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Quando a Força Vem Antes da Paz: O Preço do Poder na Escalada Entre EUA, Israel e Irã

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    CERES
  • há 29 minutos
  • 6 min de leitura

Júlia Saraiva


O ataque dos Estados Unidos contra três instalações nucleares marca um ponto de inflexão na política internacional contemporânea. Trata-se não apenas de um episódio isolado, mas de um movimento que evidencia o colapso progressivo das normas multilaterais, a corrosão do Direito Internacional e a supremacia da lógica da força na condução das relações internacionais.  


À luz dos principais marcos teóricos da segurança internacional, este evento confirma a centralidade dos paradigmas realistas na análise da política externa norte-americana. O realismo ofensivo, proposto por John Mearsheimer, sustenta que as grandes potências, inseridas em um sistema internacional anárquico, buscam maximizar seu poder de forma contínua, operando sob a lógica de que segurança só é garantida pela supremacia material. Isso gera, inevitavelmente, ciclos de insegurança, escaladas e dilemas de segurança, onde o fortalecimento de um ator resulta na percepção de ameaça para os demais.  


Ao lado dessa perspectiva, o realismo neoclássico, teorizado por Gideon Rose, oferece uma lente indispensável para compreender como variáveis domésticas condicionam a forma como os Estados respondem às pressões sistêmicas. No caso específico dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump, a política externa não pode ser dissociada das dinâmicas internas. O presidente norte-americano enfrenta uma crescente crise doméstica, com investigações, denúncias e uma possível movimentação de impeachment. Assim, o ataque ao Irã responde tanto a imperativos do sistema internacional quanto à necessidade de reforçar sua legitimidade interna e mobilizar apoio doméstico.  


Essa dinâmica é reforçada pela teoria dos jogos de dois níveis, desenvolvida por Robert Putnam, que evidencia como os líderes negociam simultaneamente em arenas domésticas e internacionais. Nesse sentido, Trump busca, de um lado, reafirmar a hegemonia americana no Oriente Médio e, de outro, deslocar o foco da opinião pública interna, fragilizada por seus próprios escândalos, para uma pauta externa que possa gerar coesão nacional.  


Além disso, é impossível ignorar a contribuição do pensamento clássico de Carl von Clausewitz, que define a guerra como a continuação da política por outros meios. No entanto, no caso específico da política externa trumpista, esse conceito é radicalizado: a guerra não apenas dá continuidade à política, mas se torna, ela própria, um instrumento central de manutenção de poder interno. A decisão de atacar sem autorização do Congresso americano demonstra um desprezo aberto pelas limitações institucionais internas e pelas normas do Direito Internacional, em um movimento que subverte tanto as práticas democráticas quanto os princípios que regem a ordem global.  


O ataque evidencia uma absoluta priorização da força sobre qualquer tentativa diplomática. A destruição das instalações nucleares iranianas não responde a uma ameaça iminente, nem a um cenário de legítima defesa — únicos critérios que poderiam justificar, ainda que parcialmente, a ação no escopo do Direito Internacional. A operação, portanto, configura uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas, aprofundando a crise de credibilidade das instituições multilaterais e expondo a fragilidade das estruturas normativas frente ao unilateralismo das grandes potências.  


No entanto, o que parecia ser um movimento isolado de ataque cirúrgico ganhou novos contornos após a coletiva oficial do governo dos Estados Unidos, realizada no dia 22 de junho de 2025. Nela, o porta-voz do Departamento de Defesa confirmou que os ataques não se limitam apenas às três instalações nucleares iranianas. Segundo a declaração, os EUA agora consideram "ações adicionais caso o Irã não recue em suas atividades nucleares e em seu apoio a grupos aliados na região, especialmente Hezbollah e milícias no Iraque e no Iêmen". A coletiva também revelou que o governo norte-americano está mobilizando mais ativos militares para a região, incluindo navios de guerra e baterias de defesa antiaérea, sinalizando claramente a disposição para uma escalada mais ampla do conflito.  


Essa declaração pública escancara a disposição dos EUA de transformar a operação inicial em uma campanha militar prolongada, caso suas exigências não sejam atendidas. Além disso, o discurso carrega a mesma retórica coercitiva já presente nas falas de Trump: "O Irã sabe exatamente o que precisa fazer. Ou eles escolhem a paz, ou escolhem enfrentar as consequências" , reforçando a ideia de que qualquer saída passa, inevitavelmente, pela rendição do adversário frente ao uso da força.  


