A Democracia Está Morrendo. Ainda Não Percebemos
- CERES

- há 2 dias
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Wesley Sá Teles Guerra
A democracia não morrerá pelas mãos de um general, nem será enterrada por um golpe de Estado clássico. Não haverá tanques nas ruas, nem o encerramento abrupto dos parlamentos, nem a suspensão imediata das constituições. A democracia do século XXI morre de forma muito mais sutil, mais sofisticada e, por isso mesmo, mais perigosa: morre pelas mãos dos próprios cidadãos, convencidos de que estão a defendê-la.
Vivemos num mundo profundamente polarizado. Um mundo onde a verdade deixou de importar, onde as fake news se converteram em instrumentos de poder e, em muitos casos, em verdadeiras ferramentas de Estado. Um mundo onde a acusação precede a prova, onde a condenação antecede o julgamento e onde a emoção vale mais do que qualquer evidência.
Enquanto isso, as grandes potências voltaram a disputar aquilo a que chamam "áreas de interesse" — uma expressão elegante para ocultar uma realidade antiga: a disputa pelo controle de recursos naturais, mercados e zonas de influência. O colonialismo apenas mudou de linguagem. Um neocolonialismo revestido de uma mensagem messiânica e eufemista. Mas continua significando que os países mais fortes decidem quais são os recursos dos mais fracos.
Não importa se o discurso vem da esquerda ou da direita. A fórmula repete-se quase mecanicamente.
Primeiro apropriam-se dos símbolos nacionais. A bandeira deixa de representar todos os cidadãos e passa a representar apenas um grupo político. O hino, as forças armadas, a religião, a seleção nacional, a própria ideia de patriotismo deixam de ser património coletivo para se tornarem propriedade ideológica.
Depois chega a divisão.
Pouco a pouco instala-se uma lógica simples, quase infantil, mas extraordinariamente eficaz:
"Nós" contra "eles", onde “Nós somos os patriotas”, “Nós somos os cidadãos de bem”, “Nós defendemos a moral”, “Nós protegemos a família”, “Nós salvaremos a nação” ….
Do outro lado deixam de existir adversários políticos. Passam a existir inimigos.
E quando alguém deixa de ser visto como adversário para ser visto como inimigo, desaparece qualquer possibilidade de negociação.
O diálogo deixa de ser uma virtude democrática. As próprias instituições são cooptadas por essa dissonância cognitiva alimentada por uma alienação voluntária, onde os fatos já não importam… a oposição, passa a ser considerado uma traição.
É precisamente aqui que nasce o autoritarismo… alimentado desse ódio, porém imbuído pela institucionalização…a normalização do discurso...o uso da democracia em contra da democracia...
Não quando se fecha um parlamento.
Mas quando uma sociedade aceita que determinados grupos já não merecem ser escutados, quando um líder diz que não haverá eleições para impedir o avanço da oposição, ou quando um presidente eleito critica o processo eleitoral do seu próprio país para se perpetuar no poder…
E tanto a esquerda como a direita, entraram nesse jogo… as redes sociais permitiram acelerar este processo como nunca visto… usando subterfúgios legais como “liberdade de expressão” a falta de filtros de segurança ou de certificação de verissimilidade das notícias, produziu uma explosão de fake News e de discursos de ódio e a normalização destes, com a subsequente desumanização do opositor… chegando alguns extremos onde a sua vida, não vale nada…
E isso não está acontecendo em um simples estado falido, que também… mas na suposta maior democracia do planeta…
Quando Donald Trump desafia tratados internacionais, enfraquece instituições multilaterais e transforma a política externa norte-americana numa sucessão de decisões unilaterais que ameaçam a estabilidade construída após a Segunda Guerra Mundial.
Ainda assim, milhões continuam convencidos de que assistem ao renascimento da democracia. O mundo observa quase em silêncio, como os súbditos do conto de Hans Christian Andersen “A Roupa Nova do Imperador”, onde todos fingem ver as magníficas vestes do imperador. Ninguém ousa dizer que ele está nu.
A democracia não morre quando deixam de existir eleições. Morre quando os cidadãos deixam de acreditar nos factos e passam a acreditar apenas naquilo que desejam que seja verdade. Morre quando odiar o outro se torna mais importante do que defender os próprios direitos. Morre quando trabalhadores votam contra os trabalhadores, mulheres contra as mulheres, imigrantes contra os imigrantes, vítimas das alterações climáticas contra a própria ciência. Morre quando a identidade vale mais do que a realidade. E o mais trágico é que, quando finalmente percebermos que o imperador está nu, talvez já não exista democracia suficiente para o dizer em voz alta.

Wesley Sá Teles Guerra é especialista em internacionalização, cooperação internacional e paradiplomacia, com sólida formação acadêmica em instituições de referência internacional. É fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais, no Brasil, e atualmente atua como gestor do Fundo de Cooperação Triangular entre Europa, América Latina e África na Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), com sede em Madri.
Ao longo de sua trajetória acadêmica e profissional, realizou estudos no Centre de Promoció Econòmica de Barcelona, em Negociações Internacionais; na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), em Relações Internacionais e Ciência Política; na Universidade da Corunha (UDC), onde concluiu o Mestrado em Políticas Sociais e Migrações; no Massachusetts Institute of Business, onde obteve um MBA em Marketing Internacional; na Universitat Carlemany, onde concluiu o Mestrado em Smart Cities; na Universidade Internacional da Andaluzia (UNIA), em Gestão de Fundos e Projetos Europeus; e atualmente é doutorando em Sociologia na Universidade Nacional de Educação a Distância (UNED), da Espanha.
É autor das obras Cadernos de Paradiplomacia, Paradiplomacy Reviews e Manual de Sobrevivência das Relações Internacionais. Participa regularmente de fóruns internacionais sobre cidades inteligentes, governança global e paradiplomacia, além de ter atuado como comentarista convidado da CBN Recife. Foi finalista do Prêmio ABANCA de Pesquisa Acadêmica e integra redes e plataformas internacionais como CEDEPEM, ECP, Smart Cities Council e REPIT, mantendo participação ativa em iniciativas internacionais voltadas à cooperação, à inovação e à governança.





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