Geopolítica: Impactos nas relações comerciais e no setor de energia
- CERES

- 28 de out.
- 4 min de leitura
Luis Augusto Medeiros Rutledge
Geopolítica Energética
Hoje enfrentamos o cenário mais complexo das últimas décadas. Desde a guerra fria, a ameaça de conflito global nunca não foi tão grande quanto agora. Fatores geopolíticos como disputas comerciais, conflitos regionais e mudanças climáticas estão alterando por completo as condições estruturais para o comércio global e para a transição energética justa.
A política das grandes potências voltada para economia de mercado nas últimas décadas se tornou um princípio global de ordem e estabeleceu um paradigma que vinha se se mostrando eficaz até o ataque russo à Ucrânia.
O mundo atual está passando por alterações geoestratégicas que estão remodelando o comércio global, antes pouco impactado pelos efeitos da geopolítica. Agora, a política das grandes potências permanece navegando em primeiro plano, juntamente com as guerras que se alastram em diferentes regiões do mundo, não somente no Médio Oriente e na Europa, mas também no continente africano, particularmente no Sudão em guerra desde 2023.
No sistema econômico-político das últimas décadas, as relações entre as principais potências econômicas em todo o mundo se baseavam num modelo estabelecido onde a geoeconomia havia substituído a geopolítica e acreditava-se firmemente que os conflitos não podiam mais ser resolvidos militarmente, mas economicamente. A premissa de que as potências ocidentais poderiam conter confrontos bélicos ao impor negociações e sanções foi totalmente por terra.
A partir da crise do petróleo na década de 1970, cada vez o acesso a matérias-primas e as capacidades de produção se tornaram ferramenta de influência na política energética global. Entretanto, após Moscou iniciar seu ataque em larga escala na Ucrânia, os políticos ocidentais verificaram a não existência de um plano global, tanto em termos de política energética quanto de política de segurança. Em especial no continente europeu, a segurança do gás russo se transformou no que sempre foi, uma solução dolorosamente transitória.
Estamos diante de grandes desafios que envolvem soberania e dinâmicas geopolíticas complexas, transição energética, segurança no abastecimento e impactos na economia global. O maior deles, a disputa político-econômica entre a parceria estratégica entre Rússia e China contra os Estados Unidos e a União Europeia. Por outro lado, estamos diante de questões transfronteiriças, como Gaza e mudanças climáticas, que exigem cooperação internacional independente de posições políticas. Em paralelo, os atuais conflitos também escancaram que organismos internacionais, como a ONU, apresentam falta de poder e limitações para impor resoluções efetivas.
No contexto da geopolítica energética, sem questionar a urgência da transição para fontes renováveis, é nítido observar que a presença da energia fóssil é ainda determinante para o desenvolvimento global. E, desta forma, a Rússia mesmo após encerrar a parceria com a União Europeia volta a se apresentar de forma estratégica uma importante potência energética. Desse ponto de vista, o alinhamento com a China faz sentido mesmo que Moscou se torne economicamente dependente da China e, expõe mais uma vez, que a relação entre geopolítica e energia é um fator determinante para as relações econômicas globais.
Os Estados Unidos são agora o maior fornecedor de gás natural liquefeito para a União Europeia. No entanto, a Europa já fez uma grande aposta geopolítica na energia, e não terminou bem. Recorrer à dependência do que poderia se tornar outro parceiro não confiável traz riscos, especialmente com um presidente dos EUA na Casa Branca disposto a usar todas as alavancas disponíveis para extrair concessões dos aliados.
As commodities energéticas, como petróleo e gás natural, continuam sendo os pilares da economia global, caracterizadas por sua alta liquidez e papel crucial no comércio, diversificação de portfólio e crescimento econômico.
Os riscos geopolíticos afetam o comércio de energia de vários países até certo ponto, mas as causas dos riscos geopolíticos são complexas, e o comércio de energia também envolve muitos aspectos, portanto, o impacto da geopolítica no comércio de energia também é complexo.
É perceptível que através da transição energética e das relações multipolares, fornecedores de energia e de outras commodities não necessariamente compartilharão os mesmos valores caracterizando equilíbrios instáveis.
Assim, os atuais eventos nos fazem interpretar que a adaptação ao mundo multipolar é, portanto, por um lado, tornar-se resiliente por meio da diversificação das fontes de abastecimento, atualmente ainda para o gás, e por outro lado, lidar com a possibilidade de impor o cumprimento dos acordos através da demonstração de força militar.
Enxergando uma similaridade com a primeira década do século XX, não temos um mundo unipolar dominado por forças do liberalismo, nem uma ordem bipolar como na época da Guerra Fria, mas sim inúmeros potenciais de conflito.

Luis Augusto Medeiros Rutledge é Engenheiro de Petróleo e Analista de Geopolítica Energética. Possui MBA Executivo em Economia do Petróleo e Gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pós-graduado em Relações Internacionais e Diplomacia pelo IBMEC. Atua como pesquisador da UFRJ, Membro Consultor do Observatório do Mundo Islâmico de Portugal, Consultor da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior – FUNCEX, Colunista do site Mente Mundo Relações Internacionais e autor de inúmeros artigos publicados sobre o setor energético.





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