Copa do Mundo e a Política de Pão e Circo: o espetáculo que reorganiza a atenção global
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- há 1 dia
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Júlia Saraiva
Na Roma Antiga, os imperadores compreenderam que a estabilidade política dependia não apenas da força militar, mas também do controle da atenção pública. Surgia então a política do panem et circenses — pão e circo — expressão utilizada pelo poeta romano Juvenal para criticar a estratégia imperial de oferecer alimento e grandes espetáculos à população enquanto questões estruturais, como desigualdade, corrupção e disputas políticas, permaneciam em segundo plano.
Mais de dois mil anos depois, a lógica parece ter sobrevivido. Os gladiadores deram lugar aos atletas, o Coliseu foi substituído por estádios ultra modernos e o espetáculo tornou-se global. A Copa do Mundo, maior evento esportivo do planeta, movimenta bilhões de dólares, atrai chefes de Estado, mobiliza a imprensa internacional e concentra a atenção de milhões de pessoas. Não é exagero afirmar que, durante algumas semanas, a agenda mundial gira em torno do futebol.
É justamente nesse ponto que a teoria do Agenda-Setting ajuda a compreender o fenômeno.
Desenvolvida pelos pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shaw, a teoria surgiu a partir de um estudo realizado nas eleições presidenciais americanas de 1968 e publicado em 1972 no artigo The Agenda-Setting Function of Mass Media. A principal conclusão dos autores foi que a mídia não determina necessariamente o que as pessoas pensam, mas influencia fortemente sobre quais assuntos elas pensam.
Em outras palavras, a disputa política também é uma disputa pela atenção.
Quando determinados temas ocupam manchetes, transmissões esportivas e redes sociais durante semanas, outros acontecimentos passam a receber menor destaque. Isso não significa afirmar que exista uma conspiração midiática ou uma ocultação deliberada dos fatos. Significa reconhecer que a atenção pública é limitada e que alguns eventos possuem força suficiente para monopolizá-la.
A Copa do Mundo de 2026 oferece um exemplo emblemático desse processo.
Sediada por Estados Unidos, Canadá e México, a competição deveria representar uma vitrine do soft power americano, conceito desenvolvido por Joseph Nye para descrever a capacidade de um país influenciar outros por meio da cultura, dos valores e da atração, em oposição ao hard power, baseado na coerção militar, econômica ou política.
Historicamente, os Estados Unidos utilizaram Hollywood, a música, as universidades e o esporte como instrumentos de projeção internacional. Entretanto, a Copa de 2026 expõe uma contradição: enquanto o país busca se apresentar como anfitrião do maior espetáculo esportivo do mundo, o governo Trump intensifica políticas associadas ao hard power, especialmente no campo migratório.
O aumento das restrições de vistos, o endurecimento dos controles fronteiriços e a presença ostensiva do ICE — Immigration and Customs Enforcement — nos arredores do torneio transformaram a festa do futebol em um espaço atravessado por tensões políticas.
Segundo reportagens publicadas pelo G1 e por organizações de direitos humanos, a atuação do ICE gerou preocupação entre comunidades imigrantes, que passaram a temer detenções e fiscalizações intensificadas durante o evento. Em um dos episódios mais controversos, relatórios apontaram que o futebol estaria sendo utilizado como “isca” para localizar imigrantes em situação irregular, ampliando a sensação de insegurança entre estrangeiros residentes nos Estados Unidos.
A contradição torna-se ainda maior porque a Copa, por definição, deveria simbolizar circulação de pessoas, intercâmbio cultural e integração entre nações. Contudo, parte dos torcedores enfrenta dificuldades para entrar no país justamente no momento em que a FIFA promove o torneio como uma celebração global.
O caso iraniano talvez seja o mais emblemático.
Em meio à escalada das tensões entre Washington e Teerã e ao agravamento do conflito envolvendo os Estados Unidos e o Irã, a seleção iraniana transformou-se em personagem involuntária de uma disputa geopolítica maior.
Jogadores e dirigentes enfrentaram obstáculos burocráticos, enquanto torcedores iranianos tiveram dificuldades para acompanhar o torneio presencialmente. Dentro de campo, atletas da seleção chegaram a enviar mensagens de paz e unidade, evidenciando o desconforto de representar um país envolvido em uma crise internacional durante um evento que se propõe a unir povos. Paradoxalmente, enquanto esses episódios ocorrem, a atenção mundial permanece concentrada no espetáculo.
Discute-se a qualidade dos gramados, o desempenho das seleções, os recordes de audiência e a atmosfera dos estádios. Os debates sobre imigração, política externa ou direitos humanos não desaparecem, mas ocupam um espaço reduzido diante da magnitude do evento. É nesse sentido que a política de pão e circo continua atual.
Ela não exige censura, tampouco a eliminação do debate público. Basta que exista um acontecimento suficientemente poderoso para reorganizar prioridades e monopolizar a atenção coletiva.
A própria FIFA parece compreender essa lógica. Embora se apresente como uma instituição neutra e defensora da união entre os povos, a entidade tem sido criticada por sua postura diante das controvérsias envolvendo a Copa de 2026. O presidente Gianni Infantino evitou confrontar diretamente as políticas migratórias americanas e foi alvo de críticas após sua proximidade com Donald Trump e pela polêmica envolvendo a concessão de um prêmio da paz ao presidente norte-americano.
A ausência de posicionamentos mais contundentes reforça a percepção de que, para a FIFA, preservar o espetáculo é mais importante do que enfrentar os conflitos políticos que o cercam.
Além disso, a presença constante de lideranças políticas nos jogos evidencia que a Copa está longe de ser um espaço neutro. Figuras como Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos e personagem altamente polarizador dentro da política americana, utilizam o torneio como palco simbólico de projeção política e nacionalismo.
O futebol, portanto, não está separado da política. Pelo contrário: ele é uma das suas arenas mais poderosas.
Se na Roma Antiga o pão e circo serviam para manter a população entretida enquanto o Império enfrentava suas contradições, hoje os megaeventos esportivos desempenham uma função semelhante em escala global. A Copa do Mundo de 2026 não elimina os conflitos políticos dos Estados Unidos, nem apaga as tensões internacionais. Mas, ao concentrar a atenção do mundo em torno do espetáculo, contribui para que muitas dessas questões deixem de ocupar o centro do debate.
E talvez essa seja a maior demonstração de que a política de pão e circo nunca desapareceu. Ela apenas aprendeu a jogar futebol.
“As declarações aqui expressas são de responsabilidade do autor”.
Biografia:

Júlia Saraiva, formada em Relações Internacionais pela UniLaSalle-RJ e cursando pós graduação em Ciências Políticas e Relações Internacionais na FAAP. Tem pesquisa acadêmica voltada para as políticas dos Estados Unidos e do Oriente Médio, com ênfase na influência de lobbies, estratégias militares e relações diplomáticas na região. Pesquisadora do Centro de Estudos de Relações Internacionais CERES e consultora de internacionalização de empresas.





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