Bombas, Dívida e Soberania: A Crise da Ordem e do Direito Internacional no Século XXI
- CERES

- há 59 minutos
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A escalada das tensões no Oriente Médio voltou a colocar em evidência uma realidade frequentemente ignorada nas narrativas simplificadas sobre política internacional: o sistema global funciona menos como um tribunal e mais como um espaço permanente de disputa entre interesses, capacidades e limites estruturais do poder. O recente aumento da intensidade do conflito na região já envolve, direta ou indiretamente, mais de onze países, transformando o cenário em um complexo teatro geopolítico onde estratégias militares, interesses econômicos e cálculos políticos se sobrepõem continuamente.
Esse processo revela uma característica central das guerras contemporâneas: elas raramente permanecem confinadas ao território onde começaram. Pelo contrário, tendem a irradiar efeitos regionais e globais, seja por meio de alianças militares, dependências energéticas, redes comerciais ou pressões diplomáticas. Em um sistema internacional profundamente interdependente, um conflito regional rapidamente se converte em um problema sistêmico.
Nesse contexto, o protagonismo militar exercido por Estados Unidos e Israel impõe um conjunto de custos que vão muito além do campo de batalha. O esforço de guerra contemporâneo não se limita ao financiamento de operações militares diretas. Ele exige a manutenção de uma complexa arquitetura estratégica composta por bases militares, sistemas de defesa antimísseis, redes de inteligência, patrulhamento naval, logística global e proteção de aliados.
Esse aparato envolve recursos financeiros extraordinários e exige uma capacidade constante de projeção de poder. Quanto mais ampla se torna a área de conflito, maior é o custo de manter esse dispositivo operacional. A proteção oferecida aos países aliados torna-se, nesse cenário, um elemento central da credibilidade estratégica americana. No entanto, episódios recentes indicam que essa proteção nem sempre é capaz de impedir ataques ou garantir estabilidade regional, o que produz efeitos políticos relevantes. Em geopolítica, a percepção de vulnerabilidade pode ser tão impactante quanto os danos materiais provocados por um ataque.
Do outro lado do conflito, a estratégia iraniana parece orientada por uma lógica distinta. Em vez de concentrar o confronto em um único teatro de operações, o Irã tem buscado ampliar a dimensão regional do conflito, direta ou indiretamente. Ao estimular múltiplos focos de tensão através de aliados, milícias ou pressões indiretas, Teerã busca aumentar o custo operacional do adversário e diluir a capacidade de resposta americana.
Essa estratégia de dispersão possui efeitos importantes. Quanto maior o número de frentes simultâneas, maior é a necessidade de redistribuição de forças, maior o desgaste logístico e maior a pressão diplomática sobre os atores envolvidos. A ampliação do conflito transforma uma guerra localizada em um problema estrutural para a arquitetura de segurança internacional.
A União Europeia encontra-se em uma posição particularmente complexa nesse cenário. A participação indireta no esforço estratégico ocidental, em grande parte mediada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte, implica custos financeiros e políticos significativos. O aumento dos gastos militares tornou-se uma realidade inevitável para diversos países europeus, que já acumulam bilhões de euros em investimentos adicionais em defesa.
Esse aumento ocorre em um contexto econômico delicado. Muitas economias europeias enfrentam níveis elevados de endividamento público, crescimento econômico moderado e pressões sociais internas crescentes. Ao mesmo tempo, a guerra na Ucrânia continua demandando recursos políticos, militares e financeiros significativos, prolongando um conflito que já alterou profundamente o equilíbrio de segurança no continente.
Essa combinação de fatores — guerra prolongada na Europa Oriental, tensões crescentes no Oriente Médio e necessidade de rearmamento — cria uma pressão estrutural sobre os orçamentos nacionais europeus. A política fiscal de muitos países do bloco já enfrenta limites significativos, enquanto o debate público se torna cada vez mais sensível ao aumento de gastos militares em detrimento de políticas sociais.
A dimensão econômica dessas tensões se manifesta também no campo comercial. As relações transatlânticas atravessam um momento de fricção crescente, marcado por disputas industriais, políticas protecionistas e divergências estratégicas. A assinatura de um novo acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos chegou a ser considerada, mas acabou sendo postergada diante das divergências existentes.