Do ponto de vista estratégico, a decisão de Trump revela três objetivos centrais. O primeiro é conter o avanço nuclear do Irã, enfraquecendo sua capacidade de dissuasão e limitando sua influência regional. O segundo é fortalecer a aliança com Israel, que adota uma linha política igualmente belicista e compartilha da visão de que "primeiro vem a força, depois vem a paz", como declarou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O terceiro, e talvez mais decisivo, é o objetivo doméstico: desviar o foco da opinião pública americana dos escândalos internos, da instabilidade econômica e da crescente polarização social.  


Contudo, ao perseguir esses objetivos, Trump amplia perigosamente o risco de uma escalada regional de proporções catastróficas. A resposta iraniana é uma variável incontornável, podendo incluir ataques diretos a Israel, operações contra bases militares americanas no Oriente Médio e o uso de proxies, como o Hezbollah no Líbano e grupos houthis no Iêmen. O Iraque, já profundamente instável, encontra-se em alerta, temendo se tornar, mais uma vez, campo de batalha para potências rivais.  


O impacto global também se faz sentir de forma imediata. O aumento vertiginoso dos preços do petróleo, a convocação de reuniões emergenciais por parte de potências como a Coreia do Sul e a declaração do secretário-geral da ONU, António Guterres, de estar "gravemente alarmado" são sinais evidentes de que o conflito ultrapassou a lógica bilateral e se inscreveu em um tabuleiro geopolítico de alcance global.  


A imprevisibilidade da política externa trumpista, caracterizada pela preferência por canais informais como as redes sociais, em detrimento das vias diplomáticas tradicionais, agrava ainda mais a incerteza internacional. Este padrão não é meramente estilístico; ele representa uma ruptura profunda com os princípios do liberalismo institucionalista e com a própria tradição diplomática norte-americana. O uso ostensivo da mídia como instrumento de ameaça e intimidação reforça a lógica da guerra como espetáculo, onde a construção de narrativas serve tanto para mobilizar apoios internos quanto para projetar poder externo.  


Sob a ótica da segurança internacional, o episódio reafirma que o sistema permanece essencialmente anárquico, onde a força continua a ser a moeda mais valiosa. Ao ignorar o Congresso e desconsiderar os marcos normativos internacionais, Trump reafirma um padrão histórico da política externa dos EUA, onde a defesa da ordem baseada em regras é seletiva e instrumental — válida apenas quando se alinha aos interesses estratégicos americanos.  


A frase de Trump — "Ou haverá paz, ou haverá tragédia para o Irã" — sintetiza com brutalidade a lógica coercitiva que move sua administração. A paz, aqui, não se apresenta como fruto de um processo negociado, de reconhecimento mútuo ou de mediação internacional, mas sim como o resultado da imposição da força, da intimidação e da destruição das capacidades do adversário. Essa concepção remete diretamente à lógica hobbesiana de um sistema internacional anárquico, onde a busca por segurança se traduz em maximização de poder, mesmo que isso aprofunde os dilemas de segurança e a instabilidade global.  


O que se observa, portanto, é um enfraquecimento acelerado da ordem internacional liberal, substituída por uma lógica de unilateralismo belicista e desprezo crescente às instituições multilaterais. A intervenção dos Estados Unidos, sem aval do Congresso e à margem do Direito Internacional, reafirma um padrão histórico da política externa americana, agora conduzido de forma ainda mais agressiva, imprevisível e personalista sob a liderança de Trump. A escalada do conflito não é um desvio nem um episódio isolado; é a expressão mais concreta da consolidação de uma doutrina onde o uso da força não é a exceção, mas o próprio método.  


E diante desse cenário, cabe perguntar: até onde vai o custo da força antes que ela própria se torne insustentável?   


"As declarações aqui expressas são de responsabilidade do autor".  



Júlia Saraiva   

Formada em Relações Internacionais pela UniLaSalle-RJ. Tem pesquisa acadêmica voltada para as políticas dos Estados Unidos e do Oriente Médio, com ênfase na influência de lobbies, estratégias militares e relações diplomáticas na região. Assistente Comercial na empresa Rio de Negócios, consultora de internacionalização de empresas e pesquisadora do Centro de Estudos de Relações Internacionais (CERES).  


Referências Bibliográficas   

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