top of page

G20: Trump e o interesse em Uzbequistão e Cazaquistão

  • Foto do escritor: CERES
    CERES
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

Luis Augusto Medeiros Rutledge

 

O convite do presidente norte-americano, Donald Trump, aos líderes de Uzbequistão e Cazaquistão para o G20 de 2026 possui um enredo geopolítico bem planejado.

 

A ascensão do Uzbequistão e do Cazaquistão no cenário internacional reflete um desejo central de que a Ásia Central seja mais do que apenas uma peça de xadrez no jogo das grandes potências, especialmente porque ambos os países se apresentam como uma "ponte" entre a Rússia e o Ocidente, e como um centro energético e logístico entre Europa e Ásia.

 

Recentemente, Cazaquistão e Uzbequistão conseguiram conquistar a atenção de Washington e das principais empresas americanas, assinando contratos e investimentos de bilhões de dólares, em uma medida que sinaliza uma mudança estratégica que equilibra a influência ocidental com os laços históricos com Moscou.

 

Nas últimas décadas, a arquitetura energética da Ásia Central passou por mudanças profundas que tiveram um impacto decisivo na estrutura geopolítica e econômica da região. O Cazaquistão, em especial, possui ativos energéticos, dependência fiscal e relevância geopolítica que motivaram o convite de Trump ao coquetel do próximo G20.

 

O Cazaquistão ocupa posição central no tabuleiro energético global. O país detém a 6ª maior dotação mundial de recursos naturais, com reservas comprovadas de petróleo de 3,9 bilhões de toneladas (12ª posição global) e reservas de gás natural estimadas em 2,7 trilhões de m³ (14ª posição). Essa base de recursos sustenta não apenas o crescimento econômico doméstico, mas também sua projeção geopolítica regional e intercontinental.

 

Nos últimos anos, a produção atingiu 85,9 milhões de toneladas de petróleo, dos quais apenas 23% foram consumidos internamente, enquanto a produção de gás somou 54,2 bilhões de m³, com 61% destinados ao mercado doméstico. Ao longo dos últimos 30 anos, a produção de petróleo cresceu 3,5 vezes, consolidando o país como um exportador estrutural: mais de 80% do petróleo produzido é exportado, com o restante direcionado ao refino interno.

 

Essa dependência se reflete diretamente na economia política do país. O petróleo responde por mais de 50% das exportações totais, enquanto o setor de óleo e gás contribui com 30% a 50% das receitas do orçamento republicano, tornando a política fiscal altamente sensível aos ciclos de preços internacionais e à disciplina de produção. Do ponto de vista de capitais, cerca de 33% do fluxo bruto médio de investimento estrangeiro direto (IED) nos últimos dez anos esteve concentrado no setor de petróleo e gás, reforçando a centralidade do upstream na estratégia de desenvolvimento nacional.

 

No contexto geopolítico, Trump pretende colocar uma pedra estratégica à Rússia. A relevância do Cazaquistão transcende o plano econômico. Seus recursos subterrâneos assumem peso geopolítico crescente no contexto da reconfiguração dos fluxos energéticos globais, especialmente após as sanções à Rússia. O país emerge como fornecedor alternativo estratégico tanto para a União Europeia quanto para a China, ambas pressionadas por imperativos de segurança energética.

 

Nessa linha, rotas de exportação não russas ampliam o valor estratégico do Cazaquistão. O fornecimento de petróleo para a Alemanha via Polônia pelo oleoduto Druzhba, bem como os embarques através do oleoduto Baku–Tbilisi–Ceyhan (BTC) até a Turquia e mercados mediterrâneos, reduzem a dependência europeia de Moscou e fortalecem a posição negociadora de Astana. Ao mesmo tempo, essa diversificação expõe o país a riscos geopolíticos indiretos, incluindo tensões no Cáucaso, gargalos logísticos e pressões diplomáticas de potências concorrentes.

