresentado como astuto e os EUA como reactivos.


Por outro lado, a Al Jazeera(Al Jazeera, 2026) apresenta um enquadramento regional que enfatiza impactos humanos e infraestruturais, relatando a morte de um trabalhador numa instalação de energia e dessalinização no Kuwait e a interceptação de drones por Israel. Esta abordagem destaca consequências concretas para civis e múltiplos actores regionais, oferecendo um contraste importante com os enfoques ocidentais centrados em potências ou líderes.


Comparando essas narrativas, torna-se evidente que a informação mediática não é apenas factual, ela é enquadrada, com escolhas explícitas de linguagem, foco e contexto. Nestas publicações, constata-se que, A BBC priorizou interesses estratégicos e individuais; enquanto que a CNN focou-se na retórica dramática; já a Al Jazeera destacou impactos humanos e regionais. Para o leitor, essas diferenças moldam percepções sobre legitimidade, responsabilidades e prioridade de análise do conflito.


            A literacia mediática, neste sentido, não consiste em determinar qual narrativa é verdadeira, mas em identificar enquadramentos, questionar fontes e reconhecer intenções discursivas. Em contextos de conflito, compreender como os media constroem informação, e que omissões ou ênfases selecionam, é essencial para interpretar acontecimentos complexos de forma crítica.


            Relativamente ao próprio “cessar-fogo”(complexo), deste conflito, foi apresentado de maneiras divergentes. Para alguns meios, tratou-se de um recuo tático necessário perante custos elevados, enquanto outros sugeriram fragilidade política ou falta de coerência estratégica desde o início da intervenção. Essa variação não decorre apenas de diferenças factuais, mas sobretudo de escolhas editoriais, linguagem utilizada e ênfase narrativa, que orientam a interpretação do público.


            A peça do Expresso, em relação ao cessar do fogo, não funcionacomo notícia factual, mas como comentário interpretativo, o que já condiciona a leitura. A afirmação de que Donald Trump está “desesperado” introduz um enquadramento psicológico e personalizado do conflito, deslocando o foco de estruturas políticas e estratégicas para a figura individual, Isso simplifica um cenário geopolítico complexo e induz uma leitura centrada em intenções, não apenas em acções verificáveis.


Já a linha de cobertura da SIC, foi mais centrada nas declarações de JD Vance, mostrando um enquadramento diferente em relação ao Expresso, mas igualmente revelador em termos de literacia mediática. O foco não foi uma dúvida ou crítica à guerra, mas numa lógica de pressão diplomática com linguagem de confronto, onde expressões como “não brincar” funcionam como sinal de força e dissuasão antes das negociações.


No Expresso, há um registo claramente interpretativo, onde a actuação de Donald Trump é apresentada como sinal de fragilidade e improviso, sugerindo que a entrada na guerra  carece de explicação sólida e que o cessar-fogo surge como tentativa de saída de uma situação mal calculada. Já a SIC, o foco desloca-se para a comunicação política de JD Vance, onde o conflito é enquadrado através de uma linguagem de dissuasão e firmeza, combinando abertura negocial com avisos directos ao Irão.


Assim, a cobertura do conflito não revela apenas o que aconteceu de facto, mas como diferentes media constroem sentidos sobre o mesmo evento, tornando evidente que a literacia mediática não depende apenas de acesso à informação, mas da capacidade de reconhecer enquadramentos, identificar linguagem avaliativa e questionar aquilo que é apresentado como evidente. Em torno da actuação de Donald Trump, muitos conteúdos jornalísticos optam por personalizar decisões estratégicas complexas, reduzindo dinâmicas institucionais e históricas a intenções individuais, o que facilita a compreensão, mas empobrece a análise.


A análise entre as linhas de coberturas destes órgãos, demonstra que a percepção pública do mesmo conflito varia significativamente de acordo com o enfoque editorial, e que apenas um leitor consciente de tais dinâmicas consegue formar uma interpretação informada e independente, evidenciando a necessidade de literacia mediática para interpretação crítica, e esta construção de pensamento crítico mediante aos media, também é um acto de democratização epistemológica.


Trata-se no fundo de promover as competências que possibilitam os cidadãos em geral tornarem-se mais sensíveis aos mecanismos sociais de representação, que na maioria das vezes, são ocultos na linguagem mediática. Ou seja, qualquer acção pedagógica nesse domínio precisa considerar os conteúdos cognitivos, bem como as crenças, as dimensões afectivas e as demandas presentes. Esses elementos reflectem as lacunas existentes numa sociedade, em relação ao desenvolvimento de uma consciência crítica sobre a sua própria realidade e sobre as competências que possue.

 


 


Gomes Dias: Formado em Comunicação Social, pela Universidade Agostinho Neto (UAN). Tem pesquisa académica em torno das redes sociais, com ênfase no processo de ensino e aprendizagem; e Inteligência Artificial. É Director Institucional da Juventude Unida dos Países de Língua Portuguesa (JUPLP). É também membro associado júnior da Associação Angolana dos Profissionais de Comunicação Institucional (AAPCI).  Pesquisador e membro do Conselho de Pesquisa do CERES.

Redes sociais:

 

Referência Bibliográfica

 

Barbosa, E. (2001). Interactividade: A grande promessa do Jornalismo On line, Universidade do Minho, acedido através de www.bocc.ubi.pt

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