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A Teocracia de Guerra: A instrumentalização da fé no conflito russo-ucraniano

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    CERES
  • 8 de jan.
  • 5 min de leitura

O papel da Igreja Ortodoxa Russa (IOR) no cenário contemporâneo transcende o domínio do sagrado para se tornar um dos pilares mais sofisticados da geopolítica de Vladimir Putin. Para compreender a profundidade desse fenômeno, é necessário dissecar a simbiose entre o Patriarcado de Moscou e o Kremlin, que transformou a fé em uma ferramenta de expansão territorial e influência cultural global.


Diferente da Igreja Católica, que possui uma estrutura centralizada no Vaticano, a Ortodoxia é uma comunhão de igrejas independentes. Historicamente, essa estrutura favoreceu o conceito de "sinfonia", uma doutrina bizantina que prega a harmonia e cooperação mútua entre o Estado (o Imperador) e a Igreja (o Patriarca).


Sob o comando do Patriarca Kirill, a IOR resgatou essa tradição, mas com uma roupagem moderna e autoritária. A Igreja deixou de ser apenas uma guia espiritual para se tornar a guardiã da identidade nacional russa, fornecendo ao Estado a legitimidade moral que o nacionalismo secular, por si só, não conseguia sustentar após o colapso do comunismo.


Russkiy Mir: a doutrina do "Mundo Russo"


O conceito de Russkiy Mir (mundo russo) é a base intelectual que sustenta o expansionismo de Moscou. Esta doutrina afirma que existe uma civilização russa transnacional que une a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia (a "Santa Rus") através de uma língua comum, uma história compartilhada e, crucialmente, a submissão ao Patriarcado de Moscou. É a crença de que russos, ucranianos e bielorrussos são, na verdade, um único povo.


Enquanto o Russkiy Mir é um conceito civilizacional e político, a Santa Rus é uma categoria mística. Ela remete ao período da Rus de Kiev (século IX a XIII), quando o Príncipe Vladimir se converteu ao cristianismo em 988 d.C. O Patriarca Kirill frequentemente afirma que a Ucrânia, a Rússia e a Bielorrússia nasceram da mesma pia batismal em Kiev. Portanto, a tentativa da Ucrânia de se separar da influência russa é vista como um "pecado" contra a unidade divina da Santa Rus. A Santa Rus não é apenas um lugar no mapa, mas a ideia de que esses povos têm uma missão especial dada por Deus: preservar a Ortodoxia contra as heresias. Se a Ucrânia se torna ocidental e secular, na visão de Moscou, ela está traindo a Santa Rus.


Nesse paradigma, as fronteiras políticas são secundárias às "fronteiras espirituais". Se um território faz parte da herança ortodoxa russa, Moscou reivindica o direito e o dever de exercer influência sobre ele. É a justificativa teológica para a negação da soberania ucraniana, tratando o país vizinho não como uma nação independente, mas como uma província espiritual rebelde.


A instrumentalização geopolítica


A fusão entre a estratégia de segurança do Kremlin e a narrativa religiosa criou uma teocracia de guerra, que gera essa simbiose não apenas num apoio moral, mas uma redefinição do conflito para que ele se torne imune à crítica racional e política. Quando o Kremlin transforma questões de segurança, como a expansão da OTAN ou a soberania ucraniana, em questões de fé, ele remove essas pautas do campo do debate diplomático.


A invasão da Ucrânia em 2022 foi apresentada pelo Patriarca Kirill não como uma agressão política, mas como uma "guerra metafísica". Segundo essa narrativa, a Rússia não está lutando apenas contra o exército de Kiev, mas contra uma ordem mundial satânica e liberal liderada pelo Ocidente. O conflito é pintado como uma defesa contra a imposição de valores ocidentais, como os direitos LGBTQ+, o secularismo e o feminismo. Kirill chegou a afirmar que soldados russos mortos no campo de batalha teriam seus pecados lavados, uma retórica que remete às Cruzadas medievais e que santifica a violência estatal ao transformar o medo da morte em uma esperança de salvação. E se a guerra é metafísica e ordenada para preservar a Santa Rus, questionar a estratégia militar passa a ser visto não apenas como traição ao Estado, mas como apostasia (traição a Deus).