Paralelamente, o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul tornou-se um dos temas mais controversos do debate político europeu recente. O que inicialmente foi concebido como um tratado de integração econômica baseado em benefícios mútuos transformou-se em uma disputa complexa, marcada por pressões agrícolas, preocupações ambientais, tensões políticas internas e divergências estratégicas.
Nesse ambiente de múltiplas tensões, um episódio envolvendo a Espanha ilustra de maneira particularmente clara os limites e as ambiguidades das alianças contemporâneas. O governo espanhol foi alvo de pressões após não autorizar o uso de bases militares americanas localizadas em território espanhol para operações relacionadas ao conflito regional.
A decisão espanhola baseia-se no acordo bilateral que regula essas bases, firmado em 1988, que estabelece explicitamente que o uso das instalações depende da autorização do governo espanhol. Trata-se, portanto, de um direito soberano previsto no próprio tratado que legitima a presença militar americana no país.
A resposta diplomática de Madrid foi fundamentada na defesa desse direito soberano e na invocação dos princípios do Direito Internacional. O episódio provocou reações dentro da própria União Europeia, com diversos países manifestando apoio à posição espanhola.
A relevância da Espanha nesse contexto vai além de sua posição geográfica. Como a quarta maior economia da União Europeia e um ator com forte presença política, cultural e econômica na América Latina, o país ocupa um papel estratégico dentro da arquitetura europeia. A solidariedade demonstrada por outros membros do bloco revela a sensibilidade existente em torno da questão da soberania dentro das alianças ocidentais.
Mesmo entre aliados tradicionais dos Estados Unidos, o nível de entusiasmo em relação à escalada militar no Oriente Médio parece limitado. O Reino Unido demonstra cautela em ampliar seu envolvimento direto no conflito, enquanto outros governos europeus manifestam preocupação com os riscos de uma expansão regional da guerra.
A posição da Itália ilustra essa cautela. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, frequentemente associada a posições políticas próximas às de Washington, expressou publicamente desconforto com a possibilidade de uma escalada militar mais ampla, afirmando que a Itália não está em guerra e não deseja estar.
Essas declarações refletem uma realidade política importante: alianças militares formais não eliminam divergências estratégicas nem neutralizam pressões políticas internas. Cada governo precisa equilibrar compromissos internacionais com demandas domésticas, opinião pública e limitações econômicas.
Outro elemento central no cenário atual envolve a possibilidade de uma futura transição política no Irã. Entre setores estratégicos em Washington, circula a ideia de incentivar um processo de mudança política inspirado em modelos utilizados em outras crises internacionais recentes tais como na Venezuela.
Nesse contexto, discute-se a possibilidade de apoiar figuras associadas ao antigo regime monárquico iraniano, incluindo o filho do último Xá da Pérsia, que já demonstrou disposição em participar de um eventual processo de transição política.
Ao mesmo tempo, existe oposição dentro de determinados círculos políticos americanos à hipótese de continuidade do atual regime através da sucessão familiar do líder supremo iraniano. Entretanto, a realidade política interna do Irã apresenta características distintas de outros cenários onde estratégias semelhantes foram tentadas. O sistema político iraniano demonstra elevada capacidade de resistência institucional e parece pouco disposto a aceitar pressões externas para mudanças estruturais.
Entre as grandes potências globais, as reações ao conflito também seguem lógicas distintas. A China encontra-se em uma posição particularmente sensível, devido à sua dependência energética e à importância do Irã dentro de determinadas rotas estratégicas de fornecimento de petróleo. Pequim declarou oposição diplomática ao conflito, mas mantém sua postura tradicional de pragmatismo e não intervenção direta.
A Rússia, por sua vez, permanece relativamente opaca em relação ao seu posicionamento estratégico. As declarações oficiais mantêm um tom cauteloso, enquanto a guerra na Ucrânia continua absorvendo grande parte da atenção estratégica do Kremlin. Ainda assim, qualquer deslocamento de foco do Ocidente pode representar uma vantagem indireta para Moscou.
Esse cenário global reforça um debate central da política internacional contemporânea: a relação entre soberania estatal e a efetividade do Direito Internacional.
Existe uma tendência recorrente de interpretar o Direito Internacional a partir de analogias com o direito interno dos Estados. Essa comparação, embora intuitiva, é profundamente limitada. O direito interno surge como resultado de um pacto social que legitima a existência de uma autoridade central — o Estado — capaz de exercer o monopólio legítimo da força e garantir a aplicação coercitiva das leis.
