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A Grande Retirada: O Ataque de Trump à Cooperação Internacional e à Ordem Global

  • Foto do escritor: CERES
    CERES
  • 9 de jan
  • 4 min de leitura

No dia 7 de janeiro, Donald Trump assinou uma declaração que anunciava a saída dos Estados Unidos de 66 instituições internacionais, das quais 32 fazem parte do chamado “sistema ONU”. Esse movimento não constitui um fato isolado nem uma excentricidade conjuntural, mas sim a continuidade de uma estratégia política claramente definida: uma cruzada aberta contra o multilateralismo, a cooperação internacional e qualquer forma de governança global que limite a capacidade de ação unilateral de Washington.


Entre as instituições afetadas figuram organismos de enorme peso simbólico e estratégico, como o Fórum Global de Contraterrorismo, o Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral (IDEA), a Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o Fundo das Nações Unidas para a Democracia, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, bem como plataformas especializadas como ONU-Oceanos e ONU-Água. Não se trata, portanto, de organismos secundários, mas de pilares fundamentais da arquitetura institucional que tem sustentado a ordem internacional contemporânea.


Essa retirada em massa evidencia uma contradição central no discurso político estadunidense das últimas décadas: a suposta vocação de liderança global baseada em valores como a democracia, a cooperação, a estabilidade e o desenvolvimento sustentável. Quando uma potência abandona os principais espaços de concertação internacional, não apenas renuncia a influenciar neles, como também enfraquece os mecanismos coletivos concebidos para lidar com problemas que, por definição, não reconhecem fronteiras: as mudanças climáticas, a segurança global, as crises humanitárias ou a proteção dos bens comuns planetários.


A ideia de que os Estados Unidos atuam como garantidores da ordem internacional e benfeitores do mundo já não é apenas uma falácia: é uma contradição evidente. Não existe liderança sem responsabilidade, nem soberania sem interdependência. Em um planeta profundamente conectado, o isolacionismo não é neutro; é uma forma ativa de desestabilização. Ainda assim, grande parte da opinião pública segue sem compreender o papel real das instituições internacionais. A ONU é frequentemente acusada de não agir diante de guerras, ditaduras ou crises humanitárias, sem que se leve em conta que ela não é um governo mundial nem um organismo dotado de poder coercitivo. A ONU é, acima de tudo, um espaço de diálogo entre Estados, não um hegemon global nem uma autoridade supranacional. Exigir que funcione como uma polícia internacional é tão absurdo quanto pedir a uma sala de reuniões que resolva um conflito familiar: confunde-se o fórum com o poder.


O mais revelador desse processo é que as críticas já não provêm apenas de setores progressistas, multilaterais ou tradicionalmente críticos a Washington. Até mesmo figuras da ultradireita internacional — geralmente próximas ao discurso de Trump — começaram a manifestar inquietação diante do desprezo sistemático pelos princípios básicos do direito internacional. Marine Le Pen, líder do Rassemblement National francês, posicionou-se publicamente contra a gestão norte-americana em episódios recentes, como o polêmico caso da detenção de Nicolás Maduro. E o fez não como um apoio político ao líder venezuelano, mas como uma defesa explícita do princípio da soberania estatal e da ordem jurídica internacional.


Em suas declarações, Le Pen ressaltou que a soberania dos Estados é um princípio inviolável, independentemente de seu tamanho, poder ou alinhamentos ideológicos, e advertiu que permitir exceções oportunistas hoje equivale a aceitar a própria subordinação amanhã. Sua postura, paradoxal para muitos, revela até que ponto a estratégia norte-americana está extrapolando inclusive os limites ideológicos que costumavam sustentá-la. Quando a ultradireita europeia invoca o direito internacional frente a Washington, algo se rompeu no relato hegemônico.


Mais preocupante ainda é o impacto geopolítico dessa política. Trump não demonstrou apenas indiferença em relação aos mecanismos multilaterais, mas também em relação a seus próprios aliados históricos. Suas declarações sobre a Groenlândia, seu tom confrontacional com a Europa e seu desprezo pelos consensos transatlânticos revelam uma visão puramente instrumental das relações internacionais, na qual até mesmo alianças estratégicas são subordinadas a uma lógica de dominação e vantagem imediata.

Essa abordagem não busca o fortalecimento do sistema internacional, mas sua reconfiguração sob uma lógica de poder cru: bilateral, transacional e hierárquica. Em vez de normas compartilhadas, imposição; em vez de cooperação, pressão; em vez de governança, confronto.


O que se desenha, em última instância, é um projeto de retorno a uma ideia anacrônica de hegemonia: um mundo no qual os Estados Unidos não lideram por meio do consenso, mas pela força; não inspiram, mas impõem; não cooperam, mas condicionam. Sob essa lógica, o “interesse nacional” torna-se um eufemismo para justificar o desmantelamento dos equilíbrios coletivos que, com todas as suas imperfeições, sustentaram a estabilidade global desde o fim da Segunda Guerra Mundial.


A grande questão não é se esse modelo é viável, mas quanto dano colateral ele produzirá antes de colapsar. Porque a história demonstra que, quando as grandes potências abandonam os espaços de diálogo, não surgem soluções, mas vazios de poder. E os vazios, mais cedo ou mais tarde, sempre são preenchidos.



Wesley Sá Teles Guerra é especialista em cooperação internacional e paradiplomacia, com sólida formação em instituições de referência internacional. É fundador do Centro de Estudos das Relações Internacionais (CERES), no Brasil, e atualmente atua como gestor do Fundo de Cooperação Triangular entre Europa, América Latina e África, na Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), com sede em Madrid.

Ao longo da sua trajetória, realizou estudos em instituições como o CPE de Barcelona (Negociações Internacionais), a FESPSP (Relações Internacionais e Ciência Política), a Universidade da Corunha – UDC (Mestrado em Políticas Sociais e Migrações), o MIB de Massachusetts (MBA em Marketing Internacional), a Universidade de Andorra (Mestrado em Smart Cities) e é doutorando em Sociologia pela UNED (Espanha).

É autor dos livros Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de sobrevivência das Relações Internacionais. Participa regularmente em fóruns internacionais sobre cidades inteligentes, governança global e paradiplomacia, e foi comentarista convidado da emissora CBN Recife. Também foi finalista do Prémio ABANCA de investigação académica. Além disso, integra redes e plataformas como CEDEPEM, ECP, Smart Cities Council e REPIT, com ativa participação no âmbito internacional.

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