Se a fé ortodoxa de Moscou é a única legítima dentro da Santa Rus, todas as outras expressões religiosas são consideradas ameaças à segurança russa.


O governo russo intensificou a repressão a comunidades de fé nas áreas ocupadas. Especialistas explicam que a Ucrânia, desde 1991, construiu um ambiente de forte pluralismo religioso e cooperação entre diferentes crenças, algo que contrasta com o modelo russo. Nas regiões ocupadas, esse choque resulta em prisões arbitrárias, tortura, assassinatos de padres e pastores e fechamento de igrejas. Protestantes, testemunhas de Jeová, muçulmanos e ortodoxos não vinculados a Moscou estão entre os mais perseguidos. Centenas de templos foram destruídos ou confiscados, cultos foram proibidos e fiéis são intimidados e interrogados. O atual regime russo se tornou mais brutal que o da era soviética tardia e que o nacionalismo religioso ligado à Igreja Ortodoxa russa sustenta parte dessa repressão. Uma ofensiva direta contra a liberdade religiosa.


O perigo do imperialismo religioso


A ordem diplomática mundial é construída sobre o Direito Internacional e o princípio da soberania nacional. O conceito de Russkiy Mir atropela esses princípios ao priorizar a "jurisdição espiritual". Quando a vontade de um líder é confundida com a "vontade de Deus", as leis humanas e os tratados internacionais, como o Memorando de Budapeste, tornam-se irrelevantes. Isso destrói a confiança mútua necessária para a diplomacia, por que outros países assinariam acordos com uma potência que se sente divinamente autorizada a romper qualquer norma em nome de uma missão divina?


A diplomacia baseia-se na ideia de que ambas as partes podem ceder algo para ganhar a paz. No entanto, se o território em disputa é definido como o berço sagrado da Santa Rus, qualquer concessão territorial é interpretada como uma profanação. Não se negocia um milagre ou uma herança divina. Sendo assim, o custo político de um acordo de paz torna-se insustentável para o líder, bloqueando qualquer saída que não seja o acesso a esse território.


O grande perigo que o imperialismo religioso impõe à política internacional é a substituição da racionalidade pela intransigência do sagrado. Quando um conflito sai do campo dos interesses nacionais e entra no campo da "salvação da alma", a diplomacia tradicional torna-se obsoleta.


A era da desinformação global amplifica isso: o "evangelho do ódio" é exportado instantaneamente, criando uma base de apoio transnacional que vê na guerra uma cruzada necessária, tornando qualquer tentativa de paz mediada pela comunidade internacional um ato de traição à tradição.


João Pedro do Nascimento

Bacharel em Relações Internacionais, com pós-graduação em Políticas Públicas. Atua como editor-chefe de um site especializado em análises internacionais e tem experiência em tradução, mediação de negócios e cooperação internacional. Fluente em inglês e espanhol, já colaborou com empresas e organizações em contextos multilíngues e multiculturais


Referências

COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. Religion and Foreign Policy Webinar: The Russian Orthodox Church in Global Affairs. Council on Foreign Relations. Disponível em: <https://www.cfr.org/event/religion-and-foreign-policy-webinar-russian-orthodox-church-global-affairs>.

 

CSIS. Russia’s Religious Persecution and Misinformation in Ukraine. Center for Strategic & International Studies. Disponível em: <https://www.csis.org/analysis/russias-religious-persecution-and-misinformation-ukraine>.

 

JILGE, Wilfried. Russkiy Mir: “Russian World” | DGAP. dgap.org. Disponível em: <https://dgap.org/en/events/russkiy-mir-russian-world>.

 

REID, Graeme. Russia, Homophobia and the Battle for “Traditional Values”. Human Rights Watch. Disponível em: <https://www.hrw.org/news/2023/05/17/russia-homophobia-and-battle-traditional-values>.

 

YOUNG, Cathy. Blaming the Ukraine Invasion on … the Gays? Cato Institute. Disponível em: <https://www.cato.org/commentary/blaming-ukraine-invasion-gays>.

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