No plano internacional, essa estrutura simplesmente não existe. Não há um pacto social global que legitime uma autoridade central universal. Tampouco existe uma instituição capaz de exercer coercivamente o cumprimento das normas internacionais de maneira sistemática.
Organizações internacionais, incluindo a Organização das Nações Unidas, funcionam dentro de um princípio fundamental: dependem da vontade política de seus membros. O Direito Internacional baseia-se, essencialmente, na aceitação voluntária de normas por parte dos Estados.
Essa aceitação implica, em determinados casos, a cessão de parcelas de soberania. Entretanto, essa cessão possui características muito específicas: ela é limitada, estratégica e, acima de tudo, reversível. Um Estado pode aderir a tratados internacionais, participar de organizações multilaterais e internalizar normas internacionais em sua legislação doméstica. Mas também pode revisar esses compromissos, renegociá-los ou abandoná-los.
Mesmo os processos de internalização jurídica — que buscam incorporar obrigações internacionais ao direito interno — permanecem sujeitos a mudanças políticas e institucionais. A reversibilidade é uma característica estrutural do sistema internacional.
Esse fato levanta questões fundamentais sobre a arquitetura da governança global. Se o Direito Internacional depende essencialmente da vontade dos Estados, sua eficácia está inevitavelmente condicionada à correlação de forças existente no sistema internacional.
Nesse contexto, a atuação das grandes potências frequentemente redefine os limites práticos da legalidade internacional. Episódios históricos envolvendo intervenções militares demonstram que decisões estratégicas podem ser tomadas mesmo diante de controvérsias jurídicas significativas, como aconteceu durante a Guerra no Afeganistão e no Iraque.
No caso atual, um elemento particularmente controverso envolve o processo decisório interno dos próprios Estados Unidos. De acordo com determinados analistas jurídicos, a decisão de ampliar operações militares não teria sido submetida formalmente ao Congresso americano, como tradicionalmente exige o sistema constitucional dos Estados Unidos em relação ao uso da força.
Esse ponto levanta uma ironia política significativa. Mesmo possuindo maioria política suficiente para obter aprovação legislativa, a decisão teria sido conduzida sem recorrer plenamente ao processo formal previsto pelo direito interno americano.
Essa situação revela uma contradição recorrente no funcionamento da política internacional: a distância entre os princípios jurídicos invocados no discurso político e as práticas efetivamente adotadas pelos Estados quando interesses estratégicos estão em jogo.
Em última instância, o cenário atual revela um sistema internacional marcado por tensões estruturais profundas. A interdependência econômica global torna cada conflito potencialmente sistêmico, enquanto as instituições multilaterais demonstram capacidade limitada de conter disputas entre grandes potências.
A soberania estatal continua sendo o princípio organizador fundamental da política internacional. Ao mesmo tempo, os desafios contemporâneos — conflitos regionais, crises energéticas, tensões comerciais e transformações tecnológicas — exigem níveis crescentes de cooperação internacional.
Essa tensão entre soberania e governança global define grande parte dos dilemas estratégicos do século XXI. A guerra no Oriente Médio, com todas as suas implicações regionais e globais, não é apenas um conflito militar. Ela é também um espelho das limitações estruturais do sistema internacional contemporâneo.

Wesley Sá Teles Guerra é especialista em cooperação internacional e paradiplomacia, com sólida formação em instituições de referência internacional. É fundador do Centro de Estudos das Relações Internacionais (CERES), no Brasil, e atualmente atua como gestor do Fundo de Cooperação Triangular entre Europa, América Latina e África, na Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), com sede em Madrid.
Ao longo da sua trajetória, realizou estudos em instituições como o CPE de Barcelona (Negociações Internacionais), a FESPSP (Relações Internacionais e Ciência Política), a Universidade da Corunha – UDC (Mestrado em Políticas Sociais e Migrações), o MIB de Massachusetts (MBA em Marketing Internacional), a Universidade de Andorra (Mestrado em Smart Cities) e é doutorando em Sociologia pela UNED (Espanha).
É autor dos livros Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de sobrevivência das Relações Internacionais. Participa regularmente em fóruns internacionais sobre cidades inteligentes, governança global e paradiplomacia, e foi comentarista convidado da emissora CBN Recife. Também foi finalista do Prémio ABANCA de investigação académica. Além disso, integra redes e plataformas como CEDEPEM, ECP, Smart Cities Council e REPIT, com ativa participação no âmbito internacional.





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