 

Por sua vez, o Uzbequistão vem ganhando relevância crescente no radar energético e geopolítico do Ocidente, impulsionado por suas reservas significativas de gás natural, posição geográfica estratégica na Ásia Central e um processo gradual de abertura econômica e reformas estruturais. Embora menos exposto internacionalmente do que o Cazaquistão, o país representa um ativo energético complementar em um cenário global marcado pela busca por diversificação de fornecedores e redução da dependência de fontes russas.

 

Para o Ocidente, o interesse no Uzbequistão não se limita ao gás. O país detém também reservas estratégicas de urânio — figurando entre os 5 maiores produtores globais — além de cobre, ouro e minerais críticos essenciais à transição energética. Essa combinação posiciona o Uzbequistão como um fornecedor potencialmente relevante para cadeias de valor de baixo carbono, especialmente em um contexto de reconfiguração geoeconômica e competição por insumos estratégicos.

 

A intensificação do diálogo com União Europeia, Estados Unidos e Reino Unido reflete essa lógica. Iniciativas de cooperação focadas em energia, mineração, infraestrutura e governança têm avançado, com o Ocidente buscando reduzir riscos políticos, melhorar padrões regulatórios e criar condições para maior participação de empresas internacionais no upstream e midstream energético.

 

Uzbequistão e Cazaquistão têm potencial para desenvolver fontes de energia renovável, como solar e eólica. Espera-se que o desenvolvimento energético acelere até 2030, à medida que as tecnologias de energia renovável se tornam mais acessíveis e competitivas. Dada a localização geográfica e as condições climáticas desses países, as fontes de energia renovável mais promissoras são pequenas usinas hidrelétricas, solar e eólica.

 

A geopolítica energética global está mudando rapidamente após a crise Rússia-Ucrânia. Enquanto o mundo ocidental reage à agressão russa de forma harmoniosa por meio de sanções, também está acelerando sua influência na região ao realizar encontros de cúpula com a Ásia, em especial, Cazaquistão e Uzbequistão.

 

A realização das reuniões de cúpula União Europeia-Ásia Central e Alemanha-Ásia Central levará ao desenvolvimento do Cazaquistão, que tem importância geoestratégica e geopolítica nos esforços do Ocidente para encontrar uma alternativa à Rússia no contexto da crise Rússia-Ucrânia, seja em termos de energia ou rotas de trânsito, contornando a Rússia. É um indicativo de que seu valor está aumentando. À medida que o Ocidente começa a se tornar ativo na região da Ásia Central, as cúpulas entre China, Índia e Rússia com a Ásia Central se destacam, criando um ambiente competitivo.

 

Esse equilíbrio entre oportunidade e vulnerabilidade fazem os países se tornarem ativos estratégicos para investidores institucionais, formuladores de política energética e atores geopolíticos — especialmente em um cenário de fragmentação dos mercados globais de energia e crescente securitização das cadeias de suprimento.

 

 

 

Luis Augusto Medeiros Rutledge é Engenheiro de Petróleo e Analista de Geopolítica Energética. Possui MBA Executivo em Economia do Petróleo e Gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pós-graduado em Relações Internacionais e Diplomacia pelo IBMEC. Atua como pesquisador da UFRJ, Membro Consultor do Observatório do Mundo Islâmico de Portugal, Consultor da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior – FUNCEX, Colunista do site Mente Mundo Relações Internacionais e autor de inúmeros artigos publicados sobre o setor energético.

Comentários


NOSSOS HORÁRIOS

Segunda a Sábado, das 09:00 às 19h.

VOLTE SEMPRE!

NOSSOS SERVIÇOS

Siga nossas redes sociais!

  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • Instagram

O CERES é uma plataforma para a democratização das Relações Internacionais onde você é sempre bem-vindo!

- Artigos

- Estudos de Mercado

- Pesquisas

- Consultoria em Relações Internacionais

- Benchmarking

- Palestras e cursos

- Publicações

© 2021 Centro de Estudos das Relações Internacionais | CERESRI - Imagens By Canvas.com - Free Version

bottom of page